A "chacina do Merure" (Parte 2): Conflito agrário | MUVUCA POPULAR

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Resgate histórico

A "chacina do Merure" (Parte 2): Conflito agrário

Apoena, Juruna, Bororos e Xavantes

Rodolfo Lunkenbein havia rezado sua última missa em homenagem ao início da demarcação da Terra Indígena do Merure. Seu sacerdócio marcado pela civilização dos indígenas enfureceu a elite agrária, e ele foi assassinado no dia 15 de julho de 1976 as 11h00.

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Leia também: 

A "chacina do Merure" (Parte 1): Governo Fernando Corrêa e Garcia Neto
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A "chacina do Merure" (Parte 3 - Final): Sangue, júri e desfecho inesperado

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Os índios xavantes não tinham problema de organização e liderança. Os padres salesianos da linha doutrinária do padre Rodolfo fundaram a Missão São Marcos ea 1958 para acolher os xavantes liderados por Apoena. O lendário cacique Apoena acabou passando a liderança para o sobrinho Aniceto, que falava bem o português e conhecia a organização política brasileira, e tempos depois, quando outras lideranças estavam prontas criou outras três aldeias, a Auxiliadora, liderada por Cipriano, a Aparecida, por Humberto, e a Namucura, com o cacique Mário Juruna. Os índios xavantes também eram inimigos dos bororos, e o Padre Rodolfo se esforçava para serem aliados.

Os bororos do Merure não tinham cacique, o que indicaria uma forte organização dos índios. O fato desgostava o Padre Rodolfo, que sempre foi encantado com a cultura bororo desde o noviciado nos anos 60.

A liderança era exercida por Eugênio Rondon (Aidji Kuguri), que intermediava a aldeia com o colégio dos salesianos. O Padre Rodolfo promovia intercâmbio entre os jovens bororos, liderados por Rondon (Txibae Ewororo), filho de Eugênio,com outros povos indígenas do Brasil.

A população bororo de quase trinta mil indivíduos cultivavam o cerrado com árvores frutíferas, especialmente pequi (os pequizeiros mato grossenses e goianos foram plantados por eles)

A população bororo de quase trinta mil indivíduos habitavam o Brasil Central, de Uberaba, MG, até Cáceres, e cultivavam o cerrado com árvores frutíferas, especialmente pequi (os pequizeiros mato grossenses e goianos foram plantados por eles), sempre foi uma dor-de-cabeça para o governo porque impediam projetos, de garimpos a engenhos de cana, até que no começo do século XX começara a ser aculturados em aldeamentos de Rondonópolis e Barra do Garças.

O problema é que desenraizados, como aconteceu com o então prodígio Tiago Aipobureu, os índios ficaram desorientados se consolando no álcool. Alguns aceitaram mudar com suas famílias para a cidade de Barra do Garças, onde teriam ajuda da Funai.

A promessa feita pelos invasores não se concretizou, e o que se viu pela região foram bororos bêbados mendigando pelas ruas em uma situação tão lamentável que reforçou a crítica à Funai. Curioso que culpavam o órgão não por deixar os índios naquelas condições, e sim porque estaria gastando muito dinheiro com mendigos.

A distorção continuou na próxima geração dos não índios. Os invasores matriculavam seus filhos no colégio dos padres, e muitos ficavam tão encantados com seus professores que também queriam ser padres. O que era natural, da mesma forma que a admiração se transformasse em ódio quando seus pais perdessem patrimônio e isso os impedisse de serem herdeiros ricos. Muitos desses garotos ingressaram no serviço público nos anos 80 e 90, e escolheram áreas que pagassem bem e conhecessem, como Incra ou Funai.

O interesse nas invasões era muito, e a rede de proteção também. O líder invasor João Mineiro tinha o suporte político do deputado Ladislau Cristino Cortes, que cedia desde os caminhões para os índios que quisessem se mudar da reserva, até passagens para reuniões em Brasília, passando pelo prefeito de General Carneiro,

O líder invasor João Mineiro tinha o suporte político do deputado Ladislau Cristino Cortes, do prefeito de General Carneiro, Antônio Nonato da Rocha e o principal apoiador dos invasores que era o prefeito de Barra do Garças, Valdon Varjão

Antônio Nonato da Rocha, até o principal apoiador dos invasores que era o prefeito de Barra do Garças, Valdon Varjão.

O prefeito Valdon Varjão era o dono do cartório de registro de imóveis da cidade, e foi acusado pelos índios de ser o maior fraudador de terras da região que chegava até São Felix do 

Araguaia. Quanto às acusações o prefeito dizia que nunca teve problemas com o Tribunal de Justiça, e depois, ele estava afastado do cartório devido aos cargos políticos que ocupava, e sendo substituído por uma oficiala capaz de responder por seus atos.

Ironicamente a sua substituta se tornou a dona do cartório pouco antes da sua morte, enquanto convalescia, e isso o teria levado a uma depressão profunda que o matou. A nova dona do cartório acabaria presa na “Operação Lacraia” da Polícia Federal, em 2007, por fraudes cartorárias. Segundo a polícia, documentos eram envelhecidos usando forno de micro-ondas e depois apresentados para obtenção de empréstimos bancários dando terras “antigas” como garantia.

A substituta do ex-prefeito de Barra do Garças, Valdon Varjão, lhe tomou o cartório o que lhe acometeu de profunda depressão seguido de morte

O que preocupava Valdon Varjão não era o Padre Rodolfo, a sua principal preocupação era Dom Pedro Casaldáliga, o Bispo de São Felix do Araguaia. Dom Pedro era clarentiano, mas igualmente envolvido na educação como os salesianos, e havia escolhido para seu trabalho pastoral a região com mais analfabetos e pobres de Mato Grosso que era a região do Araguaia. O problema é que Dom Pedro não ensinava apenas o bê-á-bá para os lavradores negros, que chegavam a ser escravizados pelas dívidas. Dom Pedro estava organizando essa gente sem esperança ao redor de terras devolutas do governo.

O padre jesuíta João Bosco foi socorrer uma mulher na delegacia e acabou sendo morto a coronhadas que esmagou seu crânio

O Bispo de São Felix se tornou inimigo dos poderosos da região, Cuiabá e Brasília, e sofreu ataques morais e tocais de morte. Mas a pior provação de Dom Pedro foi a morte do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier, em 12 de outubro de 1976, por um policial militar dentro de uma delegacia de polícia. Os dois padres entraram na delegacia para socorrer duas mulheres presas pelo policial. A prisão foi totalmente ilegal, e elas estavam sendo torturadas na delegacia. O policial não gostou da presença dos padres, e após desacordar o Padre João, esmagando seu crânio com a coronha da arma o matou a tiros.

Valdon Varjão denunciava Dom Pedro como agitador da paz no Araguaia, e também como comunista pronto a armar os lavradores para tomar o poder na região. Mas Dom Pedro nunca foi expulso. O que os grileiros do Araguaia conseguiu foi a expulsão do padre francês François Jentel, em 1974. O padre francês se tornou um obstáculo aos negócios da empresa Codeara, de Luciara, que comprou terras do governo Pedro Pedrossian com a promessa de assentar em 10% da área os posseiros com mais de trinta anos na região. A promessa nunca foi cumprida.

(Continua...)

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COMENTÁRIOS

(4) COMENTÁRIOS

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Valdeli Forte Ferreira - 11-03-2019 09:14:06

Gostaria de fazer uma correção: O prefeito do município de General Carneiro-MT, na época da Chacina de Merure era o senhor Amedino Pereira da Silva, e não o senhor Antonio Nonato Rocha. Antonio Nonato Rocha foi eleito prefeito do município de General Carneiro-MT, em 15 de novembro de 1976, e era um dos fazendeiros que perdeu a sua fazenda na demarcação das Terras Indígenas de Merure, e no dia da chacina ele se encontrava presente assistindo tudo de dentro de seu carro (caminhonete) pois era paralitico.

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Shorër - 09-03-2019 09:56:11

Bela matéria. Padrão BBC de qualidade.

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Historiadora - 09-03-2019 08:39:03

A disputa por terras foi em geral o conflito que embalou a história dos povos de MT, esse resgate é algo que nos coloca diante da história realmente não contada, que é a versão daqueles que foram massacrados, pisoteados e humilhados pelo que chamam hoje de nobres, os barões, latifundiários, em certo ponto a cuiabania e todos aqueles que herdaram esse patrimônio de sangue e ódio, e fazem disso suas ostentações modernas.

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Silviogerin@yahoo.com.br - 28-04-2019 05:35:30

Sou progenitor herdeiro da operação lacraia em 2007 em Barra do garcas! 39 anos de luta processo tramitando e julgado e até hoje não tomamos posse!!!! A senhora falou tudo!!!! Queria conversar com uma historiadora de ética como a senhora! 61982554067 Brasília DF!!!

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4 comentários