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Corpos gordos são tema de artigo científico

O artigo científico  “O corpo gordo sempre foi capaz!” Ativismo digital pela inclusão de pessoas gordas na educação física e no esporte analisa como discursos produzidos nas redes sociais podem contribuir para questionar preconceitos, ampliar a inclusão e promover justiça social na Educação Física e no esporte. O estudo tem a participação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e foi publicado na revista internacional “Sport, Education and Society”.

A pesquisa é assinada pelo docente Marcos Godoi, coordenador e professor Dr. da Faculdade de Educação Física da UFMT, em coautoria com Julianne Caju de Oliveira Souza Moraes, Doutora egressa do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (PPGECCO) da UFMT, Dra. Luciana Venâncio e Dr. Luiz Sanches Neto, da Universidade Federal do Ceará (UFC). O estudo parte do reconhecimento de que a gordofobia é uma forma de opressão estrutural que afeta a participação de pessoas gordas em diferentes espaços sociais, inclusive nas aulas de Educação Física, nas academias, nos clubes, nos projetos sociais e nas práticas esportivas.

O estudo, de abordagem qualitativa, analisou dez publicações realizadas entre 2022 e 2023, com base na Análise do Discurso, no feminismo negro e nos Estudos Gordos, conhecidos internacionalmente como Fat Studies. Essa abordagem permitiu observar como diferentes formas de opressão, como racismo, sexismo, desigualdade de classe e capacitismo, também atravessam as experiências de pessoas gordas.

Segundo Godoi, a  motivação para a pesquisa surgiu a partir de uma reportagem do Esporte Espetacular sobre Ellen Valias, ativista digital, atleta amadora, estudante de Educação Física e mulher gorda, preta e periférica, moradora da periferia de São Paulo. Ellen criou o perfil @atleta_de_peso, no Instagram, por meio do qual desenvolve um trabalho em defesa da inclusão de pessoas gordas na Educação Física, no esporte e em outras práticas corporais.

“Passamos a acompanhar seu perfil e percebemos que o discurso construído em suas redes sociais apresentava um grande potencial para investigação científica. A partir disso, surgiu a ideia de desenvolver uma pesquisa para compreender de que forma esses discursos contribuem para problematizar a participação das pessoas gordas nas práticas corporais e esportivas”, explicou o pesquisador Marcos Godoi.

Movimento, pertencimento e direito ao esporte

A pesquisa mostra que Ellen Valias utiliza as mídias digitais para contestar padrões hegemônicos de corpo, saúde, desempenho e capacidade física. Em suas publicações, ela defende que pessoas gordas têm direito à prática corporal, ao esporte, ao acolhimento e à visibilidade, sem que sua participação seja condicionada ao emagrecimento ou ao alto rendimento.

Entre os principais resultados, o artigo evidencia que muitas barreiras à participação de pessoas gordas nas práticas corporais começam ainda na infância, especialmente nas aulas de Educação Física. Segundo os pesquisadores, quando uma criança ouve repetidamente que seu corpo “não consegue”, “não serve” ou “não pertence” a determinados espaços, essa violência pode permanecer por toda a vida e afastá-la de atividades que poderiam proporcionar prazer, convivência, saúde mental e bem-estar.

Para os autores, a prática da Educação Física e do esporte não pode ser reduzida ao emagrecimento, à performance ou ao alto rendimento. Colocar o corpo em movimento também envolve pertencimento, liberdade, socialização, autoestima e cuidado. Nesse sentido, pessoas gordas não precisam emagrecer para começar uma atividade física, nem demonstrar desempenho excepcional para serem reconhecidas como legítimas nesses espaços.

O estudo reforça ainda a importância de ambientes acolhedores em escolas, academias, clubes, grupos de corrida, projetos sociais e equipamentos públicos de esporte e lazer. Para isso, profissionais da Educação Física, gestores públicos e instituições precisam adotar práticas mais inclusivas, livres de julgamentos e comprometidas com a diversidade corporal.

Estudo brasileiro em debate internacional

A publicação na revista Sport, Education and Society representa um importante reconhecimento para a pesquisa produzida nas universidades públicas brasileiras. Segundo Julianne Caju de Oliveira Souza Moraes, o artigo mostra que estudos desenvolvidos a partir da realidade nacional podem dialogar com debates internacionais sobre corpo, educação, esporte, inclusão e justiça social.

“Publicar em uma revista internacional desse porte mostra que as pesquisas produzidas nas universidades públicas brasileiras têm qualidade e relevância para dialogar com debates globais. É uma oportunidade de levar reflexões construídas a partir da nossa realidade para discussões internacionais”, afirmou Julianne.

Julianne também destacou a importância da UFMT em sua formação acadêmica. “A UFMT ocupa um lugar central na minha formação como jornalista, professora e pesquisadora. Escolhi o PPGECCO para desenvolver meu doutorado porque buscava um espaço interdisciplinar que me permitisse aproximar novamente a Comunicação, minha área de formação inicial, da Educação, da cultura e das questões étnico-raciais”, disse.

Para ela, a formação no programa ampliou sua capacidade de analisar a cultura como um campo de disputas, no qual são construídas representações sobre os corpos, as identidades, as diferenças e os lugares que determinados grupos podem ou não ocupar. Esse olhar dialoga diretamente com o artigo, que investiga como discursos produzidos nas mídias digitais podem tanto reproduzir preconceitos quanto questionar padrões considerados naturais.

Para Julianne Caju, a principal mensagem do estudo é que “o problema nunca foi a incapacidade do corpo gordo, mas os preconceitos e as estruturas que historicamente tentaram impedi-lo de se movimentar e ocupar espaços”.

“Reconhecer corpos gordos como sujeitos legítimos de movimento, existência e desejo é, portanto, uma questão pedagógica, política e social”, afirmou.

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