ESPECIAL - O CASO DO "FISCAL LAURO" | MUVUCA POPULAR

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018

ESPECIAL Quinta-feira, 14 de Junho de 2018, 15h:15 | - A | + A




O mistério que assombra Rondonópolis

ESPECIAL - O CASO DO "FISCAL LAURO"

Por: Muvuca Popular

Lauro Santos de Sá estava de saída quando recebeu um telefonema. Quem falava do outro lado era Antônio Martinelli. Os fiscais conheciam Martinelli pelas “caixinhas da alegria” (propina coletada entre contribuintes) distribuídas na 2ª superintendência regional da Fazenda. A secretaria antes da informatização era dividida em sete regionais. A 2ª regional tinha a sede em Rondonópolis.

O motivo do telefonema era uma multa da 2ª regional no valor equivalente a R$20 milhões, e Martinelli estava preocupado porque os fiscais estavam determinados em cobrar. O fiscal Lauro de Sá parou para ouvir e chegou a sorrir para o homem do outro lado da linha. Por fim o fiscal desligou o telefone e disse aos colegas que pegaria a mulher em casa para irem à feira de sexta-feira.

O fiscal Lauro pegou seu Chevette azul para sair da Rua João Pessoa e se dirigir até a Rua Rio Branco, onde morava com a mulher, Lúcia Scofone Faleiros de Sá, e as duas filhas pequenas. O casal morava em Cuiabá, na Rua São Sebastião, mas eram da cidade de Dom Aquino, onde ele trabalhou na prefeitura. Após o concurso para fiscal de tributos, no final de 1981, resolveu morar em Rondonópolis.

Após aplicar uma multa de R$ 20 milhões, o fiscal Lauro de Sá pegou seu chevete azul, e nunca mais chegou em casa. O carro foi encontrado no sábado de manhã próximo a uma fazenda

O tema política e fiscalização não eram estranhos ao casal devido a amigos e parentes nessas áreas. Os dois não tinham muitos segredos, e ele permitia até que ela ouvisse os telefonemas pela extensão. Morando a pouco mais de um ano em Rondonópolis, passaram no vestibular e estavam estudando na universidade, onde ele fazia contábeis e ela pedagogia.

Lauro nunca mais chegou em casa. O seu carro foi encontrado na saída de Rondonópolis, próximo a fazenda Libanesa. O carro foi visto por um morador da área as 19h00, e ele pensou que o dono estivesse por perto “se aliviando no mato”. Na manhã de sábado, as 9h00, chegou perto do carro e viu a chave no contato. Acabou chamando a polícia rodoviária federal, e eles notaram o sumiço do estepe, macaco e toca-fitas do carro, mas encontraram os objetos escondidos no capim. Junto aos objetos havia uma luva de motoqueiro.

A ocorrência foi repassada para apuração do delegado regional da Polícia Civil, o major Eldo Sá Corrêa. O delegado prometeu rapidez, mas acabou enfartado. A delegacia regional tinha outros abacaxis nas mãos, como o envolvimento de policiais com tráfico de drogas e roubo de carros, e para piorar, havia o “Caso Botininha”. A polícia assassinou um adolescente acusado de traficar e roubar ao menos 20 carros por mês. Porém Rondonópolis não engoliu a execução e cobrava uma polícia mais eficiente e menos corrupta. 

Quatro meses depois, a mulher de Lauro procurou o ministro da Justiça Fernando Lyra, em Brasília. O governo Júlio Campos não dava o devido interesse no caso. O ministro não acionou a polícia federal, e preferiu cobrar ação da polícia estadual. O secretário de Segurança Oscar Ribeiro Travassos destacou um dos “homens de ouro”, o delegado Walter Germano Grubber para as diligências, e como supervisor, o promotor de Justiça Waldemar Rodrigues dos Santos Júnior.

Arte /Muvuca Popular

Recortes de jornais da época relatam caso do fiscal desaparecido

Recortes de jornais da época relatam caso do fiscal desaparecido

A população de Rondonópolis considerava naquele momento que Lúcia de Sá já era viúva. Ela então voltou para Cuiabá para trazer suas filhas a uma rotina. Sem resultado porque as meninas estavam em pânico e não conseguiam estudar. O que sobrou para Lúcia de Sá foi cobrar uma solução para o desaparecimento do marido, e em Rondonópolis todos cobravam uma solução também. Ela sempre procurava o radialista Clóvis Roberto Balsalobre de Queiróz, da Rádio Clube, que era a maior audiência da região.

O desaparecimento do fiscal do estado Lauro causou agitação em toda região de Rondonópolis. O jornal A Tribuna relatou o discurso feito pelo vereador Wilson Rodrigues na Câmara Municipal em que toda a trama teria ocorrido no restaurante Galpão. O jantar foi promovido por Altino Sátiro dos Reis para receber o colega Antônio Felix Alvarez, a eminência parda do governador Júlio Campos. A ausência mais notada foi a de Lauro, e isso não era segredo porque nenhum dos colegas presentes gostava dele.

O desaparecimento do fiscal do estado Lauro causou agitação em toda região. O que sobrou para a esposa foi cobrar uma solução para o desaparecimento do marido, e em Rondonópolis todos cobravam uma solução

O secretário da Fazenda José Augusto Martinez de Araújo Souza declarou na época que a confusão na cidade contra o Fisco era devido a sonegação praticada por quatro ou cinco grandes empresas, com a colaboração dos fiscais daquela superintendência. Os sonegadores estariam inflamando os demais contribuintes, e isso acabava por envolver toda a sociedade, incluindo os políticos.

O presidente da associação comercial, Wellington Antônio Fagundes, apontou para outra questão. Os comerciantes denunciaram a corrupção dos fiscais de Rondonópolis, e a secretaria da Fazenda reagiu violentamente deflagrando a “Blitz Peneirão”, onde eram tratados com agressividade e multados em valores exorbitantes. Isso para os pequenos contribuintes, porque os grandes comerciantes e as cerealistas (como era chamado o “Agro” na época) continuavam sem ser incomodadas pela fiscalização.

A safra 83/84 deveria ter deixado para os cofres públicos o valor aproximado de R$3 bilhões em impostos, apenas com a soja. O que não ocorreu. Apesar dos valores serem previsíveis, a análise dos relatórios ocorria três meses após os lançamentos, e diante do volume de informações, o trabalho não era feito. A fiscalização ficava as cegas sem esse trabalho de inteligência.

O secretário Martinez confessou que somado a ineficiência havia a corrupção. Os fiscais, ou 30% da força de fiscalização de tributos em Rondonópolis, estariam ajudando sonegadores com empresas fantasmas e fraudes nos relatórios alterando dados da agricultura para o comércio. O valor que era sonegado estava entre 60-70% do que deveria ser arrecadado na região. O secretario acabou assinando a portaria 130/85 removendo os fiscais comprometidos de Rondonópolis para outras regionais.

Curioso que a blitz e o jantar, dois dos fatos mais discutidos na época, ocorreram após a assinatura da portaria 090/85 da remoção do fiscal Lauro de Sá para Rosário Oeste, e antes do seu desaparecimento, ou seja, tudo ocorreu em um espaço de trinta dias. Segundo as noticias da época, o envolvimento de fiscais com sonegadores começou a ser investigado após as denúncias dos comerciantes, e que Lauro seria o elo desse esquema. O problema é que Lauro se recusou a sair de Rondonópolis.

O fiscal conhecia todo o esquema de sonegação e contrabando, como café, açúcar e soja para o Paraguai. As provas estariam guardadas na sua maleta de couro preta. A maleta era muito usada pelo pessoal da fiscalização para carregar discretamente um revolver 38. Mas a de Lauro era mais famosa, e temida. Quando saiu a sua ordem de remoção, ele foi à sede da secretaria de Fazenda, e retirou uma cópia dos documentos da maleta. Depois disso, sua remoção foi esquecida.

O fiscal conhecia todo o esquema de sonegação e contrabando, como café, açúcar e soja para o Paraguai. As provas estariam guardadas na sua maleta de couro preta. A maleta era muito usada pelo pessoal da fiscalização para carregar discretamente um revolver 38. Mas a de Lauro era mais famosa, e temida

Desaparecido pouco depois, em junho, a polícia apresentaria suas conclusões em março do ano seguinte, 1986. O que a polícia apurou não foi aproveitado pelo ministério público. Segundo o promotor Leonir Colombo, o trabalho que o delegado Grubber fez era inútil para Justiça. O delegado, o próprio secretário de Segurança, e outras autoridades, sempre anunciavam a conclusão do caso. Por fim, o delegado Grubber chamou a imprensa para ler 12 mil páginas do inquérito para apontar dois “laranjas” de uma multinacional, que não disse o nome, como responsáveis pelo desaparecimento e provável assassinato do fiscal.

O deputado Antônio Ferreira Neto, do PMDB, deu outra coletiva e apontou que eram dez pessoas envolvidas no caso, de uma forma ou de outra, sendo elas Antônio Martinelli, que abriu uma empresa fantasma chamada Marajoara em nome dos testas-de-ferro José Carlos Luz e Jesus Lopes de Oliveira, e ainda os empresários José Luiz Bianchini, Orlando Sadica e Orlando Deblaze, os contadores Antonio Pareja Filho e Reginaldo Santos, e os fiscais Ihamber Saddi Rezende e Jorge Saied Picciani. O grupo teria lesado o fisco no valor equivalente a R$300 milhões e o fiscal Lauro teria a cópia do livro contábil original, e era interesse do grupo essa cópia.

O “Caso Lauro” se tornou material radioativo em Rondonópolis e ninguém queria ser associado com ele. O deputado estadual Zanete Ferreira Cardinal, do PDT, cogitou sair do partido após Gilson Duarte de Barros, candidato a governador, espalhar que o prefeito Carlos Gomes Bezerra teria em seu poder um dossiê que o implicava no “Caso Lauro”. O deputado Ferreira Neto disse que após a Justiça soltar Martinelli, os deputados do PFL, Pedro Rodrigues de Lima e Antônio Alberto Schommer, e o fiscal Lhamber, teriam ido à sua residência oferecer solidariedade, conforme os boatos na cidade. Mas, Pedro Lima negou sequer conhecer Martinelli.

O delegado Grubber logo no começo, soube que o fiscal Lauro de Sá ao invés de ir para sua casa foi para a empresa de Martinelli. Por esse motivo, o delegado levou o suspeito para delegacia de Pedra Preta onde foi torturado para assinar a confissão. O que não foi feito. O advogado de Martinelli, William Rodrigues Dias, não apenas declarava na mídia as falhas do processo, ou que o fiscal desaparecido estaria escondido, como também que o delegado teria cometido crimes em Campo Grande, MS. Acabou do delegado e do advogado apresentando queixas-crime um contra o outro.

O governo Júlio Campos chegou ao fim, depois acabou o curto governo Wilmar Faria, e quando assumiu o novo governo Carlos Bezerra, as coisas voltaram ao que eram antes

O processo todo foi confuso. O juiz Luiz Tarabini Machado, diretor do Fórum, após uma entrevista sobre o caso, o que era comum porque todos queriam saber alguma coisa, acabou sendo afastado pelos corregedores Flávio José Bertin e Ernani Viera de Souza, e nomeado em seu lugar o juiz José Silvério Gomes. O Tribunal de Justiça não queria nenhum dos seus membros envolvidos no caso.

O governo Júlio Campos chegou ao fim, depois acabou o curto governo Wilmar Faria, e quando assumiu o novo governo Carlos Bezerra, as coisas voltaram ao que eram antes. A sucessiva troca de autoridades reduziu o ímpeto de solucionar o caso, e hoje muitos preferem esquecer toda a história.

Quanto a Lauro Santos de Sá, nunca foi encontrado, e durante anos se acreditava que estaria afundado em um dos rios da região de Rondonópolis, mas como nunca se encontrou nada, é mais provável que tenha sido queimado em uma das cerealistas que secavam grãos na época do desaparecimento.

 

O assunto se torna irresistível com a nomeação de uma remanescente do grupo de Lauro na corregedoria da Sefaz (Veja).

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COMENTÁRIOS

(6) COMENTÁRIOS

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Alexandra - 14-06-2018 09:21:26

Nosso estado tem muitas sujeiras escondida, leio sobre os casos que eu não conhecia fico indignada, achava que essas coisas só existia em filmes.

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Junior - 14-06-2018 08:51:20

Que vergonha essa historia para nosso Estado, a sujeira varrida para debaixo dos tapetes do governo e da justica, essa sim, tinha o dever de cumprir com suas obrigacões!

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jose antonio silva - 14-06-2018 07:50:55

ESSE PICCIANI, TALVEZ COM ESSA GRANA ROUBADA AQUI (FOI FISCAL DE TRIBUTOS EM MATO GROSSO), É CRIADOR DE GADO DE RAÇA E DEPUTADO PELO RIO DE JANEIRO, ONDE FOI PRESO POR CORRUPÇÃO! SEU FILHO, OUTRO DA MESMA LAIA É DEPUTADO FEDERAL!

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Paulo Filho - 14-06-2018 06:05:16

A matéria foi falha por falar muito pouco do picianni.

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constantino - 14-06-2018 07:01:08

Pelo que li foco da matéria não era o Picciani

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De olhos abertos - 13-06-2018 21:04:58

E estes senhores feudais! Deuses da Sefaz, ainda se dão ao luxo de perseguir colegas dentro da instituição.....

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6 comentários