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EDITORIAL: A união quilombola que resultou numa fotógrafa agredida

A fotógrafa Mirian Rodrigues Rosa, no olho do furação que se tornou sua vida após a agressão sofrida por um grupo de amigos de Rafael Andrejanini, tem como pais Teo e Maurícia Rosa. A história dos seus pais foi contada por Alecy Alves, do Diário de Cuiabá, e por Rayane Alves, do Hipernotícias, por ocasião do Dia dos Namorados de 2016.

O casal completou 50 anos de união em 2016. A história dos dois começou em 1966 em Nossa Senhora do Livramento quando Teodoro, o Teo, 73, conheceu a mulher, Maurícia, 68, em um baile que aconteceu entre as várias comunidades da região, quase todas de quilombolas, ou descendentes de ex-escravos. O rapaz se interessou por uma moça, e a chamou para dançar.

Soube que aquela moça era a mesma que o seu padrasto dizia que queria se casar com ele. O padrasto conhecia o pai de Maurícia e para fazer graça com o enteado rapazola dizia que ele já tinha noiva. Muitos anos depois, no baile, finalmente conheceu a menina, já moça, que negou a história, porque eles nunca tinham se visto antes. Mas houve o interesse e Teo acabou indo na casa do pai dela e a pediu em casamento. O pai, Benedito, não colocou obstáculos, a filha pediu alguns dias para pensar.

O medo da noiva era ser abandonada pelo futuro marido. O pai de Teo abandonou a mulher grávida, e eles nunca mais se viram. Acabou sendo criado pelo padrasto Vicente. Por fim, houve o casamento em 1966, apenas no civil devido a praticidade, e a união gerou 11 filhos e 10 netos. 

O casal acabou se mudando para Várzea Grande alguns anos depois, nos anos 70. Como ocorre até hoje com os moradores de Nossa Senhora do Livramento, que deixam seus sítios para trabalhar em Cuiabá ou Várzea Grande. Teo começou na profissão de pedreiro e ficou trabalhando nela por 30 anos, ajudando a construir obras como o Estádio Verdão ou a Escola Presidente Médici. 

A vida do casal sempre foi de poucos, ou quase nenhum recurso, desde o básico como comida, roupas ou remédios (uma filha morreu de sarampo) passando pela construção e manutenção da residência familiar. A casa foi construída pelas mãos dos dois com material compensado. Segundo Maurícia, “em época de chuva forte com ventania alagava toda a casa. Essa era uma das horas que meu coração se enchia de tristeza em ver as coisas dos meus filhos se acabando”.

Por outro lado, a família do agressor da sua filha, quase no mesmo momento, foi agraciada com uma casa do governo, e isso queimou etapas, como o acesso a serviços públicos, como escola próxima ou posto de saúde. A chave da mobilidade social está nos contatos que uma família estabelece com outras a partir do acesso ao bem público. E até hoje isso não é possível para os negros pobres porque parece que a cor da pele tem um peso impedindo essa mobilidade.

Apesar de tudo, das dificuldades que o casal enfrentou para criar os filhos, sempre com “as mãos dadas e com fé em Deus”, a decisão que tomaram na mocidade, a do casamento, e a permanente união, segundo Teo, “foi a melhor decisão que já tomei em todos esses anos de vida”.

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