Historiador critica aumento salarial dos Ministros  | MUVUCA POPULAR

Domingo, 20 de Outubro de 2019

ENTREVISTA Quarta-feira, 28 de Novembro de 2018, 14h:48 | - A | + A




Muvuca Entrevista

Historiador critica aumento salarial dos Ministros

“Uma casta com salários exorbitantes e outra, á margem, de extrema pobreza”, criticou Renato Santtana


Redação

 

O presidente Michel Temer (MDB) sancionou nesta segunda-feira (26) o reajuste dos salários dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do cargo de procurador-geral da República. O salário dos ministros do STF e do procurador-geral da República passará dos atuais R$ 33.763 para R$ 39.293,32.

Apesar de parlamentares que votaram favoráveis alegarem não haver impacto nas contas públicas, por se tratar apenas do Supremo, a prática deve mostrar outra realidade.

Sobre o assunto, o historiador Renato Santtana, se mostrou indignado, e afirmou que a discrepância paradoxal atravessa as fronteiras do próprio funcionalismo público, atingindo em massa, o trabalhador inserido no setor privado. Enquanto o trabalhador de poucos recursos, disputa uma vaga para matricular seu filho, em uma unidade de educação infantil do município, algumas categorias possuem auxilio pré-escola e outros benefícios.

Confira entrevista completa com o historiador que propõe um “Teto Salarial Máximo” que seja capaz de equilibrar as finanças públicas e ao mesmo tempo contemplar classes sociais tão distantes.

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Muvuca Popular: Qual é sua opinião sobre o aumento salarial dos Ministros? Como você vê esse aumento, que beneficiou apenas uma classe da população?

Renato Santtana: Se Cazuza ainda estivesse em nosso meio, talvez questionasse a respeito desta fatura, por intermédio de uma canção que entoou sua voz indagante, por três décadas: ‘Brasil, mostra a sua cara! Quero ver quem paga, pra gente ficar assim...’.

Muvuca Popular: No Brasil, alguns servidores públicos ganham muito bem, enquanto isso, a maioria da população ganha apenas um salário mínimo. Como você vê essa discrepância no país?

Renato Santtana: Como historiador e simpático pela linha de investigação dos Estudos Culturais, fui despertado a deslocar-me, de minha posição estática e racionalizar a cerca de um “Teto Salarial Máximo” que fosse capaz de equilibrar as finanças públicas e ao mesmo tempo contemplar classes sociais tão distantes. Para que isso aconteça de fato, é necessária uma mudança cultural, um deslocamento de identidades que seja capaz de alargar as fronteiras e impedir possíveis barreiras, aos novos conhecimentos. E esta mudança de pensamento e comportamento social, vem de encontro com a fase temporal em que vivenciamos na atualidade, ou seja, é nesta fase de modernidade liquida, onde as ideias fluem e os conceitos se ressignificam. Para ressignificar, antes é preciso quebrar velhos paradigmas que nos acompanham desde os tempos mais primitivos da humanidade. Do feudalismo ao capitalismo, havia uma ponte entre o senhor feudal e as relações servo-contratuais. Do capitalismo até hoje, há um hiato entre dois universos: uma casta com salários exorbitantes e outra, á margem, de extrema vulnerabilidade e pobreza.

Muvuca Popular: Uma pesquisa do IBGE mostrou que houve um aumento de 11% na pobreza extrema no país, porém, nossos representantes no Congresso decidiram aumentar o salário dos Ministros, que já ganham muito bem. O que você acha disso?

Renato Santtana: A pesquisa foi divulgada pelo IBGE em abril de 2018 e mostrou que no Brasil 50% dos trabalhadores ganham menos de um salário mínimo. Isso significa que existe um número considerável de pessoas que trabalham por conta própria, de forma autônoma e na informalidade, a exemplo dos vendedores ambulantes nos segmentos de alimentação, roupas etc, que não conseguem atingir como renda mensal, os R$ 954,00 (novecentos e cinquenta e quatro reais), de um empregado contratado formalmente e que ganha um salário mínimo constitucional. O IBGE também apontou na pesquisa, que houve um aumento de 11% na pobreza extrema, sendo que no ano de 2016, este universo era de 13,34 milhões, passando para 14,83 milhões de pessoas, até o ano passado. Não acredito que seja suficiente sobreviver, com um valor de 01 salário mínimo por mês, frente ás inúmeras necessidades básicas que todos nós temos. Acredito que todos deveriam ganhar um salário que fosse compatível e que atendesse as demandas diárias. Muito embora eu tenha este pensamento, a realidade é diferente, pois, muitas pessoas sobrevivem com menos de R$ 1.000.00 (um mil reais) por mês e precisam se adaptar financeiramente, dentro deste contexto.

Muvuca Popular: Enquanto isso, muitos servidores são muito bem remunerados...  

Renato Santtana: O orçamento público tem como as duas maiores despesas: os benefícios previdenciários e os gastos de folha com pessoal. E com valores que vão desde um salário de um soldado da polícia militar, que gira em torno de R$ 4.000,00 (quatro mil reais), até os quase R$ 40.000,00 (quarenta mil reais) que podem chegar a ganhar por mês, determinadas “castas do funcionalismo público”. Isso sem contar com os inúmeros benefícios que superfaturariam estes “salários faraônicos,” podendo alcançar valores de até R$ 100.000,00 (cem mil reais), por mês. Neste exemplo acima, uma categoria de servidor da segurança pública, ganha cerca de 10% do valor, frente ao teto apresentado em questão. Ganhar o “dizimo,” em uma profissão que apresenta vulnerabilidade e risco de morte, enfrentando setores da criminalidade, enquanto outras categorias atuam confortavelmente em “clima ameno,” em meio aos climatizadores. No setor da educação a realidade também não é diferente, segundo relatório de Politicas Eficientes para professores da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2018, somente 2,4% dos jovens brasileiros querem seguir carreira de docente. O índice era de 7,5%, em relação há 10 anos, a queda se deu, em virtude do baixo prestigio social da profissão e dos baixos salários, sendo que a profissão de professor é essencial para formação de todas as carreiras.

Muvuca Popular: Você acha que as pessoas, que realmente precisam, acabam sendo deixadas de lado pelo poder público?

Renato Santtana: Enquanto o trabalhador de parcos recursos, disputa uma vaga para matricular seu filho, em uma unidade de educação infantil do município, algumas categorias possuem auxilio pré-escola, aos seus infantes. Enquanto este mesmo trabalhador desloca-se para seu trabalho utilizando do transporte coletivo, algumas categorias possuem auxilio transporte. Bem diferente do vale transporte! E mais, este trabalhador muitas vezes precisa pagar aluguel, enquanto algumas categorias possuem auxilio moradia, e por fim, alguns trabalhadores ganham irrisoriamente um beneficio de bolsa família e ainda são hostilizados, enquanto outras categorias possuem auxilio alimentação.

Muvuca Popular: Qual é sua proposta para mudar o quadro atual?

Renato Santtana: Se um trabalhador recebe menos de R$ 1.000,00 (um mil reais) por “mês” e necessita alimentar-se, possuir moradia, entre outras necessidades, não seria coerente, que o maior gasto com o teto do funcionalismo público, fosse com 01 salário mínimo, por “dia”? Esta proposta chamo de “Teto Racional”, levando em consideração a racionalidade e a proporcionalidade, com que as despesas públicas devem ser conduzidas. Anualmente, o salário mínimo que serve como base, é reajustado, e neste sentido, o Teto Racional também deverá ser recomputado. Teria reposição inflacionária, mais coerente que esta? É necessário termos, “Responsabilidade Fiscal”. Majorou o salário mínimo, ocorre o aumento do Teto Racional. No cenário de hoje, um trabalhador recebe minimamente o valor de R$ 954.00 (novecentos e cinquenta e quatro reais) por mês e o Teto Racional, o qual proponho, deveria ser aplicado no valor de R$ 28.620,00 (vinte e oito mil, seiscentos e vinte reais), na matemática simples de multiplicar o valor de 01 salário mínimo por dia, dentro dos 30 dias que temos, no mês. É notório que se o Teto Constitucional for aprovado pela Presidência, o efeito não atingirá apenas 12 pessoas, e abrirá um precedente para que tal medida seja avocada por outras esferas do funcionalismo público, impactando no orçamento de até 06 bilhões por ano, segundo o “efeito cascata”. O tamanho do Estado irá comportar tal demanda? Você já parou para pensar sobre isso? Do Caviar, ao angu de fubá. Do peão no buzão, ao faraó do avião.  Em fim... “Quero ver quem paga, pra gente ficar assim”...

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COMENTÁRIOS

(9) COMENTÁRIOS

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MARGARIDA - 29-11-2018 15:49:13

No texto, não está colocando qualquer tipo de culpa no servidor público, até porque está se comparando que existem servidores públicos com salários baixos e outros com salários altos. O que percebi é uma constatação de que o Estado não tem como arcar com a fatura que está alta. Eu concordo com absolutamente tudo que foi dito.

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MARGARIDA - 29-11-2018 15:28:44

Sejamos coerentes, super salários para sobrecarregar o Estado, enquanto na iniciativa privada a realidade é completamente diferente... gostei da ideia deste historiador, em equiparar o salario minimo como referência.

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Carlos Nunes - 29-11-2018 14:10:15

Em resposta à Maria...igual na Grécia onde governos incompetentes afundaram a Economia do país, aí fizeram o povo grego pagar a conta NA MARRA. Quando o dinheiro sobra passam a mão, enchem os bolsos...quando falta, pra encher o caixa vazio do governo, rapam o bolso do povo. Agora querem taxar o Agro-negócio, o primo rico. O que vai acontecer? Internamente, os produtores vão empurrar esse aumento de custos pros preços do produtos...e o Consumidor (que somos nós mesmos) vamos pagar a conta. Externamente é mais complicado pois tem um Comércio Internacional, as Exportações, onde um país quer puxar o tapete do outro com uma concorrência feroz...até que ponto vão aumentar os preços dessa concorrência lá fora? Será que não vai prejudicar o Comércio Internacional, dos produtos que saem de Mato Grosso? No Brasil, no final vão jogar a culpa pela crise...nos servidores públicos, nos aposentados - os eternos bodes expiatórios da crise. Economia tá afundada? A culpa é dos servidores e dos aposentados, uai. Gostaria que o BOLSONARO convocasse a pessoa que mais entende de Previdência Social no país, pra coordenar a NOVA REFORMA da Previdência - a professora Doutora em Economia, DENISE LOBATO GENTIL. No youtube tem muitas palestras dessa professora, que contraria a Reforma proposta pelo Temer. Dra. GENTIL sugere que seja aberta primeiro a caixa preta da Seguridade Social, do qual a Previdência faz parte. Parece que BOLSONARO não vai convocar a Dra. GENTIL coisa alguma, pois já indicou como Ministro que vai tratar inclusive da Previdência, um deputado federal do MDB. MDB de novo? Aquele que veio com a proposta indecorosa de aposentar homens e mulheres com 65 anos, e 49 anos de contribuição? Essa foi a primeira proposta de Reforma apresentada, que foi rechaçada porque o Congresso Nacional, grande parte dele, estava com os olhos bem abertos. Mas que tentaram, tentaram.

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MARIA - 29-11-2018 12:55:49

Carlos Nunes vc esta corretíssimo: "o erro não é o aumento...o erro mortal foi deixarem alguém afundar a Economia, pela má gestão, política econômica errada, prioridade equivocada, além da roubalheira desgraçada" . Essa é a palavra....roubalheira. Os políticos com suas quadrilhas, de colarinho Branco, vem assaltando a nação brasileira há tempos. E a culpa é do servidor público???????? Quem está roubando são aqueles que estão no poder para administrar o dinheiro do povo. Estão saqueando o BRASIL e a culpa é do servidor público???

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Diego - 28-11-2018 18:10:01

Um salário mínimo por dia, como teto constitucional. Nunca tinha pensado nisto. Que sacada deste cara. Que bom se colocasse em prática.

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Carlos Nunes - 28-11-2018 16:33:26

A grande pergunta é...esse aumento tem base legal? Foi feito dentro da lei? Dizem que foi reposição salarial, que tava atrasada faz tempo. Foi ou não foi? Se não foi é muito grave, não devia ter tido aumento nenhum. Mas se foi dentro da lei, tinha que ser dado sim. Alguém afundou a Economia Brasileira, causou mais de 14 Milhões de desempregados, jogou mais de 30 Milhões de trabalhadores pro setor informal, na marra, pra sobreviver. Quem afundou a Economia, afundou o país...devia ser encontrado e punido pelo crime de lesa-pátria. As palavras do Cid Gomes, lá no Ceará, tem sentido, pois disse: vocês erraram feio...vocês tem que ter humildade e pedir perdão pro povo brasileiro...vocês vão perder a eleição...vocês merecem perder a eleição. A marolinha do cara virou foi um tremendo tsunami...que levou tudo de bom. Por causa desse tsunami vão começar a querer não dar aumento, dentro da lei pra ninguém? Eu, se fosse Ministro do Supremo, e tivesse direito ao aumento, queria receber centavo por centavo do dinheiro. O erro não é o aumento...o erro mortal foi deixarem alguém afundar a Economia, pela má gestão, política econômica errada, prioridade equivocada, além da roubalheira desgraçada. Os 14 Milhões de desempregados não apareceram do noite pro dia, ou apareceram?

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Lucas - 28-11-2018 16:22:11

Que idéia fantástica...

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Astolfo - 28-11-2018 15:35:43

Ainda tínhamos esperança na moralização, mas o presidente eleito que roubou nossos sonhos nem começou e já loteou o governo de ficha suja e ainda gastou 5 milhões com carros blindados. Resolveu a segurança pública só da família dele mesmo!

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constantino - 28-11-2018 15:34:07

Muito boa entrevista, tem que acabar com esses privilégios,mas como quem faz as leis são os próprios beneficiários, fica difícil..

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9 comentários