O segundo turno das eleições presidenciais está expondo uma das faces mais repugnantes da sociedade brasileira: a hipocrisia moral de pessoas que defendem publicamente a honestidade, a família, a religião e os valores cristãos, mas não demonstram o menor constrangimento em mentir, caluniar e espalhar falsidades para favorecer seus candidatos.
Recentemente, deparei-me com uma fala de uma pessoa que traduz perfeitamente essa falência moral: “Sei que é mentira, mas vou postar.” Poucas palavras seriam capazes de revelar tamanha pobreza ética. Não se trata de ignorância, ingenuidade ou manipulação. Trata-se de uma decisão consciente de enganar outras pessoas.
O mais impressionante é que muitos desses propagadores de mentiras são cidadãos que frequentam igrejas, citam passagens bíblicas, defendem os bons costumes e se apresentam como exemplos de integridade. Entretanto, basta uma disputa eleitoral para que a verdade se torne descartável e a desonestidade passe a ser considerada uma virtude, desde que praticada contra o adversário.
Que moralidade é essa que condena a mentira dentro de casa, mas a transforma em arma política nas redes sociais? Que cristianismo é esse que prega o amor ao próximo enquanto promove o ódio e a difamação?
Na filosofia, Immanuel Kant sustentava que a ética não pode depender das conveniências pessoais. Aristóteles ensinava que o caráter se manifesta nas escolhas e nos hábitos. Portanto, mentir deliberadamente não é apenas um desvio de comportamento: é uma manifestação concreta dos valores que orientam nossas ações.
A psicologia explica parte dessa contradição pelo desengajamento moral, conceito desenvolvido por Albert Bandura. O indivíduo encontra justificativas para praticar aquilo que sabe ser errado. A mentira passa a ser tolerada porque supostamente serve a uma causa maior. É o velho princípio de que os fins justificam os meios, transformado em desculpa para a degradação do caráter.
Mas precisamos abandonar a ingenuidade de acreditar que essas pessoas se tornam desonestas apenas durante as eleições. As redes sociais não fabricam necessariamente a falta de caráter; muitas vezes apenas retiram a máscara que a convivência social ajudava a manter.
Quem compartilha conscientemente uma mentira demonstra que sua fidelidade ao grupo está acima do compromisso com a verdade. Isso não significa que uma postagem isolada defina toda a personalidade de alguém, mas a repetição deliberada desse comportamento revela uma disposição moral preocupante.
O mais perverso é que muitos desses falsos moralistas exigem honestidade dos políticos enquanto praticam a desonestidade que dizem combater. Querem governantes íntegros, mas não conseguem preservar a própria integridade diante de uma postagem.
O Brasil escolherá seu presidente em 25 de outubro. Entretanto, independentemente do vencedor, continuará convivendo com uma sociedade na qual parte dos cidadãos confunde fé com fanatismo, convicção com intolerância e militância com autorização para mentir.
A religião que alguém professa, a família que diz defender e os valores que proclama não comprovam seu caráter. O que o revela são suas escolhas, especialmente quando acredita que a mentira pode beneficiá-lo.
Afinal, quem precisa destruir a verdade para defender suas convicções não está demonstrando superioridade moral. Está apenas revelando a fragilidade da própria consciência.
João Edisom de Souza
Professor universitário e analista Político
@joaoedisom














