Os servidores estaduais de Mato Grosso receberam com alívio as decisões do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e da desembargadora Helena Maria Bezerra Ramos, do Tribunal de Justiça do estado (TJMT), que anularam o ato do governo estadual prevendo a suspensão, por 120 dias, dos descontos de empréstimos e cartões consignados em folha.
Com a reversão da medida, o fluxo de pagamento retoma a normalidade, reduzindo riscos de mora, encargos e eventuais registros de inadimplência, além de preservar o acesso do funcionalismo às condições mais favoráveis tradicionalmente associadas ao crédito consignado.
Embora o Estado alegue a intenção de auditar contratos e proteger o funcionalismo, o setor financeiro aponta que esse ‘contorno administrativo’ gera insegurança jurídica e contraria o entendimento manifestado pelo STF na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7.900.
A nova tentativa de suspensão dos descontos em Mato Grosso, que inicialmente surgiu via decreto legislativo, ressurgiu recentemente por meio de atos administrativos da Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag/MT).
Dados do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) indicam que a medida impactaria R$ 12 bilhões em operações, o que, na prática, tende a elevar o risco e encarecer os juros para o próprio servidor que busca reorganizar as finanças.
Regras claras
Ao derrubar o decreto legislativo e suspender os efeitos das medidas administrativas, as decisões reforçam o entendimento de que a competência para legislar sobre o sistema financeiro e a política de crédito é privativa da União, conforme previsto na Constituição Federal.
Na prática, para o bolso do funcionalismo, isso garante que as regras do jogo não mudem por decisões locais repentinas, mantendo o custo do crédito atrelado a critérios técnicos nacionais e não a instabilidades regionais.
“O restabelecimento do fluxo preserva não apenas os contratos, mas o planejamento financeiro de quem depende de condições previsíveis”, avalia César Fraga, superintendente jurídico e Compliance da Eagle SCD.
Segundo ele, a previsibilidade é um dos principais fatores que sustentam as taxas mais baixas normalmente associadas ao consignado.
Além disso, Fraga detalha que os atrasos prolongados se refletem no score de crédito dos consumidores, afetando futuros pedidos de financiamento e compras parceladas.
“Quando as regras são cumpridas, o servidor consegue gerir compromissos e evitar impactos em sua vida financeira.”
Desdobramentos
O tema segue em debate no STF. Em 11 de fevereiro de 2026, a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) protocolou uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) questionando decisões administrativas da Seplag/MT.
A ação contesta a suspensão, por 120 dias, dos repasses e das consignações vinculadas a operações de cartões de crédito consignado e cartões benefício.
O argumento central é que medidas administrativas dessa natureza podem gerar insegurança jurídica, com reflexos sobre contratos em andamento e sobre a dinâmica de concessão de crédito.
Enquanto os desdobramentos jurídicos seguem seu curso, decisões cautelares já produziram efeitos concretos: manutenção da validade dos contratos, continuidade dos descontos autorizados e redução das incertezas que afetavam o ambiente de crédito no estado.
Liberdade de escolha
A digitalização do setor financeiro também aparece como elemento relevante nesse contexto.
A ampliação do número de instituições autorizadas a operar consignado — incluindo fintechs e Sociedades de Crédito Direto (SCDs) — aumentou o leque de opções disponíveis ao servidor.
Em um ambiente mais competitivo, ganham espaço processos de contratação remota, comparação transparente de taxas e análise individualizada de contratos.
A tecnologia, segundo representantes do setor, permite identificar inconsistências específicas sem necessidade de paralisações amplas.
“A inovação financeira dá mais autonomia ao servidor, que hoje pode avaliar propostas com mais clareza e escolher a alternativa mais adequada ao seu perfil”, afirma o executivo da Eagle SCD.
Impactos
Para quem já possui contratos ativos, a principal mudança é o retorno à normalidade dos débitos, reduzindo riscos associados a atrasos artificiais.
Para os que pretendem contratar novas operações, o ambiente tende a refletir maior estabilidade.
Órgãos de controle permanecem responsáveis por investigar eventuais abusos ou irregularidades, agora dentro de um fluxo que preserva tanto a fiscalização quanto a continuidade das operações.
Num momento em que o planejamento doméstico é a prioridade das famílias, a postura do Judiciário devolve ao servidor a autonomia de organizar suas contas com segurança, tendo nas mãos as melhores ferramentas para decidir o seu futuro financeiro com liberdade e clareza.



