Cultura fitness na pandemia: as academias como serviços essenciais? | MUVUCA POPULAR

Domingo, 07 de Junho de 2020

ARTIGOS Quarta-feira, 20 de Maio de 2020, 20h:42 | - A | + A




Cultura fitness na pandemia: as academias

Cultura fitness na pandemia: as academias como serviços essenciais?

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Foto: Reprodução

Para refletirmos sobre a “essencialidade” das academias, parto de duas questões: o que são e significam as academias e para quem são essenciais. Respondendo o primeiro questionamento, academias são espaços destinados a práticas físicas, principalmente, a musculação. Prática mais antiga que necessitou de um espaço fechado para seu treinamento, que é com pesos. Entretanto, além da musculação, muitas academias oferecem outras modalidades de exercícios, como as conhecidas ginásticas, crossfit, pilates, aulas com bicicleta, lutas.

Na última década, o número de academias em Cuiabá aumentou, bem como a prática da musculação. Vivencio esse aumento por ser nativa deste campo esportivo e também por alguns dados dessa evolução em nosso país. Segundo dados fornecidos pela Associação Brasileira de Academias (ACAD), o Brasil assumiu em 2012 o segundo lugar no mundo em número de academias. No ano de 2017, o número de academias praticamente duplicou, ficando abaixo dos Estados Unidos. Também foi identificado no Brasil o aumento do faturamento com a indústria fitness e o número de clientes em constante crescimento. Em outra fonte de dados, oriundos de uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde em 2013, foi evidenciado que a musculação é a atividade física que mais ganha adeptos entre ambos os sexos. O percentual de entrevistados que afirmaram praticar musculação cresceu 50% entre 2006 e 2013 e, em oposição a esse crescimento, o futebol, considerado a paixão esportiva nacional, apresentou um declínio na sua prática.

Sobre o crossfit, outra modalidade em ascenção, há a hegemonia da prática no domínio americano, entretanto, o Brasil, em 2016, já ocupou o segundo lugar no mundo de boxes filiados para a prática. Ressalta-se que existem “boxes” de crossfit sem a afiliação da marca, pois essa exige um pagamento anual, o que esconde o verdadeiro número dessas academias e praticantes.

Dados que ultrapassam números, mas com significados qualitativos, uma vez que o crescimento das academias e práticas de exercícios físicos adquire um significado social e cultural, em que os indivíduos cada vez mais estão dispostos a movimentar o corpo ou de modificá-lo através de uma prática esportiva, seja pelo motivo da saúde ou da estética.   Significados que coincidem com uma nova cultura esportiva, a fitness.

O fitness como estilo de vida, é uma forma de viver pautado em comportamento disciplinado e de renuncias a hábitos tradicionais e geracionais referentes, especialmente, a alimentação, definido pela modificação do corpo e pelo nascimento de um novo sujeito, que passa a ser visto e percebido através da sua definição muscular e o significado desta.

A cultura fitness engloba representações específicas de corpo e comportamento esportivo, gera novas identidades, num contexto de vazios e permite aos sujeitos uma nova ontologia. Mas além dos significados em nível mais microsociológico, é parte da cultura de consumo contemporâneo e tem sua relação direta com o mercado. A indústria do fitness cresceu e não se trata apenas de academias e seus serviços, mas da indústria alimentícia, que cria e compete com alimentos integrais, proteicos, baixo percentual de gordura e de açucares e outras qualidades de valores do fitness e nesse setor, também a indústria dos suplementos que fornecem um nutriente considerado sagrado para os fitness – o whey protein; da indústria farmacêutica com drogas capazes de emagrecer ou hipertrofiar a musculatura corporal de forma mais rápida; da indústria da moda que lança modelos, especialmente, para mulheres vestirem nos espaços de treinamento. Por traz dessas indústrias e seus lançamentos, discursos da medicina enquanto instituição social de saber e poder, que apresenta novas pesquisas e especialidades de profissionais (médicos, nutricionistas, fisioterapeutas), que atuam não mais num corpo doente, mas num corpo de alguém que se propõe a manter saudável através do exercício físico e da modificaçao do formato corporal.

A cultura fitness não é “solta”, está inserida num campo social (Ver Pierre Bourdieu), onde agentes sociais ou pessoas entram, permanecem ou saem. Agentes de uma determinada camada social, mesmo que suas referências sejam conhecidas e ultrapassem fronteiras econômicas. Como um campo, há regras de iniciação e de fixação, e sub-campos, como as academias, que funcionam como um local de pertencimento. Podemos dizer que o desenvolvimento da cultura fitness relaciona-se diretamente com a expansão das academias, trazendo novas ofertas de serviços que geram, inclusive, novas demandas e novos espaços de treinamento físico.

A academia seria a principal instituição dessa cultura de consumo. Ao nos perguntarmos: a academia é um serviço essencial, como foi afirmado pelo recente decreto do governo federal e como afirmam seus donos e personais trainner em forma de reinvindicação para sua abertura? Para o presidente que possui um direcionamento de governo voltado para o aspecto econômico, podemos dizer que sim. Para os donos destes estabelecimentos, fechados há dois meses, bem como os profissionais que dali tiram sustento, também podemos dizer que sim. E mais, para os sujeitos fitness que se diferenciam dos praticantes comuns destes espaços, também podemos dizer que sim. Para os dois primeiros, é claro o motivo comercial. Para os fitness, uma necessidade existencial. Já para os demais membros da sociedade, que não possuem benefícios financeiros obtidos com as academias ou que não as frequentam, ou àqueles que colocam a sua preocupação na contaminação pelo novo corona vírus (COVID-19), de longe, a academia é um serviço essencial.

A resposta à pergunta então é: “depende”. Depende a quem se refere e do local a que se refere. Neste caso, falo da cidade de Cuiabá, capital de Mato Groso.  Mas, será que a pergunta deveria ser essa? Abordar a “academia” que é um espaço de treinamento privado como um serviço essencial seria o mais correto? Considerando o contexto da cultura fitness, sim! Mas, o que fazemos numa academia? Não é o movimento do corpo? Será que precisamos de um espaço privado para esse movimento, para a busca de saúde, seja mental ou física? Neste sentido, e os parques públicos, não deveriam também ser essenciais?

Não é a academia um serviço essencial. Confesso que gostaria que fosse, pois sou praticante assídua há mais de 20 anos, bem como de crossfit. Por paixão ao exercício físico, gostaria que fossem reabertas. Sinto saudades de treinar com aqueles equipamentos, dos diálogos com os colegas nos corredores ou após o treino, de ter um lugar a ir após um dia de trabalho, de ver meu corpo ganhar forma e formato. Mas, estamos em época de pandemia. A regra é evitar aglomerações, pois foi afirmado que a contaminação é rápida, letal e poderíamos sobrecarregar o sistema de saúde público. Aqui temos a discussão do que é fato e o que é opinião. O fato é demonstrado através da epidemiologia. A partir desta ciência, vemos curvas, números e gráficos. Todos exatos, apesar das subnotificações, mas que podem ser interpretados e opinados. Por isso, cada governador e cada prefeito ficou responsável de analisar a realidade social local para definir a abertura ou não das academias e outros espaços privados.

Neste sentido, pensando na essencialidade do exercício físico e não da academia, podemos nos reinventar, assim, como ocorreu em vários setores. Claro que os seus donos, trabalhadores precisam se sustentar e pagar dívidas, assim como muitos outros brasileiros. Isto é um problema coletivo, econômico e político. Em algumas cidades, de ausência de casos ou poucos, podemos pensar em um equilíbrio: limitar número de pessoas por hora, uso obrigatório de máscaras, assim como em outros locais que aglomeram mais pessoas, como nos supermercados (serviços essenciais), uso de álcool em gel para limpeza dos equipamentos, distanciamento de pessoas nos treinos e também equilibrar conforme o porte da academia, considerando também a sua expansão para dentro de moradias privadas, como os condomínios.

Mas também podemos usar espaços abertos, com controle e distanciamento, ou ainda empréstimos consignados de equipamentos, como algumas academias fizeram cobrando um valor de aluguel, utilizando de seus profissionais para aulas on-line e ao vivo. Poderia ser uma alternativa a esses dependentes. Mas também temos a opção de usar as ruas e a nossa casa. Há muitas formas de movimentar o corpo e isso não depende de um espaço particular. Àqueles praticantes já matriculados, que continuem seus pagamentos e usufruindo das formas reinventadas do exercício físico, mesmo que não seja o que gostaria. Nesses tempos, muita coisa está longe do que se gostaria, assim, também precisamos nos reinventar e adaptar.

Na sociedade cada vez mais individualizada, de falta de tempo, do trânsito, do sedentarismo, do fast food, a prática física pode tornar–se um escape para a saúde mental. Em tempos normais? Não apenas. Neste momento, de pandemia, também funciona dessa forma, permitindo um estravazamento das ansiedades e da angústia de ficar em casa.  Aos profissionais da educação física e outros especialistas esportivos, utilizando de estratégias, como as vias on-line, cabe uma organização e sugestões para que o exercício físico aconteça e ganhe seu status de “essencial”.

 

Neuza Cristina Gomes da Costa Fernandes é Doutora em Estudos de cultura contemporânea, professora do departamento de saúde coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

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