ROTA DO TRÁFICO
Polícia apura se Angeliquinha articulava entrada de drogas no Brasil a partir da Bolívia
Nickolly Vilela
A Polícia Civil de Mato Grosso vai investigar se Angélica Saraiva de Sá, conhecida como “Angeliquinha”, exercia um papel estratégico na entrada de drogas da Bolívia para o Brasil enquanto permanecia foragida em Santa Cruz de La Sierra. Apontada como uma das principais lideranças de uma facção criminosa no extremo norte do estado, ela foi capturada nesta terça-feira (22) após mais de um ano foragida.
Segundo o delegado Victor Hugo Freitas, da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO), a permanência de Angeliquinha em território boliviano chama a atenção dos investigadores por Santa Cruz de La Sierra estar em uma região considerada estratégica para organizações criminosas brasileiras envolvidas com o tráfico de drogas.
“Uma coisa que a gente tem convicção é que ela tinha uma atuação importante para ter ficado lá em Santa Cruz de La Sierra. Todas as cidades fronteiriças da Bolívia estão em uma região onde há uma guerra entre as facções criminosas brasileiras, justamente pelo domínio das drogas”, afirmou.
A suspeita agora será aprofundada a partir da análise de dados telemáticos e de outras informações obtidas durante a investigação. A intenção é identificar qual era a posição ocupada por Angeliquinha no país vizinho e se ela participava diretamente de negociações relacionadas ao envio de entorpecentes para o Brasil.
“Angélica estava ali com alguma posição de viabilizar essa entrada, saída e negociação. É o que a gente vai agora partir para investigar com dados telemáticos, para ver qual era a real atuação dela e a real posição dela em Santa Cruz de La Sierra e o porquê de ela ter ficado naquela cidade”, explicou Victor Hugo.
Para a GCCO, a escolha da Bolívia como destino após a fuga também será objeto da investigação. O delegado destacou que outros integrantes de organizações criminosas brasileiras costumam buscar áreas de difícil acesso no Rio de Janeiro para permanecer escondidos e continuar exercendo atividades criminosas. No caso de Angeliquinha, porém, ela deixou o Brasil e permaneceu em uma região próxima a importantes rotas internacionais de drogas.
“A Bolívia eu vejo como um local que foi estratégico. A gente vai continuar agora a investigação nesse sentido, saber o porquê de ela estar lá, por que ela não foi para o Rio. É uma região estratégica, de entrada de drogas e de guerra das duas facções criminosas que atuam no Brasil”, disse.
Ainda conforme Victor Hugo, Angeliquinha ocupava uma posição de destaque dentro da organização criminosa e teria continuado mantendo contato com integrantes da facção mesmo após deixar Mato Grosso.
“Ela é uma pessoa de destaque não só para o extremo norte do nosso estado, mas para a facção. Então, ela estar em Santa Cruz de La Sierra, uma cidade destacada, havia algum motivo, e é o que a gente vai apurar agora”, completou.
Angeliquinha fugiu da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto, em Cuiabá, em 17 de agosto de 2025. Conforme o delegado, as investigações realizadas desde a fuga já indicavam uma rota compatível com a saída de Mato Grosso em direção à Bolívia.
Ela foi localizada em Santa Cruz de La Sierra após troca de informações entre a Polícia Civil de Mato Grosso e as autoridades bolivianas. No momento da abordagem, apresentou um documento brasileiro falso em nome de outra pessoa, mas acabou identificada.
Angeliquinha acumula cerca de 260 anos em condenações e possui outros mandados de prisão relacionados a crimes como homicídio, tráfico de drogas e organização criminosa. Após os procedimentos de deportação ou expulsão na Bolívia, ela deverá ser encaminhada ao Brasil e recambiada para o sistema penitenciário de Mato Grosso.



