Esquadrão da morte: O massacre do "Paralelo 11" | MUVUCA POPULAR

Domingo, 15 de Dezembro de 2019

ESPECIAL Sábado, 23 de Março de 2019, 20h:12 | - A | + A




Resgate histórico

Esquadrão da morte: O massacre do "Paralelo 11"

Índios cinta-larga foram exterminados de forma cruel no norte de MT

A jovem índia foi arrastada para a beira do rio. O grupo de homens que a agarrou estava há semanas na mata e esperava estuprá-la em fila, depois do chefe que a puxava pelos braços. A mulher era bonita e deveria ter menos de vinte anos, e ao seu lado um menino de dois anos, o seu filho. O menino chorava muito, e a mãe se matinha em silêncio como se estivesse em estado de choque. A mulher foi amarrada pelos dois pés e suspensa de cabeça para baixo expondo bem o sexo.

O corpo da mulher quase foi dividido em dois. O menino, ou “curumim” como se dizia sobre as crianças índias, berrava ao lado do corpo da mãe

O chefe do grupo Francisco Luiz da Costa (Chico Luiz) pegou seu facão Collins e a golpeou. O corpo da mulher quase foi dividido em dois. O menino, ou “curumim” como se dizia sobre as crianças índias, berrava ao lado do corpo da mãe. O assassino Chico Luiz sacou seu Colt 45 e estourou a cabeça do menino. Depois disso mandou que Ataíde Pereira dos Santos e Ramiro Costa jogassem os corpos no rio Aripuanã e se juntasse a Manoel Virgílio de Almeida e Silvestre para jogarem os outros quinze corpos no rio e a queimarem as casas.

O crime aconteceu em outubro de 1963 dentro das terras indígenas na Serra Morena pertencentes aos índios Cintas-Largas. Os assassinos eram empregados da empresa cuiabana Arruda e Junqueira Cia Ltda. A empresa organizava ao menos duas dessas expedições por ano para prevenir ataques dos índios aos seus empregados na mata. As expedições eram esquadrões da morte, e a iniciativa tinha apoio dos trabalhadores em geral, e ignoradas em particular pelas autoridades.

O primeiro crime aconteceu em 1959 quando uma expedição exploratória liderada pelo gerente-geral Francisco Amorim de Brito (“Chico Amorim”), e fizeram o que os jagunços do interior do Brasil sempre faziam para expulsar posseiros. A prática dos latifundiários era queimar as casas e esquartejar os animais. O que Chico Amorim fez foi entrar em uma aldeia enquanto os homens estavam na roça e matar e esquartejar mulheres e crianças, e seguia queimando tudo.

Os índios começaram a atacar os empregados da empresa, a maioria seringueiros, e então foram montadas as “expedições punitivas”. A região era o território de quase dez mil índios, e ao final do genocídio sobraram apenas quatrocentos Cintas-Largas. A companhia Arruda e Junqueira seria a responsável pela morte de 30% dos índios, seja por tiro, faca, explosão, envenenamento ou doenças.

Os padres que atuavam na região conheciam as histórias e a realidade dos índios. O Serviço de Proteção ao Índio estava desvirtuado em todo o Brasil, e os casos, incluídos os de Mato Grosso foram investigados no Relatório Figueiredo, elaborado por Jader de Figueiredo Correa a pedido do ministro Albuquerque Lima. O governo federal para evitar complicações no plano mundial impôs censura na mídia, e até mesmo o Relatório Figueiredo desapareceu, bem como outros documentos foram consumidos pelas chamas em Brasília. A saída do governo foi extinguir o antigo órgão, criado pelo Marechal Rondon.

Segundo os padres, os empregados da companhia Arruda e Junqueira, bem como parte dos cuiabanos, concordavam com o discurso de ódio de Antônio Mascarenhas Junqueira: “Índios são preguiçosos e traiçoeiros e bons de matar”. O único problema de Antônio Junqueira, e do sócio Sebastião Palma de Arruda, apesar de serem latifundiários poderosos e influentes em Cuiabá é que não pagavam suas contas.

Os jornalistas gostavam de conversar com Antônio Junqueira, um mineiro de Juiz de Fora bem relacionado em Cuiabá. O sócio Sebastião Palma era mais retraído. Antônio Junqueira dizia que eles formavam uma dupla dinâmica em Cuiabá. Curioso que Antônio era de uma família de pecuaristas, mas preferiu explorar seringais no norte de Mato Grosso, e Sebastião era filho de um representante comercial, e servidor público, e sua mãe uma professora de piano em Cuiabá. A exploração comercial estava fora da experiência dos dois, que eram acusados de terem apenas 4 mil hectares e se apossado de 80 mil, em terras do governo estadual (Intermat) e federal (Funai).

O custo total do “Massacre do Paralelo 11” teria sido de R$500 mil incluídos o apoio aéreo do Cessna-180 branco e azul pilotado por Toshio Lombardi de Kato

Sebastião Palma se formou como técnico em laticínio em uma escola agrícola em Juiz de Fora, MG, e sempre foi reservado. Um pouco da sua intimidade foi conhecida em 1960 quando após uma grave crise nervosa simplesmente apagou e ficou desacordado por uma semana. Depois disso nunca mais se soube de nada da intimidade de Sebastião, ao contrário do seu irmão que foi prefeito de Cuiabá e depois diretor do INCRA em Mato Grosso (e também sócio em algumas áreas de terras no norte). O sócio da companhia Andrade e Junqueira, Sebastião acabaria se aposentando como funcionário público estadual.

Após as mortes da mãe índia e do seu filho, e que foram conhecidas anos depois como “Massacre do Paralelo 11” (Juina), a companhia Andrade e Junqueira concluiu que os esquadrões da morte não eram viáveis. O custo maior estava nos matadores que topavam a empreitada. A promessa de pagamento era de R$1mil/dia. O custo total do “Massacre do Paralelo 11” teria sido de R$500 mil incluídos o apoio aéreo do Cessna-180 branco e azul pilotado por Toshio Lombardi de Kato.

Muitos anos depois, quando foi ouvido pela Polícia Federal, o piloto Toshio negou que soubesse o que estava acontecendo, ou das armas e munições, ou a acusação de que soltava granadas nas aldeias. Segundo ele isso não seria possível ser feito pelo piloto, e negou que seus passageiros fossem matadores. A polícia arquivou o inquérito, e o Ministério Público também não viu como avançar na acusação. Toshio acabou sendo aposentado como assessor da desembargadora Shelma, e morreu com demência quarenta anos depois.

Mas nessa expedição, que durou dois meses, o piloto despejava para a equipe de matadores sacos de lona com feijão, arroz, banha, carne-seca, açúcar, café, leite condensado, cigarros, fumo de rolo, medicamentos, calças e camisas, e botinas. Os últimos sacos foram de munição com um bilhete do gerente-geral Chico Amorim orientando o grupo.

O líder Chico Luís contava com uma submetralhadora INA .45, conhecida por “piripipi-ina”, com seis pentes de 30 balas e mais uma bolsa com 200 munições, e mais um revólver, Ataíde Pereira carregava um Mosquefal 7,62, conhecia por “mosquetão”, e os demais revólveres e 200 munições cada um, além de todos portarem os facões de mato Collins.

Após as mortes, ou seja, após o contrato ter sito cumprido o gerente Chico Amorim enrolou os pagamentos, e seria ilusão dos matadores receberem cada um R$50 mil da companhia Arruda e Junqueira. Aliás, nenhum dos autores do “Massacre do Paralelo 11” se empenhava na cobrança porque na empresa havia assassinos famosos, como o próprio Chico Amorim, além de Chico Luís, e outro chamado “Tenente Luís”.

O trio de matadores assassinou em 1965 um seringueiro da companhia Arruda e Junqueira chamado Cavalcanti, e passaram a noite queimando o seu corpo. Os demais empregados ao invés de irem para as matas trabalharem se reuniram e partiram em direção ao escritório de Chico Amorim.

O grupo dos trabalhadores revoltados descarregou suas armas em Chico Amorim e depois procuraram os outros dois, Chico Luís e Tenente Luís, que também foram mortos. O grupo também assassinou um fiscal de trabalho (um capataz com mortes de seringueiro nas costas), um pesador de borracha (acusado de roubar no quilo da borracha), e outros

A revolta acabou com nove mortes. Os mortos foram jogados no rio Juruena

seguranças da companhia Arruda e Junqueira. A revolta acabou com nove mortes. Os mortos foram jogados no rio Juruena.

O grupo que se revoltou passou dois dias bebendo até que o piloto Toshio aterrissou com o patrão Antônio Junqueira. O patrão disse que esqueceria tudo e que pagaria a dívida com todo o mundo desde que fossem receber em Cuiabá. A revolta então acabou e todos foram embora porque sabiam que não receberiam nada. O ódio maior deles era contra Chico Amorim que tomava a mulher dos outros, e era famoso estuprador de índias, e também havia a suspeita de que sumia com trabalhadores que cobravam suas dívidas dizendo que os índios os tinham matado.

Veja o segundo capítulo:

Paralelo 11 (Parte 2): O massacre que manchou o estado e comprometeu uma nação

)

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COMENTÁRIOS

(3) COMENTÁRIOS

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Gonçalina - 25-03-2019 08:13:15

Muito triste. É muita crueldade. Como o ser humano é horrível. Deus tenha misericórdia de nós

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Mateus - 24-03-2019 06:38:55

Que história triste, ensanguentada, brutal. Qta ignomínia e qto sofrimento na fundação e estabelecimento desse estado.

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Silvanio - 23-03-2019 22:42:44

Chocante!

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3 comentários

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