A "chacina do Merure" (Parte 3 - Final): Sangue, júri e desfecho inesperado | MUVUCA POPULAR

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Resgate histórico

A "chacina do Merure" (Parte 3 - Final): Sangue, júri e desfecho inesperado

Quando os Bororos se juntaram aos Xavantes contra os invasores

O líder invasor João Mineiro tinha o suporte político do deputado Ladislau Cristino Cortes, do prefeito de General Carneiro, Antônio Nonato da Rocha e o principal apoiador dos invasores que era o prefeito de Barra do Garças, Valdon Varjão
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Leia também

A "chacina do Merure" (Parte 1): Governo Fernando Corrêa e Garcia Neto
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A "chacina do Merure" (Parte 2): Conflito agrário

 

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O padre Rodolfo era conhecido pelos índios bororos como “Okuge Ekureu” (Peixe Dourado). O padre era amado pelos índios, admirado pelos salesianos, e odiado pela maioria da população não-índia de Barra do Garças. E grande parte dos moradores da região sabiam que algo muito grave aconteceria no dia 15 de setembro de 1976.

Os líderes da chacina que passaram a noite bebendo eram João Mineiro, José Antônio Miguez e Antônio Donato. O mais exaltado, e o líder principal era João Mineiro, que prometeu naquela noite que no dia seguinte iria “almoçar o Padre Gonçalo com farofa”. Quando amanheceu o grupo de líderes foi arregimentando os demais invasores espalhados pela reserva, e chegaram a 62 pessoas, incluído alguns adolescentes. O grupo chegou em seis carros já trazendo os equipamento confiscados dos agrimensores.

O Padre Gonçalo recebeu o grupo no pátio do colégio, e eles já foram empurrando o padre, dando tapas no seu chapéu, jogando seus óculos no chão e o xingando. O padre não se abalou, entretanto os mandou procurar a autoridade competente que era a FUNAI, e não os salesianos. O grupo disse que queria ser avisado de tudo o que acontecia nas terras, e mais, queriam ser indenizados.

Por fim chegou o diretor Padre Rodolfo e ele começou a cumprimentar as pessoas do grupo, pois eram todos seus conhecido. Isso deixou João Mineiro transtornado, mesmo porque o Padre Rodolfo pediu o nome completo de todos os presentes e eles foram falando, apesar de João Mineiro ter proibido de não falarem nada. O que o Padre Rodolfo deixou claro que a reserva indígena iria sair mesmo pela FUNAI, e o que ele poderia fazer seria ajudar nos pedidos de indenização.

João Mineiro avançou pelo grupo até esmurrar o estomago do Padre Rodolfo, que se dobrou, quando isso aconteceu o padre levou cinco tiros que o fizeram tombar já sem vida. Outro invasor Manoel Borges da Silva, cunhado de João Mineiro, sacou sua arma e começou a atirar no corpo do padre


Aos gritos de mentiroso e ladrão, João Mineiro discordava, ele queria que o padre parasse tudo. É claro que os salesianos não poderiam deter a FUNAI, porém algo parecido aconteceu antes. O Padre Tannhuber foi assassinado no início da medição das terras da Missão das Palmeiras (Cuiabá), em 1920 (Veja a história completa aqui), e isso paralisou todo o trabalho, e logo depois os salesianos abandonaram o lugar. A morte dos padres Gonçalo ou Rodolfo deixaria os invasores em paz na reserva.

O Padre Rodolfo ignorou os palavrões e continuou anotando os nomes, e depois guardou o bloco de anotações na sua escrivaninha. O grupo então liberou os mapas e equipamentos dos agrimensores e começaram a se despedir dos padres. Foi nesse momento que João Mineiro avançou pelo grupo até esmurrar o estomago do Padre Rodolfo, que se dobrou, quando isso aconteceu o padre levou cinco tiros que o fizeram tombar já sem vida. Outro invasor Manoel Borges da Silva, cunhado de João Mineiro, sacou sua arma e começou a atirar no corpo do padre.

Os cinco índios que acompanhavam o padre correram para ajudar. O primeiro deles a ser atacado foi Simão Cristino (Koge Kudugodu), e enquanto sua irmã Genoveva Bororo o amparava ela também foi atingida. Outros três índios tentaram proteger o corpo do padre e também foram baleados, entre eles Lourenço Rondon. Os invasores correram para os carros e deixaram um terceiro corpo sem vida, a do menino Aloísio Bispo, aluno do padre, e filho de Bento Bispo, um dos que foram no colégio para “comer padre com farinha”.

As aldeias dos xavantes souberam do ataque aos bororos e correram para a Missão. Os xavantes não costumavam se aproximar dos bororos, e o Padre Rodolfo tentava fazer essa aproximação, mas acabaram ficando juntos durante todo o processo de investigação e julgamento da “Chacina do Merure”. Os xavantes chegaram a prender muitos participantes do ataque aos salesianos para entregá-los para a polícia militar. O tenente Frederico Carlos Lepesteur mandou os xavantes para suas aldeias, e quando eles se foram soltou os presos.

Outros três índios tentaram proteger o corpo do padre e também foram baleados, entre eles Lourenço Rondon

O início das investigações começou mal. A acusação queria levar 27 pessoas para o Tribunal do Juri, porém o juiz Flávio Bertin acolheu apenas a denúncia contra Manuel Borges da Silva e Bento Bispo (o  que perdeu o filho durante o ataque). O não acolhimento da denúncia (impronúncia) foi levado ao Tribunal de Justiça (TJ) e negado.

Os xavantes se preparam para a guerra contra os invasores para fazer justiça ao seu modo. A FUNAI assumiu o caso para evitar novas mortes. O Presidente da FUNAI general Isnar não havia esquecido o “Massacre do Paralelo 11” ocorrido em 1963 e também queria justiça. A FUNAI contratou o advogado Joaquim Scaffe Carneiro (que atuou no “Caso Ana Lídia”, ocorrido em Brasília, em 1973) para ajudar na acusação do promotor João Filgueiras.

Os líderes da invasão sumiram da reserva, e ficaram apenas os pequenos produtores. Algumas semanas depois Miguez reapareceu porque ele entraria em campanha para vereador pela Arena. O que Miguez declarou foi que tanto ele quanto Donato apenas foram até o colégio dos padres para acompanhar a medição e quando começou o tiroteio eles correram para o carro. O que faz sentido porque a morte do Padre Rodolfo deixou a maioria dos invasores em pânico. Apesar da dificuldade em se apurar a participação dos envolvidos, dois nomes foram apresentados à Justiça.

A acusação pediu ao TJ que mudasse o processo de julgamento para Cuiabá (desaforamento). O pedido foi negado. A decisão desagradou os xavantes, que acompanhavam o caso com os bororos. Segundo o cacique Juruna: “Barra do Garças é cidade de fazendeiro e não gosta de índio”. O TJ também faria uma substituição considerada irregular que foi remover o juiz Bertin para Cuiabá, mesmo sem abertura de vaga, e promover o juiz estagiário Armando de Lima para Barra do Garças.

Os dois suspeitos da morte do padre foram julgados em abril de 1978, e considerados bodes expiatórios pelos jurados, que os absolveram por unanimidade. A polícia ainda procurava o principal suspeito, João Mineiro, que acabou se entregando para o juiz Armando para cumprir mandado de prisão preventiva. O caso de João Mineiro foi a julgamento em março de 1979.

A acusação pediu ao TJ que mudasse o processo de julgamento para Cuiabá (desaforamento). O pedido foi negado. A decisão desagradou os xavantes, que acompanhavam o caso com os bororos. Segundo o cacique Juruna: “Barra do Garças é cidade de fazendeiro e não gosta de índio”

Ainda durante a prisão João Mineiro contou sua versão para a mídia de Barra do Garças (não atendia mídia nacional). Segundo João Mineiro, o Padre Rodolfo sempre andava com uma arma na cintura, e teria dito no pátio do colégio: “Aqui fora sou tão homem quanto você”. E foi com espanto de João Mineiro, que teria ido ao colégio apenas para conversar, que o padre sacou a arma e deu um tiro no seu queixo. Isso o fez reagir porque era matar para não ser morto.

O relato de João Mineiro ainda prosseguia dizendo que o padre armou os índios com winchester, e eles estariam rondando as casas dos produtores rurais, que temiam atos de violência contra seus filhos e suas mulheres. E como se não bastasse a violência dos índios contra suas famílias, eles também estavam matando e roubando seu gado, e pior, os índios estariam envenenando as águas para matar os animais. O Padre Rodolfo não apenas sabia de tudo como os incentivava a assim proceder para expulsar os produtores rurais, que ele chamava de invasores das terras indígenas.

A história de João Mineiro não foi levada a sério pelas autoridades, mas repercutiu entre os moradores da região de Barra do Garças, que a considerou verdadeira. Os jurados podem ter ouvido essa história de João Mineiro, e ficado dispostos a defendê-lo contra o padre comunista que não queria o progresso da região. O acusado João Mineiro chorou ao dizer que tinha perdido tudo porque como não estava trabalhando, e o banco (Basa) tinha tomado seu gado para pagar o empréstimo.

A defesa apontou para a presença dos xavantes, e disse que processaria o governo federal por estarem acuando seu cliente. A FUNAI então os reconduziu para as aldeias para evitar tumulto. A acusação já sabia qual era o resultado porque o juiz agiu estranhamento ao começar a sessão sem a presença das suas testemunhas e a ignorar os protestos da acusação.

O assassino do Padre Rodolfo foi absolvido por 6 x 1 pelos jurados. Segundo o Juri: “O réu agiu em legítima defesa do seu patrimônio”.

 

 

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COMENTÁRIOS

(1) COMENTÁRIOS

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Bartira Maria de Carvalho Rubert - 10-03-2019 21:57:08

Nessa epoca estudava no colegio (internato) foi muito triste quando retornamos de ferias ,inclusive o colegio so funcionou ate dezembro.Como Padre Que faleceu era otimo Diretor fiz grande homenagem meu filho chama-se Rodolpho

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