NÃO SABE O QUE QUER
Disque-denúncia ou regulamentação? Dois projetos colocam flanelinhas no centro do debate em Cuiabá
Kamila Araújo
Dois projetos de lei protocolados na Câmara Municipal de Cuiabá colocam em debate o futuro da atuação dos guardadores de veículos, conhecidos como “flanelinhas”, em Cuiabá. As propostas, ambas de autoria do vereador T. Coronel Dias (Cidadania), seguem caminhos distintos: uma cria um canal oficial de denúncias contra cobranças ilegais; a outra regulamenta a atividade no município.
Projeto cria “Disque Anti-Flanelinha” para denúncias anônimas
O primeiro texto institui o “Disque Anti-Flanelinha”, canal destinado ao recebimento de denúncias de ameaça, constrangimento, extorsão ou cobrança ilegal para estacionamento em vias públicas.
A proposta prevê que o canal seja disponibilizado preferencialmente por meio digital, via site institucional ou aplicativo oficial do município, e permita denúncias anônimas, com garantia de sigilo.
Entre as situações que poderão ser comunicadas estão:
- Cobrança ilegal para estacionar em via pública
- Intimidação ou ameaça a condutores
- Reserva indevida de vagas públicas
- Uso de cones, cavaletes ou coletes para simular serviço autorizado
Na justificativa, o vereador argumenta que a prática tem se tornado recorrente na Capital, especialmente em áreas centrais e de grande fluxo, e que mulheres estariam entre as principais vítimas de constrangimento.
O projeto ressalta que não cria atribuições policiais nem novas sanções penais, limitando-se à criação de um mecanismo administrativo de encaminhamento de denúncias.
Outro projeto regulamenta a atividade e proíbe cobrança obrigatória
Paralelamente, tramita proposta que regulamenta a atividade de guardador autônomo de veículos em Cuiabá.
O texto estabelece que somente poderão atuar no município os profissionais registrados na Delegacia Regional do Trabalho, conforme legislação federal (Lei nº 6.242/1975 e Decreto nº 79.797/1977).
A proposta determina que o guardador:
- Atue devidamente identificado, com crachá e colete refletivo
- Trabalhe apenas em áreas públicas externas e vagas regularmente sinalizadas
- Não fixe, exija ou sugira valor obrigatório pelo serviço
- A remuneração deverá ser estritamente voluntária, vedada qualquer forma de coação ou cobrança antecipada.
Também fica proibida a obstrução de vagas com cones ou cavaletes, prática que poderá ser enquadrada no Código de Trânsito Brasileiro.
Além do caráter regulatório, o projeto autoriza o Executivo a desenvolver programas de inclusão social e capacitação profissional voltados a pessoas que exerçam ou tenham exercido a atividade.
Debate entre repressão e ordenamento
Embora tratem do mesmo tema, os projetos apresentam enfoques complementares: um reforça o combate à extorsão e à ocupação irregular de vagas públicas; o outro busca disciplinar a atividade dentro de parâmetros legais já existentes na esfera federal.
As duas propostas foram encaminhadas às comissões competentes e ainda deverão passar por discussão e votação em plenário.
Caso aprovadas, Cuiabá poderá adotar um modelo híbrido: repressão a práticas ilegais por meio de canal institucional de denúncias e regulamentação formal da atividade de guardadores autônomos.



