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ARTIGOS Sexta-feira, 08 de Junho de 2018, 10h:18 | - A | + A




Fake News é a norma

Fake News é a norma

Roberto Barros de Freire

Muitos estão focados nas atuais “fake news”, quando deveriam se preocupar, se há ainda, num universo tão repleto de mentiras e falsidades, alguma verdade. Os fatos são contados de forma tão parcial, os acontecimentos são interpretados de forma tão pequena e a realidade fica distorcida por conceitos impróprios e muitos preconceitos, que julgam mais que descrevem as ocorrências, que mais que comentar os eventos, se finda julgando-os, e invariavelmente condenando os outros.

As pessoas estão mais preocupadas em vencer uma discussão do que estabelecer a verdade, querem antes derrotar os demais do que construir uma conversação, pois ninguém está disposto a mudar de posição, e se considera ofensivo quando se enuncia seus equívocos. 

Procuram-se apenas aqueles que confirmem nossos pontos de vistas e hostilizam-se todos aqueles que se diferenciam, sem diferenciar suas diferenças. Enfim, prepara-se apenas para se impor sobre os outros, e para tanto, por se tratar de uma guerra contra os demais, pode-se recorrer a todos os recursos, mesmos os desonestos, pois numa guerra só importa a vitória, ou pelo menos a derrota dos inimigos.

Na verdade, a convivência com as mentiras vem desde tenra infância, vamos aprendendo a mentir com nossos pais desde crianças. E quase todos consideram a mentira algo necessário para a convivência diária, que seria insuportável se todos fossem sempre verdadeiros, e que algumas mentiras são sinais de educação e cortesia. Considera-se usual e necessário mentir sobre as aparências, elogiando os defeitos, minimizando falhas comportamentais, concordando só da boca para fora com as posições do outro; parece que para ser agradável é preciso ser desonesto.

E assim, muitas frases não significam o que dizem, por exemplo, se alguém depois de muito tempo sem te ver, te encontra e afirma que você não mudou nada, tenha certeza que ele ou ela considera que envelheceu, mas não vai dizer isso: se não tivesse mudado nada, ela nem notaria, nem faria esse comentário; é por ter mudado que ela faz essa observação. 

Enfim, o que mais se tem na praça são mentiras e falsidades. Alguém pode sinceramente acreditar nos nossos governantes e políticos? Podemos confiar nos produtos ou na forma de produção das coisas nacionais? É público e notório que a regra nacional é tentar tirar proveito, mesmo que de forma desonesta, que o importante é vencer e ter sucesso, não importando a forma como se chegou ao topo.

Não são as virtudes que garantem a vitória, mas a esperteza, a ligeireza, a enganação, e que, como se considera que todos demais são desonestos, justifica-se a própria desonestidade encima da desonestidade dos demais. Isso seria errado se as pessoas fossem boas, mas como as pessoas são más, fico liberado para praticar maldades, assim raciocinam os desonestos.

Em nosso país poucas coisas são realmente confiáveis. A imprensa é bastante parcial, os religiosos têm pouca religiosidade e muita ganância política e monetária, os políticos mentem, enganam e roubam descaradamente, os laços de lealdade se dão entre pessoas e grupos, nunca com a nação e com os cidadãos, e toda eticidade é dedicada aos laços familiares, não tendo o mesmo procedimento com a coisa pública ou com as demais pessoas. E em terras brasileiras, até mesmo o suposto direito de não produzir provas contra si, é entendido como um pétreo direito de mentir para salvar a própria pele; em nome da minha “salvação” posso tudo, até praticar maldades.

A mentira é decorrência de nossa infantilidade, da dificuldade de encarar como gente adulta nossos reais defeitos e enfrentar a dura realidade nacional de nossa covardia, que podemos matar por nossas causas, mas ninguém está disposto a morrer pela pátria. Mentir é o que faz toda criança quando pega num delito e busca uma justificativa para seu deslize; adultos deveriam enfrentar seus deslizes ao invés de justificá-los.

Minha preocupação, portanto, é tentar resgatar alguma verdade no mar de desonestidade que assisto diariamente na imprensa, na rua, no convívio social, na política, na economia, na diversão e no trabalho. Não quero que continue a vencer aquele que melhor mente e mais engana. Naturalmente, é provável que morra sem ver a verdade prevalecer nesse mundo.

Roberto Barros de Freire é professor do Departamento de Filosofia da UFMT.

 

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