Um dos maiores dilemas da gestão pública na saúde é a tensão diária entre a chegada de novas tecnologias e a sustentabilidade financeira do sistema. Cada medicamento recém-lançado traz a esperança legítima de pacientes e familiares, mas frequentemente desembarca no SUS acompanhado de forte pressão comercial e de uma enxurrada de liminares judiciais.
É comum que a Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) seja vista, do lado de fora, como uma “barreira burocrática” para barrar o acesso. A realidade prática, no entanto, é exatamente a oposta. O papel técnico da ATS é garantir a justiça distributiva. O orçamento da saúde é finito, e a conta da inovação é alta. Quando se avalia a relação de custo-efetividade de uma nova terapia, a pergunta central não é apenas se a tecnologia funciona, mas também qual será o impacto no custeio da atenção básica ou nos insumos de milhares de outros brasileiros se dezenas de milhões forem destinados a este tratamento para um grupo específico. A ATS tira o peso da emoção e da pressão midiática, trazendo a decisão para a realidade do caixa e da evidência científica.
Porém, nenhuma decisão macroeconômica se sustenta sem a engrenagem que faz a saúde acontecer na ponta. É aqui que as Comissões de Farmácia e Terapêutica (CFT) desempenham um papel vital e, muitas vezes, invisível.
Uma canetada aprovando a incorporação de um medicamento não o coloca magicamente na mão do paciente. São as CFTs, dentro dos hospitais, secretarias estaduais e municipais, que assumem a complexidade da operação. O desafio real recai sobre elas, que precisam elaborar protocolos factíveis que se adequem à infraestrutura local e mapear toda a logística necessária, definindo desde a câmara fria adequada até a capacitação da equipe responsável pela administração da droga. É esse trabalho minucioso que garante a equidade na ponta, assegurando que a prescrição siga critérios clínicos rigorosos e não seja distribuída de forma desordenada.
Ignorar os ritos técnicos de ATS e atropelar o planejamento das CFTs em nome de decisões imediatistas é a receita mais rápida para colapsar o sistema. Defender o fortalecimento desses processos não representa uma visão “fria” ou meramente contábil da saúde. Pelo contrário: fazer a gestão correta do recurso público hoje é o compromisso ético mais honesto que podemos ter para garantir que o SUS continue existindo e atendendo quem precisa amanhã.
Willian Benjamin Rastelli Ribeiro
Farmacêutico generalista pela Universidade de Cuiabá (UNIC), especialista em Avaliação de Tecnologia em Saúde (ATS) pela Escola de Saúde Pública de Mato Grosso (ESP-MT), especialista em Farmácia Clínica pela EDUCARE-MT, especialista em Saúde Pública pela UNOPAR, com MBA em Logística Farmacêutica, Especialista em Gestão da Assistência Farmacêutica e Gestão Pública pela FACUMINAS.


