O massacre no quilombo Mata Cavalo | MUVUCA POPULAR

Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

ESPECIAL Domingo, 20 de Maio de 2018, 05h:01 | - A | + A




Especial Muvuca Popular

O massacre no quilombo Mata Cavalo

Por: Muvuca Popular

A polícia militar invadiu a comunidade quilombola de Mata Cavalo em busca de seus líderes. O saldo da operação policial foi violência gratuita, destruição de propriedades e saque em todas elas. A comunidade ficou tão traumatizada com a ação da polícia que nunca mais foi a mesma, isso foi em meados de 1922.

A história é relatada por Feliciano Galdino de Barros. O lugar é ocupado por descendentes de escravos alforriados e cativos desde o início da colonização em Mato Grosso que vivem na região até os dias atuais. Além da nomeação de Mata Cavalo de Baixo e Mata Cavalo de cima, existe pelo menos seis comunidades divididas territorial e ideologicamente. A região é derivada da Sesmaria Boa Vida.

Notável intelectual cuiabano, Galdino tinha sido professor em Nossa Senhora do Livramento, e conhecia bem a região e as pessoas, e ficou desesperado quando soube da trama envolvendo alguns proprietários rurais e o delegado da cidade, Antônio Estevão de Figueiredo, com a conivência do delegado-geral Olegário Moreira de Barros contra a associação União, de Mata Cavalo. Professor Galdino, como era conhecido, era um jornalista ativista, mas não pôde fazer muito, além de denunciar, pois lutava contra todo o sistema da época, e só não perdeu a vida porque era amigo de gente como José de Mesquita e Dom Aquino Corrêa, Mesquita era Desembargador e Dom Aquino Governador. 

O primo do delegado geral, ao avistar uma menina de onze anos gritou para seus homens: “Enterrem o facão na barriga dessa negrinha”.

A associação do Mata Cavalo vivia do pleno muxirum (mutirão cuiabano) e conseguiu aproximar os moradores vivendo perto uns dos outros em suas palhoças e da sua produção, ou seja, a comunidade rural estava próspera o suficiente para ninguém sair e trabalhar nas fazendas, ou nos canaviais, de Mutum, Santana de Baixo e de Estiva. O salário dos fazendeiros também não era dos melhores. Por exemplo, eles pagavam trezentos réis aos lavradores, uma diária de fome, porque 1 kg de arroz custava seiscentos réis, com casca. 

O delegado Antônio Estevão tinha sido prefeito (ou Intendente Municipal) até sofrer impeachment da Câmara de Livramento. Acabou retornando ao cargo por imposição do governador (Interventor Federal), por acaso, um ex-colega da Guarda Nacional. Depois saiu, e retornou nomeado delegado de polícia. Segundo o professor Feliciano Galdino, o delegado municipal acabou se unindo a dois fazendeiros parentes do delegado geral, sendo um do Mutum, seu cunhado, e a outro de Santana, seu primo. O delegado geral era Olegário Moreira de Barros, e politicamente era forte, tanto que estava a cinco anos no mesmo cargo, independente do governador. O cargo era devido ao tio paterno de Olegário, um coronel da Guarda Nacional, que não admitia não como resposta. 

O objetivo da trama era simples, dissolver a associação de Mata Cavalo, nem que fosse preciso assassinar o principal líder, Silvestre Marinho Duarte. A existência dessa associação significava risco aos negócios dos fazendeiros, devido à ausência de mão-de-obra barata para suas terras e ao risco de perder o controle político na região. Portanto o delegado municipal começou a intimar a liderança para comparecer à delegacia para averiguação. Após o comparecimento todos seriam presos. Mas ninguém saiu de Mata Cavalo.

Com ordem legal reuniu sessenta homens cedidos pelos fazendeiros e no dia 26/07/1922 partiram da cidade para a comunidade. A palhoça de Silvestre Marinho foi queimada após o saque dos seus pertences, bem como foram furtados 75 kg de arroz, os porcos, uma vaca leiteira, sendo que a outra foi abatida para churrasco da tropa, e a sua roça foi destruída. O mesmo aconteceu em cada uma das casas que foram saqueados e queimadas, e as roças destruídas. O delegado municipal torturou uma mulher parturiente, ameaçou outra com um fuzil, e obrigou duas outras a caminhar por 12 quilômetros com 40 kg nas cabeças.

O delegado então alegou desacato e quebra da ordem pública porque os intimados se encontravam escondidos da polícia, e pediu autorização do delegado geral para constituir força policial de captura. Então com a ordem legal reuniu sessenta homens cedidos pelos fazendeiros e no dia 26/07/1922 partiram da cidade para a comunidade. Os homens, liderança ou não, acabaram fugindo para as matas, e ficaram escondidos por três dias, que foi o tempo que a força policial ficou no Mata Cavalo.

A palhoça de Silvestre Marinho foi queimada após o saque dos seus pertences, bem como foram furtados 75 kg de arroz, os porcos, uma vaca leiteira, sendo que a outra foi abatida para churrasco da tropa, e a sua roça foi destruída. O mesmo aconteceu em cada uma das casas, como a de Francisco Anastácio, Macário Ferreira, Benedicto Luiz, José Appollinário, João Paulo, Benedicto Victalino, Vicente Ferreira e Benedicto Gregório, todas foram saqueados e queimadas, e as roças destruídas.

O delegado municipal torturou uma mulher parturiente, ameaçou outra com um fuzil, e obrigou duas outras a caminhar por 12 quilômetros com 40 kg nas cabeças. A tropa também tinha “paisanos” que fizeram das suas, como o tabelião de Livramento (hoje seria dono de cartório), que investiu contra um grupo de quatro crianças gritando como um louco. As crianças correram para o mato. Outro deles foi Gregório Rodrigues da Costa, o fazendeiro de Santana e primo do delegado geral, que ao avistar uma menina de onze anos gritou para seus homens: “Enterrem o facão na barriga dessa negrinha”. Um deles correu contra ela, que correu, mas bateu a cabeça e ficou desmaiada, sendo socorrida por outro capanga do “Coronel Gregório”. O “Coronel” esbofeteou o homem.

O que aconteceu no Mata Cavalos poderia ter repetido o que ocorreu em outra comunidade no ano anterior em que todos foram aprisionados e distribuídos entre as usinas São Miguel e Conceição. A operação policial, de cem homens, sendo a maioria composta por capangas de fazendeiros, teve como saldo o saque e destruição de casas e roças. Além de amarrar mulheres e crianças, também estupraram uma adolescente, assassinaram o líder da comunidade e, roubaram o cofre da associação.

O professor Galdino relatou todos os fatos, de modo individualizado, e procurou justiça para o caso. Entretanto, o caminho apontava apenas para o delegado geral, ou seja, o que se dizia era boato até que fosse materializado em autos de inquérito policial. As vítimas então deveriam formalizar a denúncia na Capital. O gabinete do delegado geral deu ordens para prender quem viesse de Livramento, ou de modo mais explícito, quem fosse negro e mal vestido.

Porém o professor Galdino conseguiu que alguns chegassem até as audiências destinadas a apurar a violência policial. O professor mesmo foi proibido de acompanhar os depoimentos. Durante as oitivas as testemunhas foram coagidas, ou pelo delegado geral ou por seus assistentes. Quanto a acusação ninguém depôs nada. Quanto a defesa do delegado municipal se apresentou um quilombola chamado Manoel de Araújo, conhecido como “Manoel Mentira”, que falou bem do delegado e mal da liderança da associação. O que restou nos autos foi apenas a versão apresentada pelo delegado Antônio Estevão, e o caso foi arquivado.

Desolado pelas coisas terem tomado o rumo que tomou, e também porque os quilombolas foram “aconselhados” a ficarem longe do professor Galdino para que as coisas não ficassem mais feias para todos eles, o professor chegou a seguir a testemunha do delegado, o Manoel Mentira, pelas ruas de Cuiabá, onde fez compras em várias lojas, e se esbaldou nelas. Voltou para Livramento como um “coroné”, bem elegante, e com vários presentes debaixo do braço. Para não ser injusto com ele, o professor Galdino soube que também fora torturado, pelo “anjinho” (pressão nos dedos) e amarrado dois dias em uma estaca.

Pouco depois da operação em Mata Cavalo, outra força policial foi constituída para prender uma liderança na região do Mutum (riacho que deságua a quase 40 km da foz do rio Manso, em Rosário Oeste). A tropa era de 10 militares engrossadas por mais trinta civis. Curioso que a ordem oficial era apenas de um mandado de prisão. A prisão não houve, mas o resultado foi uma tragédia.

Quatorze casas queimadas e as roças destruídas. O lavrador Roberto Antônio de Souza apareceu quando viu sua roça queimando. Foi morto a tiros. A sua mulher, foi retirada da casa e espancada até a morte. O vizinho João Jorge teve 1 tonelada de arroz e feijão queimados no paiol, bem como sua casa e sua roça. A sua mulher fugiu para casa de outro vizinho, o velho Vicente Ferreira das Chagas, mas a tropa a arrancou da casa e ela foi espancada quase à morte. As duas netas do velho também foram espancadas, e uma estuprada, morrendo algumas horas depois de hemorragia interna.

Quem são os personagens envolvidos?
Os três foram advogados e seus nomes hoje batizam ruas de Cuiabá. Antônio Estevão de Figueiredo e Olegário Moreira de Barros militaram na política por muitos anos sendo figuras de destaque no cenário de Mato Grosso. Quanto a Feliciano Galdino de Barros, é um caso à parte. O professor Feliciano Galdino, entre outras obras, escreveu “Lendas Mato Grossenses”, dirigiu colégios em Cuiabá, foi membro do partido trabalhista e depois chefe integralista, sendo que antes pegou em armas para se integrar a “Coluna Prestes” (a polícia o desarmou pouco depois de sair do Centro Operário), era nacionalista, e anti-Estados Unidos, sendo profundamente Católico, e membro da influente “Liga Católica”.

P.S. Até os dias atuais a área de 11.273 onde situa o quilombo (Livramento), vive sob litígio judicial. Muitos personagens do massacre dão sobrenome às famílias tradicionais e endinheiradas de Mato Grosso.

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COMENTÁRIOS

(9) COMENTÁRIOS

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Trot - 21-05-2018 23:10:09

Muvuca Popular justificando o POPULAR no nome e sempre mostrando de que lado está. Dos oprimidos. Por aí

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Leonel - 20-05-2018 17:25:42

Brasil foi descoberto; grito do ypiranga por um alcoolatra subserviente a José Bonifácio, que José da Silveira traiu o Brasil; e ele era português são coisas que este país manchado de lama e corrupção e ainda tem gente que faz acampamento pra quem fez mais roubou. Eu trabalho e não roubo e ninguém faz acampamento pra melhorar meu salário ou pra acabar o excesso de imposto

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Nelso - 20-05-2018 15:26:16

Canalha do passado. Canalha do presente. A história se repete em forma de farsa

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oscar - 20-05-2018 15:25:30

Essas famílias tradicionais q se intitulam cuiabania deveriam pedir desculpas públicas pelas atrocidades que cometeram

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Carlos - 20-05-2018 11:26:38

Cuidado com as ideias de Bolsonaro sobre quilombolas...

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Sandra - 20-05-2018 10:36:23

Lágrimas

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Sérgio Rubens - 20-05-2018 10:30:56

Essa estória nos foi contada pelo Delegado Dr. Joaquim Ramalho dos Santos, quando estávamos participando do Curso Preparatório de Delegados de Policia do Estado de MT, no ano de 1988. Para entendermos de como "NÃO" se comportar como Delegados de Policia. Sábias palavras.

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Pereira - 20-05-2018 07:29:55

Belo resgate histórico, excelente matéria!

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Nhô - 20-05-2018 07:08:00

Mato Grosso tem história, muitas esquecidas, parabéns por esse resgate!

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9 comentários

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