APOSTA PERDIDA
Por unanimidade, TJMT mantém prisão de operador financeiro do Comando Vermelho em Cuiabá
Da Redação
A Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) decidiu, por unanimidade, manter a prisão preventiva de Weberton Pedro da Silva, conhecido como “Pedrão Bá”, um dos principais alvos da Operação Aposta Perdida. A investigação desarticulou uma complexa estrutura criminosa ligada ao Comando Vermelho (CVMT), com atuação em Cuiabá e envolvimento em tráfico de drogas, estelionatos, exploração ilegal de jogos de azar e lavagem de dinheiro.
O habeas corpus (nº 1042008-21.2025.8.11.0000), relatado pelo desembargador Marcos Machado, foi julgado em 20 de janeiro de 2026. A defesa alegou ausência de fundamentação idônea para a prisão, falta de contemporaneidade dos fatos e pediu a substituição da custódia por medidas cautelares alternativas. Também sustentou que Weberton é pai de duas crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Os argumentos, contudo, foram rejeitados pelo colegiado.
Para os magistrados, permanecem presentes os requisitos legais da prisão preventiva, especialmente diante da gravidade concreta dos crimes, da estrutura organizada da facção e do risco de reiteração delitiva. O Tribunal entendeu ainda que medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica, seriam insuficientes para conter a atuação criminosa atribuída ao acusado.
Contexto da Operação Aposta Perdida
As investigações tiveram início após um episódio ocorrido em 2023, quando Ozia Rodrigues, conhecido como “Shelby” ou “Mustang”, apontado como integrante do núcleo operacional do Comando Vermelho, interrompeu uma reunião comunitária no bairro Jardim Liberdade, em Cuiabá, impondo o encerramento do encontro sob ameaça. O episódio foi interpretado pelas forças de segurança como demonstração de domínio territorial da facção.
A partir desse fato, a Delegacia Especializada de Repressão a Narcóticos (Denarc), em conjunto com o GAECO, passou a mapear uma rede criminosa estruturada em diversos núcleos. Segundo a investigação, o grupo utilizava plataformas ilegais de apostas, como Gol Bet e Campeão Bet, para financiar a organização criminosa.
Os sistemas eram operados por Ozia Rodrigues, Dainey Aparecido da Costa, conhecido como “Playboy”, e Renan Curvo da Costa, com repasses sistemáticos de recursos ao líder regional da facção, Sebastião Lauze Queiroz de Amorim, conhecido como “Dandão”, “Vovô” ou “Véio”, apontado como responsável pelo controle da região do bairro Osmar Cabral.
O esquema incluía uso de empresas de fachada, “laranjas”, contas bancárias de terceiros e movimentações fracionadas em dinheiro vivo, com o objetivo de ocultar a origem ilícita dos valores, caracterizando lavagem de capitais em larga escala.
O papel de “Pedrão Bá”
De acordo com a decisão judicial e os relatórios policiais citados no acórdão, Weberton Pedro da Silva exercia função estratégica dentro da organização criminosa. Longe de ser um integrante secundário, ele atuava como elo entre o tráfico de drogas e o núcleo financeiro da facção.
Entre as atribuições apontadas pela investigação estão o repasse direto de informações ao líder “Dandão”, a intermediação de valores provenientes de fraudes e estelionatos, a utilização de terceiros para ocultação de recursos ilícitos e a prestação de contas sobre a compra e venda de entorpecentes.
A extração de dados do celular de Sebastião Lauze revelou conversas mantidas com Weberton, datadas de 2 de janeiro de 2023, que reforçam a tese de sua atuação ativa no grupo. Para o Judiciário, “Pedrão Bá” integrava o chamado braço financeiro e logístico do tráfico, sendo peça-chave para a sustentação econômica do Comando Vermelho na capital.
Fundamentação da decisão
Ao negar o habeas corpus, a Câmara Criminal destacou três fundamentos centrais: a necessidade de garantia da ordem pública, a garantia da aplicação da lei penal — já que Weberton possui mandado de prisão pendente e cumpre pena unificada de 16 anos e 6 meses por tráfico de drogas — e a inadequação de medidas cautelares alternativas.
Quanto à alegação de paternidade, o Tribunal reconheceu a existência dos filhos com TEA, mas ressaltou que não houve comprovação de que o acusado seja o único responsável pelos cuidados das crianças, requisito exigido para eventual substituição da prisão preventiva.
Denúncia e andamento do processo
Em setembro de 2025, o GAECO ofereceu denúncia contra Weberton e outros investigados pelos crimes de organização criminosa, associação para o tráfico, exploração de jogos de azar e lavagem de dinheiro majorada. A denúncia foi recebida em 1º de outubro de 2025, e a ação penal tramita na 7ª Vara Criminal de Cuiabá.
Para o TJMT, a manutenção da prisão se justifica porque Weberton “Pedrão Bá” é apontado como operador estratégico do Comando Vermelho, responsável por conectar o tráfico de drogas ao fluxo financeiro proveniente de golpes e apostas ilegais, representando risco concreto à segurança pública caso estivesse em liberdade.



