SAINDO PELA TANGENTE
Após manobra para barrar CPI, Câmara cria comissão especial para apurar denúncia de assédio contra ex-secretário
Kamila Araújo
Após a manobra da base governista para impedir a abertura de uma CPI sobre denúncia de assédio, a Câmara Municipal de Cuiabá criou uma comissão especial para acompanhar as acusações contra o ex-secretário municipal de Desenvolvimento e Trabalho, William Leite de Campos. A medida foi aprovada em plenário com 22 votos favoráveis e uma abstenção na sessão ordinária desta terça-feira (10).
A comissão especial foi proposta pela vereadora Dra. Mara (Podemos), que defendeu a necessidade de o Legislativo agir diante da gravidade do caso. “Esta Casa não pode se omitir. É uma oportunidade de demonstrar que o Legislativo está atento e comprometido com o enfrentamento ao assédio sexual”, afirmou durante a sessão.
Autora do requerimento, Dra. Mara assumirá a presidência da comissão, enquanto os demais integrantes ainda serão indicados pelo Colégio de Líderes. O vereador Daniel Monteiro, que havia apresentado o pedido de CPI para investigar o caso, solicitou integrar o grupo especial.
Denúncia e exoneração
William Leite pediu exoneração do cargo na última sexta-feira (6), poucas horas após uma ex-servidora municipal registrar boletim de ocorrência denunciando assédio moral e sexual. Conforme o registro policial, os fatos teriam ocorrido ao longo de 2025, nas dependências da Prefeitura, em um contexto de relação hierárquica.
A denunciante relatou que deixou o cargo meses depois dos episódios e explicou que não formalizou a acusação antes por medo de exposição e de possíveis prejuízos a um familiar nomeado em outra secretaria. “Não formalizei a denúncia à época por medo de exposição e receio de prejudicar familiar nomeado em outra secretaria. Somente agora, após tomar conhecimento de denúncias anteriores, senti-me segura para registrar a ocorrência”, declarou no boletim.
O prefeito Abílio Brunini informou que denúncias anteriores haviam sido encaminhadas ao Ministério Público e à Polícia Judiciária, mas foram arquivadas por falta de provas. Com o novo boletim, uma nova apuração deverá ser instaurada.
CPI travada, comissão criada
A criação da comissão especial ocorre depois de a base governista ocupar o limite máximo de CPIs permitido pelo regimento interno, o que barrou a CPI proposta por Daniel Monteiro. Em poucos dias, quatro CPIs avançaram simultaneamente, alcançando as assinaturas necessárias e impedindo novas instalações.
Nos bastidores, a leitura é de que a estratégia foi preencher o espaço regimental para evitar uma investigação direta e politicamente sensível. Embora a manobra seja formalmente permitida, gerou críticas por esvaziar a apuração específica. Com a comissão especial, a Câmara tenta recompor a resposta institucional, mantendo o acompanhamento do caso sem abrir nova CPI.
A Mesa Diretora deve agora formalizar a composição e o cronograma de trabalho da comissão especial, que acompanhará os desdobramentos da denúncia enquanto as investigações externas avançam.



