A morte do padre Tannhuber e a luta dos povos indígenas em MT (Parte 1) | MUVUCA POPULAR

Sábado, 24 de Agosto de 2019

ESPECIAL Sábado, 16 de Fevereiro de 2019, 09h:01 | - A | + A




Resgate histórico

A morte do padre Tannhuber e a luta dos povos indígenas em MT (Parte 1)

Missão-colônia salesiana que catequizava povos indígenas despertou fúria do "homem branco"

ee

O Padre José Tannhuber rezou sua última missa na manhã do domingo de 29 de agosto de 1920. Após a missa um bando de homens armados separou as pessoas, mandando os moradores para suas casas, e os religiosos confinados embaixo de uma mangueira na frente da pequena igreja. O Padre Tannhuber ficou isolado de todos. O ódio contra o padre era muito grande. As 16h00 o Padre Tannhuber foi assassinado pelo chefe do bando.

O padre assassinado dirigia a colônia agrícola “Gratidão Nacional” em Palmeiras, ao pé da Serra de São Vicente. A colônia era um dos quatro projetos dos padres salesianos, ou missões, como se chamava o misto de exploração agropecuária com catequese indígena (tornar os “índios mansos”) e a educação formal e técnica, de brancos e índios. Ou seja, além do ensino das letras também o aprendizado de técnicas agrícolas e industriais.

As histórias são confusas, e os dados são imprecisos ou inexistentes quando se trata de pessoas do povo. A biografia de cada um dos padres que pisou em solo mato grossense pode ser reconstituída, mas não a dos seus fiéis pobres. Isso ocorre porque nada existe fora do papel. E por esse motivo o novo diretor da escola, e responsável pelo empreendimento salesiano, já procurou deixar tudo registrado nos arquivos do governo em 1920.

. Os índios foram acolhidos e os padres receberam um aviso dos brancos

Os padres tinham dois problemas à frente: O Serviço de Proteção ao Índio (executado em 1912) e as Águas Termais (laudo de 1919).

O Serviço de Proteção ao Índio (SPI, a atual FUNAI) foi criada em 1910 para atender a uma lei imperial de 1831 que garantia a existência do índio conforme os seus costumes com responsabilidade relativa, ou seja, as terras brasileiras deixavam de ser dos índios porque eles não tinham personalidade legal (precisavam de uma representação governamental). O então major Rondon resolveu criar o SPI, e como seu diretor deveria fiscalizar todo o tema associado ao índio brasileiro.

As Palmeiras era uma unidade que ficava a meio caminho de Cuiabá com outro projeto intermediário chamado “São José do Sangradouro” (entre Primavera do Leste e General Carneiro) e o projeto principal a colônia agrícola “Sagrado Coração do Merure (entre General Carneiro e Barra do Garças). O “Sangradouro” foi comprado a preço abaixo do mercado para atender ao desejo do fazendeiro, que sempre recebia os padre em passagem para o Merure, e gostava da presença de homens letrados. O fazendeiro quase morrendo fez o Padre Manoel Gomes de Oliveira prometer que abriria uma escola. O padre prometeu.

O “Sangradouro” prosperou e o principal negócio da escola era a criação de gado. Os filhos dos moradores da região foram alfabetizados e logo aparecerem os índios bororos, os temíveis coroados, que assombrou por décadas as fazendas em Chapada dos Guimarães. Os índios foram acolhidos e os padres receberam um aviso dos brancos, ou os índios iriam embora ou seus filhos sairiam da escola. Os padres escolheram os índios, e a razão era puramente devido aos negócios.

Os padres salesianos atendiam 300 alunos índios e cada um deles rendia em dinheiro federal cerca de R$2,6 mil/mês. Isso sem contar outros recursos como matrizes de animais, máquinas e sementes e custeio enviados pelo governo federal, e também pela ajuda que recebiam do governo estadual por “amansar” os terríveis coroados os tirando da região próxima de Cuiabá. Além disso, os padres também atendiam 250 alunos brancos em Cuiabá e Corumbá, sendo que 50 deles não pagavam as mensalidades porque não tinham dinheiro (e os padres escolhiam bem para quem conceder bolsa integral).

A abertura da colônia agrícola de Palmeiras era estratégica por ligar Cuiabá à Barra do Garças. Os padres salesianos também tiveram sorte com a implantação do novo projeto. As terras eram do coronel político “Zé Leite das Palmeiras” que tinha herdado a propriedade, a “Usina Palmeiras”, em 1850. O coronel passou a vida inteira combatendo os índios coroados que assaltavam e destruíam as fazendas do Rio Acima (Chapada dos Guimarães).

O coronel Zé das Palmeiras perdeu a mulher, e sentindo saudades da filha partiu para o Paraguai. A sua filha era casada com o ex-governador Antônio Correa da Costa (o seu neto Mario Correa da Costa ainda seria governador por dois mandatos) e com a mudança na política mato-grossense acabaram se refugiando em Assunção (Generoso Ponce também foi para o Paraguai) por medo de serem todos mortos em Cuiabá. O coronel Zé das Palmeiras acabou morrendo enquanto visitava a filha.

Os herdeiros venderam parte das terras, incluído a sede, e todo o maquinário da usina, por um preço muito abaixo do mercado. O coordenador dos salesianos Dom Antônio Malan conseguiu subsídios em Cuiabá e no Rio de Janeiro (sede do governo federal), bem como a máquina hidráulica que gerava a energia elétrica para descascar arroz, debulhar o milho e descaroçar o algodão, e outra máquina para colocar em movimento a serraria. A nova escola se chamaria “Gratidão Nacional” (nome comercial ao agrado dos apoiadores do Rio de Janeiro), e foi inaugurada em 02 de agosto de 1912.

Os moradores da região eram em sua maioria de índios bororos e posseiros vindos de fora e que casaram com as pessoas negras escravizadas na “Usina de Palmeiras”

A inauguração contou com a presença da elite administrativa e política de Cuiabá. A festa foi acompanhada por duzentos moradores da região. O diretor da escola era o Padre Antônio Ragogna auxiliado pelo Padre Pedro Viecelli. Ainda como parte das festas, no dia anterior, os ossos do capitão que foram exumados do cemitério Recoleta de Asunción foram depositados na nova capelinha dentro do cemitério. O evento teria sido do agrado do capitão, por finalmente poder descansar nas Palmeiras.

O Padre Tannhuber assumiu a direção da escola alguns anos depois e mandou delimitar a propriedade. Os moradores da região eram em sua maioria de índios bororos e posseiros vindos de fora e que casaram com as pessoas negras escravizadas na “Usina de Palmeiras”. Entre os posseiros se notabilizava a dos “paulistas”, que seria gente vinda da cidade de Cubatão há duas gerações e que ocupavam a área próxima as fontes termais. O “paulista” mais conhecido era o negro Tobias.

O SPI abriu uma investigação nas Palmeiras ainda em 1912 devido a um incidente envolvendo padres e índios. Os índios bororos José e Fernandes foram baleados pelo noviço Theodoro Bulla a mando do diretor Padre Antônio Ragogna. A aldeia desses índios ficava a dez quilômetros do lugar do incidente, porém eles resolveram pescar nas terras dos padres dizendo que, “lambari não tem marca igual a boi de padre, lambari é nosso gado”.

O padre Bulla acabou acertando uma das balas no ombro de um dos índios. Segundo o padre ele nem tinha visto os dois porque estava atirando em um caxinguelê (esquilo). O SPI conduziu o caso como tentativa de assassinato e parou nos jornais do Rio de Janeiro. As opiniões se dividiram entre os religiosos e os positivistas, da qual Rondon fazia parte. O assunto virou discussão ideológica em um momento para depois cair em acusações pessoais. O processo foi arquivado com a absolvição do padre Bulla.
(Continua...)

Leia também: (Parte 2): 
_______________________

1920: Marechal Rondon descobre a corrupção em Mato Grosso

VOLTAR IMPRIMIR

COMENTÁRIOS

(1) COMENTÁRIOS

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do MPopular. Clique aqui para denunciar um comentário.

Carlos Historiador - 16-02-2019 23:57:45

Essas histórias são recentes, mas vejo que estão sendo escritas de forma inédia. Em breve o Muvuca Popular será a maior e mais crível fonte histórica de MT, está ocupando um lugar importante no vácuo

Responder

4
0


1 comentários