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O assassinato de Daniel do Indea e a crise da segurança na ótica de um delegado

Por: Muvuca Popular

A cena do homicídio já mostrava várias pessoas ao redor do morto. Muito choro, muita tristeza. O homem estava caído em frente a sua casa, tinha levado cinco tiros à queima roupa. Quando o delegado chegou uma menininha ainda vestindo seu pijama e com o rostinho em profunda agonia, grudou nos seus braços e disse: “Tio, ajuda nóis, ajuda nóis tio”.

A tocaia ocorreu após a sessão da Câmara Municipal em que sempre terminou as 22h00, mas naquela sessão em que se discutiu a venda da água de Tangará da Serra para particulares, e Daniel era contra, terminou as 03h00 da manhã. As 4h00 Daniel estava morto.

O morto era Daniel Lopes da Silva, o Daniel do Indea, vereador assassinado na madrugada de 03/07/2001. A tocaia ocorreu após a sessão da Câmara Municipal que sempre terminou as 22h00, mas naquela sessão em que se discutiu a venda da água de Tangará da Serra para particulares, e Daniel era contra, terminou as 03h00 da manhã. As 4h00 Daniel estava morto.

A história é contada pelo delegado Adriano Peralta Moraes no livro recém lançado “Memórias de um Chefe de Polícia” (R$30,00 na Livraria Janina ou gratuitamente, em partes, pelo Google Books).

Daniel era tio da mulher do delegado, e após as sessões da Câmara Municipal jantava com os sobrinhos as segundas-feiras. Exceto naquela noite em que foi armada a tocaia contra o vereador.

O delegado Adriano Peralta conta que se envolveu muito no caso “Daniel do Indea”. Após a morte do vereador o caso estava em banho-maria até a Câmara Municipal ser desafiada pelo delegado para abrir uma CPI.

Depois disso, com ameaças de morte, pressão dos rotarianos e maçons que temiam manchar a imagem da cidade, acabou se com metade dos vereadores sendo enrolados na trama.

O “Caso Daniel do Indea” se mistura a vários outros causos e reflexões do delegado. Paulista, já tinha morado em Tangará da Serra quando criança, e ainda se lembra quando seu pai deu carona para um homem machucado dizendo que fugiu da Fazenda Pecuama, logo adiante, um jipe cheio de jagunços da fazenda interceptou e arrastou o homem, que gritava socorro para não morrer. A Fazenda Pecuama, latifúndio de cinqüenta mil hectares, pertencia a Olacyr Francisco de Morais.

Adriano Peralta mesmo não fazendo parte do staff do governo Pedro Taques ainda tem carinho pelo ex-chefe. Aliás, ocupou o cargo máximo da carreira como diretor-geral da polícia civil (01/01/2015 até 04/08/2016), mesmo sendo o segundo nome de uma lista tríplice. Isso talvez devido a sua militância política ligada ao PSDB, e a não ser um delegado polêmico.

Falando em polêmicas. Adriano Peralta culpa o governador Silval Barbosa, mas não seu antecessor, delegado Anderson Garcia, por entregar o cargo sem dinheiro, licitação aberta ou estoque de munição. O novo governo teria encontrado tudo zerado. Apenas em abril de 2015, com a apreensão de R$3,2 milhões em Canarana, e após dramática negociação com o Exército para autorizar a compra de munições foi que a Polícia Civil saiu do sufoco. A Polícia Militar não teve esse problema de dormir no ponto.

O ano de 2015 foi o mais terrível para a gestão de Pedro Taques. Segundo o delegado Peralta a percepção do novo governo era o de que o antigo era absolutamente corrupto, e os servidores públicos, por comissão ou omissão, estariam todos envolvidos. Portanto todos das áreas sensíveis como financeiro ou licitação foram removidos. O problema foi que os novos tinham tanto medo de fazerem algo errado que não foram ágeis ou habilidosos o suficiente para tocar a engrenam pública. Em 2015 tudo parou.

Segundo Peralta, os indicadores da Segurança Pública estouraram naquele ano, e o principal indicador é o do homicídio (todas as mortes são relatadas). Várzea Grande apresentou taxa de 85 (a cada grupo de 100 mil pessoas). Logo foi deflagrada a “Operação Sicários” para resolver 100 inquéritos parados envolvendo homicídios. Acabaram detonando “Operação Mercenários”, em que alguns policiais assassinavam indesejados por dinheiro. A taxa de homicídios de Cuiabá e Várzea Grande baixou para 24.

O problema da Segurança Pública não chega a ser policiais civis x policiais militares. Durante a gestão de Peralta houve atritos, mas foram superados, seja no empréstimo da munição ou material para a Civil trabalhar, ou na “Operação Mercenários” com a prisão de militares, ou no compartilhamento de informações. A polícia militar não é problema.

Em maio de 2016 quando o governo se recusou a conceder o reajuste anual (RGA) e sistema de segurança, começando pelo prisional, baixou a guarda e explodiram os “salves” da bandidagem.

Segundo o delegado, um dos problemas é a imprensa, como aconteceu em 2015, quando o governo restringiu as verbas publicitárias, ou a própria gestão da Civil, em que 70% das energias da cúpula da Polícia Civil são para resolver problemas internos. Por exemplo, o governo não poderia ter convocado concursados por falta de dinheiro, mas os nomearam, e durante o curso de formação alguns alegaram maus tratos porque estariam sendo obrigados a fazer limpeza do pátio da academia, ou a trocar os galões de água vazia por outros cheios nos bebedouros (o governo não tinha contrato para pessoal de apoio). Isso sem contar os que foram nomeados para o interior e pressionaram para serem lotados em Cuiabá, derrubando todo o plano de ação da Civil.

Ainda relembrando sua gestão, Peralta diz que problema mesmo nem foi maio de 2016 quando o governo se recusou a conceder o reajuste anual (RGA) e sistema de segurança, começando pelo prisional, baixou a guarda e explodiram os “salves” da bandidagem (atos de terrorismo). O pior de tudo é o ciúme ou a inveja por trabalho sendo bem feito. A gota d água e o que motivou a saída do delegado Adriano Peralta do comando da Civil foram as operações “Carga Máxima”, em que a policia saturava um determinado bairro com policiais e “passava o rodo” em tudo, recolhendo de bicicleta furtada até foragidos da polícia.

A operação mais exitosa da polícia foi proibida pelo governador Pedro Taques para evitar conflitos com outras instituições. A política do governo é estar harmonizado com as instituições, em especial, com o Ministério Público, passando pelo Poder Judiciário. Por esse motivo, o delegado pediu exoneração do cargo.

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COMENTÁRIOS

(9) COMENTÁRIOS

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Joilson de Amorin - 29-05-2018 11:15:16

Ao ler o Titulo da reportagem deu a entender que o delegado Peralta tinha uma ótica que estava sem segurança!!! kkkkkkkkkk

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Ickert - 27-05-2018 12:49:08

Pois é....apostamos todas nossas fichas....confiança no governo que até então pensávamos que era honesto....taques...mas depois de até o sec. Jarbas e os primos do governador tbm serem presos.....pura decepção....ainda constangendo servidor público honesto....perseguindo...raros mas somos....e intimidando.. ....Mato Grosso de transformação nada....de corrupção....nada diferente de Silval.

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constantino - 28-05-2018 10:41:41

Difícil acreditar nesse governo

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Ze - 27-05-2018 07:45:15

A ligação com o governador está no livro. Está é uma resenha do relato do delegado. Leiam antes de comentar bobagens sobre este belíssimo texto. N

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Merlin - 26-05-2018 23:42:39

Estava gostando da leitura, até que sobrou para o governador, vou procurar ler o livro achei meio uma viagem do jornalista, mas enfim, ele deve saber sobre o que esta falando

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Viny - 26-05-2018 23:31:46

Pedro Taques vai falar alguma coisa sobre isso sobre isso??

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Felipe - 26-05-2018 22:49:23

As vezes o site também é cultura, só nao entendi a ligação do governador com esse caso

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Luisao - 28-05-2018 20:57:48

Ele quis dizer que tem gente de outros poderes envolvidos com a criminalidade e toques não deixou ele por mão ou cumprir o seu dever legal de policial. Esse falso moralista do executivo é f...

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Samuel - 26-05-2018 22:41:32

Que leitura ótima ❤ Quem tá dando uma espiadinha no site uma hora dessa vai se dar bem, faz muito tempo e nunca mais ouvi falar desse caso, que triste relembrar e saber que nem tudo foi resolvido

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9 comentários