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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

BRASIL Segunda-feira, 06 de Agosto de 2018, 12h:30 | - A | + A




MATERNIDADE

Mães universitárias compartilham vivências e avaliam amparo de instituições

Por: IG

Para alunas de instituições públicas, acolhimento e burocracia se mostraram piores do que para alunas de instituições de ensino superior privadas

A experiência de ser mãe não é fácil. Aos olhos da sociedade, a maternidade se torna um empecilho e, em muitos momentos, as mães são excluídas do convívio social. Mães universitárias sabem bem disso. Das mulheres que abandonam os estudos a aquelas que se desdobram em mil para conseguir dar continuidade ao curso, todas passam por dificuldades.

Cada instituição, seja ela pública ou privada, conta com suas próprias regras de direitos às mães universitárias . Entretanto, por lei, as universidades e faculdades devem garantir às alunas uma licença maternidade de três meses, em que elas estudariam em casa, a partir do oitavo mês de gestação. Corre, contudo, um novo projeto de lei que aumenta o período de regime de exercícios domiciliares para seis meses.

Até que este seja aprovado e entre em vigor, as mulheres ainda devem lidar com uma série de dificuldades, principalmente  quando retornam às aulas - isso quando retornam, porque muitas, diante dos empecilhos e falta de infraestrutura e tato de funcionários para lidar com as alunas mães nas instituições, trancam a matrícula ou abandonam o curso de vez.

Bruna Trevizan, mãe do Caíque e aluna do segundo ano de Biologia da Unesp em Jaboticabal, foi às redes denunciar e desabafar sobre as dificuldades que encontrou desde a gravidez e que segue enfrentando com o filho, agora com oito meses.

No Facebook, ela relatou que já precisou trocar a fralda de Caíque no chão, pois a universidade não conta com trocadores e não há um berçário com vagas para os filhos das alunas.

“Há um cartaz no centro médico do meu campus incentivando a amamentação, mas recusaram o atestado que a pediatra deu pedindo que eu entrasse em regime domiciliar até que ele completasse seis meses para que eu pudesse continuar amamentando, porque a resolução interna entende que se EU não estou em condição de saúde [que precise] de repouso absoluto, eu não tenho direito a nada além da licença maternidade (mesmo que meu filho precise muito de mim - no caso, para se alimentar, base da sobrevivência rs)”, escreveu.

 

Bruna chegou até a ouvir que deveria trancar sua matrícula quando deu entrada no pedido de licença maternidade, mas decidiu resistir. Ao Delas, ela detalha sua experiência.

“A primeira vez que não fui respeitada foi quando fui fazer o requerimento na graduação para trancar a matrícula em algumas matérias [decisão que ela tomou devido à rotina de exames médicos que teria durante a gestação]. Fui fazer, e é um papel em que temos de dizer o motivo de trancar as matérias. Escrevi e entreguei para a funcionária. Ela tinha ficado especulando o tempo todo o motivo, e eu só tinha dito que era por motivos médicos, pois ainda não queria que ninguém soubesse da minha gravidez. Quando ela pegou meu requerimento, não se aguentou e falou em voz alta, ‘Ah! É porque você está grávida’. Tinham vários alunos na sala…”, relembra.

E, apesar de sua licença maternidade ter sido aceita - até por ser lei -, Bruna conta que enfrentou dificuldades com alguns professores, já que o benefício determina que as mães universitárias sigam fazendo provas e trabalhos, apenas em regime domiciliar, e, portanto, é preciso conversar com os docentes.

“Precisei falar na ouvidoria por conta de um professor que insistia que eu deveria comparecer presencialmente às atividades. No fim, ele me passou 13 listas de exercícios com 20 exercícios cada para resolver em 5 dias e entregar escaneado - tudo na semana que o meu bebê nasceu. Aí nem corrigiu, deu só a nota necessária para passar na matéria. Se eu tirei uma nota maior do que isso, não sei até hoje”, diz.

Retornar às aulas se mostrou mais um desafio. Bruna precisava levar o filho para amamentá-lo, o que exigia que seu namorado ou pai fossem com ela para a universidade para ficar com Caíque enquanto ela estivesse na aula. O esquema era inviável e, depois de a faculdade não aceitar seu atestado para regime domiciliar até que o filho completasse seis meses - mesmo com o médico da faculdade aceitando o pedido - ela se viu obrigada a ordenhar, “mas a faculdade também não oferece um local privado, com higiene adequada, para isso”.

“Teve um dia que, quando cheguei em casa, tirei 250 mL de leite ordenhado, sendo que normalmente eu tirava 50 mL, no máximo, de tanto que meus seios incharam. Eles doeram muito, ficaram super quentes, fiquei com medo de empedrar até”, afirma.

Ela também não pôde contar com a creche de seu campus, pois todas as vagas haviam sido ocupadas por filhos de funcionárias, “ainda bem que elas contam com esse suporte, mas as alunas também deveriam poder”.

Ela pondera, contudo, que teve professores muito carinhosos e sensíveis, que entenderam sua situação, desde a gestação, e ajudaram como puderam. Assim como seus colegas de sala, que deram todo o suporte que estava ao alcance deles.

Procurada, a assessoria especial de planejamento estratégico da pró-reitoria de planejamento estratégico e gestão da Unesp afirma que a universidade conta com 14 centros de convivência infantil, que atendem crianças de até quatro anos e que “há uma reserva de 15% das vagas para o atendimento de filhos ou dependentes de alunos”.

Agora, Bruna luta por outras mães universitárias: “parir não é parar! Continuem mesmo que a caminhada seja difícil, pois vale à pena. A sociedade e o sistema podem agir como se ali não fosse nosso lugar, mas é! Nosso lugar é onde quisermos”.

Outras mães universitárias do ensino superior público

Das mães universitárias que o Delas entrevistou: Júlia, aluna de Letras na USP, e sua filha Luísa, de cinco anos
Acervo pessoal
Das mães universitárias que o Delas entrevistou: Júlia, aluna de Letras na USP, e sua filha Luísa, de cinco anos

 

A situação de desamparo vivida por Bruna, uma das mães universitárias buscadas para essa reportagem, não é exceção. Aliás, costuma ser a regra. Apesar de a maioria das instituições públicas e privadas obedecerem a licença maternidade, raramente existe algum tipo de apoio ou infraestrutura para as mães universitárias e seus filhos. 

É o que diz Júlia Rocha, mãe da Luísa, de cinco anos, e aluna de Letras da Universidade de São Paulo. Segundo ela, a falta de preparo dos departamentos e dos professores para lidar com uma aluna gestante e, futuramente, mãe, fez com que ela decidisse trancar sua matrícula no terceiro ano do curso para cuidar da filha.

“Já durante a gravidez a minha vida estudantil começou a ficar complicada. Perdi provas, inclusive substitutivas, por estar passando muito mal e estar anêmica e ninguém me ofereceu nenhuma outra alternativa ou solução, mesmo sendo ‘muito compreensivos’ com a minha situação”, relembra.

O retorno aos estudos também não foi fácil, porém Júlia reconhece que talvez não tenha sido dos mais difíceis já que ela não amamentava mais a filha. “Eu entrei com ela em algumas aulas, mas em geral preferia não arriscar, tinha medo da reações dos professores. Das vezes que entrei, ouvi de alguns professores que não precisava ficar na aula com ela, que não levaria falta por isso. Em outros casos, o professor simplesmente seguiu a aula, como se nada estivesse acontecendo, enquanto ela ficava brincando ou desenhando do meu lado. Mas, em geral, a avó dela - mãe do pai –, ficava com ela pra mim”, diz.

Em relação à infraestrutura, Júlia afirma que o edifício da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), onde estuda, não conta com fraldários, nem trocadores, mas as pias dos banheiros são grandes e a filha cabia deitada quando precisava.

A USP ainda conta com uma creche, porém Júlia afirma que ela nunca conseguiu uma vaga para Luísa, nem conhece outras mães universitárias que tenham conseguido usufruir desse benefício.

“A verdade é que não me senti amparada em nenhum aspecto, não fui informada sobre nada, não senti nem que teve uma tentativa de facilitar o que quer que fosse para eu seguir a minha graduação como qualquer outro estudante ”, ressalta Júlia, que estuda no período da manhã/integral.

Leia também: Especial Mês das Mães: mulheres comentam as dificuldades de ser mãe solteira

Procurada pela reportagem do Delas, a USP não soube informar sobre os benefícios e estrutura disponíveis para mães universitárias, citando apenas a creche.

Na Unifesp, a ex-aluna Giovana da Silva Costa, mãe da Júlia, de quase dois anos, também não encontrou amparo e acabou se vendo forçada a abandonar de vez o curso de Filosofia, no qual estava matriculada.

Ao Delas, Giovana conta que entrou na faculdade já sabendo de sua gravidez e que tinha planos de concluir pelo menos o primeiro semestre da graduação, para então poder trancar a matrícula. “Quando foi chegando perto do fim do semestre, eu já estava no sétimo para oitavo mês e sentia muita dor no quadril para me locomover, então pedi a licença maternidade. Faltava ainda um mês para a minha filha nascer, mas eu não estava conseguindo ir para a faculdade, de tanta dor que sentia.”

“Pedi a licença, deixei na secretaria, tudo certinho e arranjei para terminar as provas do fim de semestre em casa. Só que não recebi nenhum retorno. Eu ligava, se não todo dia, quase todo dia, mandei e-mail para todos os professores das matérias que eu ainda precisava fazer prova, solicitando fazer em casa para eu ter a nota e finalizar o semestre, mas ninguém me respondeu. Aí eu falei: ‘não deu para terminar, acabou, não vou voltar mais’. Foi nesse momento que eu desisti”, recorda Giovana, que admite que a distância entre sua casa, em Ribeirão Pires, para o campus da Unifesp em Guarulhos também pesaram na decisão de desistir.

Ela conta ter se sentido muito decepcionada por não ter conseguido concluir o semestre pois seu plano era sair de licença maternidade e, depois, retornar às aulas normalmente. “Quem sabe se eu tivesse tido uma resposta diferente da faculdade eu tinha continuado a graduação? Batalhei bastante pra conseguir passar, quando eu finalmente entrei foi maravilhoso, eu queria muito ter continuado. Mas não sei dizer, até porque, quando caí na real e vi o que era ter um bebezinho, percebi que era muito mais difícil. Teria que voltar às aulas com a minha filha praticamente recém-nascida”, pondera.

Giovana ainda fala de como acaba sendo prejudicial para as mães universitárias que trancam ou abandonam a universidade passar tanto tempo longe dos estudos. “Até por uma questão de socialização. Ser mãe é muito solitário”.

Ela ainda sonha em voltar a estudar. Planejando prestar novamente o vestibular no fim deste ano, a jovem teve os planos adiados ao descobrir que está grávida novamente. “Mas estou muito feliz [com a nova gestação]. Quando o meu bebê tiver um ano, volto com certeza”.

Pensando no que ela gostaria que as universidades oferecessem para as mães universitárias, Giovana fala em creches dentro do campus, assim como flexibilização de faltas.

Consultada, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis da Unifesp afirma já contar com o Programa Auxílio Creche/Unifesp, que oferece uma bolsa de R$ 120 mensais “exclusivamente aos e às estudantes matriculados nos cursos presenciais de todos os campi da universidade”, porém, é necessário apresentar um comprovante de vulnerabilidade socioeconômica e a criança deve ter até seis anos. Para além disso, os edifícios da universidade não possuem banheiros adaptados com trocadores “ou qualquer outra infraestrutura para receber os(as) filhos(as) de estudantes”.

Mães universitárias nas instituições particulares de ensino superior

Anabel (esq) e Jessica foram mães universitárias da rede privada, na Belas Artes e na Cásper Líbero respectivamente
Acervo pessoal
Anabel (esq) e Jessica foram mães universitárias da rede privada, na Belas Artes e na Cásper Líbero respectivamente

 

Assim como existe uma diferença grande entre escolas fundamentais e de ensino médio públicas e privadas, o depoimento de mães universitárias que estudaram em instituições particulares mostra que essa diferença se estende para o ensino superior.

Anabel Carvalho Martins Filardi, formada em moda pela Belas Artes e mãe do Lorenzo, agora com quase cinco anos, diz não ter tido problemas com a instituição. “Dei à luz no último semestre, tive quatro meses de licença maternidade e terminei o TCC [trabalho de conclusão de curso] em casa. Talvez por ser uma instituição de arte, mais humana, tenha sido mais tranquilo”, argumenta.

Uma de suas ressalvas, porém, é a falta de preparo dos professores para lidar com gestantes e mães universitárias. Enquanto Anabel teve professores super compreensivos, inclusive sua orientadora de TCC que a passava na frente dos outros grupos nas aulas de orientação porque ela era preferencial, outros não foram tanto.

“Tive uma professora que, quando eu cheguei em sala de aula com a barriga mais aparente, falou para todo o mundo ouvir: ‘você acabou com a sua vida’. As instituições deveriam preparar os professores, porque o acolhimento nesse momento é muito importante”, defende ela, que também fala da infraestrutura que, no caso da Belas Artes, também faltou: “não tem um fraldário”.

De acordo com a assessoria da instituição, esta conta com trocadores, mas mais detalhes em relação à estrutura e benefícios às mães universitárias não foram informados.

A jornalista Jessica Miwa, formada pela Faculdade Cásper Líbero e mãe do Gael, de três anos e meio, também afirma ter sido bastante privilegiada no sentido de conseguir continuar a graduação mesmo com o filho pequeno.

“No começo, eu pensei em trancar, mas conversei com algumas professoras e elas me falaram da licença de três meses. No fim, o Gael nasceu em dezembro, e eu acabei perdendo mesmo só uma semana de faculdade”, diz.

Para ela, o problema mesmo foi no estágio profissional, pois não existe nenhuma lei que garanta às estudantes grávidas a possibilidade de licença ou home office, apesar de existir um projeto de lei. “Meu chefe me deu uma segurança enorme, disse que não conseguiriam me pagar a licença maternidade, mas que eu podia tirá-la que eles iam segurar a minha vaga e estender meu plano de saúde para o meu filho. Mas, quando eu voltei, ele foi transferido, e aí a empresa disse que não tinha mais vaga para mim e me demitiu”, conta.

Não ter uma fonte de renda fixa, ainda morando numa cidade longe da família, que é do interior, e sem o apoio do pai de Gael, Jessica se viu obrigada a fazer vários trabalhos como freelancer, enquanto cuidava do filho e ia para a faculdade. "Mal dormia”.

Por sorte, a faculdade permite às alunas que levem um/a acompanhante para ficar com os bebês das alunas. “A minha avó veio do interior para me ajudar. Ela tem uma história de vida super batalhadora: teve um derrame, precisou prover sozinha para cinco filhos, enterrou um deles e, quando tudo isso acabou, prontamente veio me ajudar. E ela fez isso com muito amor,  ficar com o meu filho enquanto eu tinha aula. Virou a sensação da faculdade”, relembra Jessica.

A jornalista ainda diz ter sido bastante acolhida pelos professores da instituição, passando apenas por um problema burocrático no primeiro dia da volta às aulas com Gael e sua avó, quando quase não conseguiu entrar no edifício pois não tinha uma autorização específica. “O vice-diretor acabou resolvendo e, depois, não passei mais por isso, mas faltou muita sensibilidade dos funcionários do prédio”.

Falando sobre outras coisas que faltaram naquele momento, Jessica cita a ausência de trocadores - “tinha que fazer no próprio carrinho”.

A reportagem do Delas entrou em contato com a Faculdade Cásper Líbero, e a coordenadora do curso de Jornalismo, Helena Jacob, reconheceu a falta de infraestrutura da instituição para mães universitárias, mas disse que mudanças já estão sendo pensadas e que, até lá, os coordenadores dos cursos da faculdade são orientados a disponibilizarem as salas das respectivas coordenadorias às mães universitárias.

“Precisamos criar uma sala que atenda essas e outras necessidades dos nossos alunos. Como mãe, sei bem do apoio que precisamos, ainda mais na volta da licença maternidade. Estou à disposição para ajudar os pais e mães universitárias em tudo que precisarem”, disse a coordenadora.

 

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