“Doutora, parece que minha cabeça não funciona mais. ”
Essa é uma das frases que mais escuto no consultório de mulheres a partir dos 40 anos. Elas chegam inseguras, quase pedindo desculpa por algo que não conseguem explicar direito. A memória falha, a concentração diminui, o raciocínio parece mais lento. E, junto com isso, vem a culpa. A sensação de que estão falhando, de que não são mais quem eram.
É preciso dizer com clareza e responsabilidade: essa queixa é real. E não é fraqueza.
A chamada “névoa mental” é um sintoma frequente durante a transição menopausal. Não significa perda de inteligência nem incapacidade. Trata-se de mudanças sutis no funcionamento cognitivo, percebidas no dia a dia como esquecimento de palavras, dificuldade de foco, sensação de mente embaralhada. A ciência já reconhece essa relação e mostra que as oscilações hormonais, especialmente a queda do estrogênio, têm impacto direto em áreas do cérebro ligadas à memória e à atenção.
Mas a menopausa nunca age sozinha. Quando uma mulher me relata névoa mental, quase sempre o problema não está apenas no cérebro. Está no corpo inteiro. O sono costuma ser o primeiro grande vilão. Fogachos e suores noturnos fragmentam o descanso, e sem sono reparador não existe clareza mental durante o dia. Ansiedade, irritabilidade e sintomas depressivos, comuns nessa fase, também pesam muito. Não é “emocional demais”. É biologia somada à vida real.
Faço questão de esclarecer também o que essa névoa mental não é. Na imensa maioria dos casos, ela não indica demência nem doença neurológica grave. Geralmente é um quadro transitório, que melhora quando os sintomas da menopausa são tratados de forma adequada e quando a mulher passa a se cuidar de maneira mais integral. Ainda assim, investigar outras causas associadas faz parte do cuidado sério e responsável.
O que ajuda, de fato, não são soluções milagrosas. É o básico bem feito. Dormir melhor, tratar sintomas vasomotores quando indicado, manter atividade física regular, ajustar alimentação, reduzir álcool. Pequenas mudanças na rotina fazem diferença real. E, talvez o mais importante, abandonar a ideia de que é preciso dar conta de tudo como antes. Reduzir a multitarefa, usar lembretes, respeitar pausas não é sinal de fraqueza. É maturidade.
A menopausa não é um fim. Também não é um problema a ser “consertado”. Muitas vezes, a névoa mental é um pedido de atenção do corpo, um convite para rever ritmo, prioridades e autocobrança. Quando a mulher para de se julgar e começa a se escutar, algo muda. A mente, que parecia confusa, vai ganhando clareza novamente.
Menopausa não apaga quem você é. Ela só pede que você se trate com mais gentileza.
BRUNA GHETTI é ginecologista, referência em tratamentos íntimos e longevidade.



