Apuração em Mato GrossoCarregando dados do TSE…Atualiza em 30s
BASTIDORES DA CAMPANHA
Campanha ao Governo de MT é marcada por rachas, decisões judiciais e confrontos
Gustavo Castro
A corrida pelo Governo de Mato Grosso foi marcada não apenas por propostas e disputas nas pesquisas de intenção de voto, mas também por uma sucessão de episódios que movimentaram os bastidores e deram novos contornos à campanha. Ao longo dos meses, os seis candidatos ao Palácio Paiaguás enfrentaram situações distintas, que passaram por falta de apoio dentro dos próprios partidos, decisões da Justiça Eleitoral, mudanças em chapas, discussões públicas e até confusão física nos bastidores de debate.
Na reta final do primeiro turno, a disputa reúne o governador Otaviano Pivetta (Republicanos), que tenta a reeleição, o senador Wellington Fagundes (PL), a médica Natasha Slhessarenko (PSD), o Sargento Laudicério (Agir), o empresário Maurício Coelho (Mobiliza) e Rafaell Milas (Missão).
Wellington isolado
Para Wellington Fagundes, uma das principais dificuldades ao longo da campanha foi justamente dentro do próprio campo político. Candidato do PL ao Governo, o senador não conseguiu reunir em torno de sua candidatura parte das principais lideranças municipais da legenda.
O caso mais emblemático envolve o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), que evitou declarar apoio público a Wellington e, em aparições de campanha, concentrou seus pedidos de voto em outros nomes da chapa, como José Medeiros para o Senado e Flávio Bolsonaro para a Presidência. A prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti (PL), também se afastou do palanque de Wellington e chegou a participar de ato de campanha de Pivetta.
A movimentação provocou uma espécie de racha no PL mato-grossense. Prefeitos da legenda, entre eles Abilio, Moretti e Cláudio Ferreira, passaram a se aproximar de Pivetta. Wellington, por sua vez, evitou defender a expulsão dos chamados “infiéis” e afirmou que prefeitos deveriam ter liberdade para definir seus posicionamentos políticos.
O desconforto ficou ainda mais evidente na convenção do partido, quando a ausência de algumas dessas lideranças chamou atenção. Mais tarde, a tensão ganhou novas declarações públicas, inclusive depois de Moretti aparecer ao lado de Pivetta.
Pivetta entre o “fazimento” e os incentivos
Na campanha pela reeleição, Pivetta transformou a ideia de “fazimento” em uma das marcas de seu discurso. A expressão é usada pelo governador para destacar obras, investimentos e entregas realizadas pela administração estadual e para defender a continuidade do modelo de gestão iniciado em 2019, ainda durante o governo Mauro Mendes.
O discurso, porém, acabou entrando no embate eleitoral. Wellington passou a ironizar o termo e classificou a gestão adversária como um “fazimento de coisa errada”.
Outro assunto que acompanhou Pivetta durante a campanha foi a política de incentivos fiscais. Adversários questionaram o volume de renúncias tributárias envolvendo empresas ligadas à trajetória empresarial do governador. Pivetta, por outro lado, defendeu o Prodeic e afirmou que os benefícios são instrumentos de desenvolvimento econômico, geração de empregos e industrialização.
Em seu plano de governo, o candidato propõe manter e aperfeiçoar os programas de incentivos, condicionando os benefícios a investimentos, geração de empregos e processamento da produção em Mato Grosso.
A campanha de Pivetta também passou por uma turbulência provocada pela Operação Heritage, da Polícia Federal. A investigação apura suspeitas de desvio de mais de R$ 308 milhões em um acordo envolvendo o Governo de Mato Grosso e a operadora Oi. Entre os alvos estavam o deputado federal Fábio Garcia e o ex-governador Mauro Mendes.
Garcia havia sido escolhido para ser vice de Pivetta, mas deixou a chapa após os desdobramentos da operação e retomou a candidatura à Câmara dos Deputados. Na ocasião, tanto Garcia quanto Pivetta afirmaram que a mudança havia sido tomada em consenso.
O episódio, porém, expôs um momento de tensão dentro do grupo governista, justamente às vésperas da consolidação da chapa. A investigação também levou a restrições de contato entre alguns dos investigados, dificultando a atuação conjunta de integrantes do mesmo grupo político durante a campanha.
Natasha e a propaganda que saiu do ar
Natasha Slhessarenko teve uma das campanhas mais afetadas por decisões da Justiça Eleitoral na reta final. O TRE-MT determinou a suspensão da propaganda eleitoral da candidata depois de considerar que peças exibidas no rádio e na televisão descumpriram decisão anterior que proibia associar Pivetta a uma antiga reportagem sobre violência doméstica.
Segundo a decisão, mesmo depois de ser comunicada da determinação judicial, a campanha voltou a veicular peças relacionadas ao assunto. Como consequência, a Justiça determinou a suspensão da propaganda eleitoral gratuita da candidata até o encerramento do período de veiculação.
O episódio se tornou um dos principais embates jurídicos da reta final e levou a campanha de Natasha a anunciar que recorreria da decisão.
Sargento Laudicério e a troca de vice
A chapa do Sargento Laudicério também passou por mudanças antes da eleição. O candidato do Agir chegou à reta final tendo alterado o nome de seu vice por três vezes.
Inicialmente, o produtor rural Gilberto Possamai havia sido escolhido para a composição. Depois, ele foi substituído pelo empresário Alex Pedde Pucineli. A segunda formação, porém, também acabou desfeita depois que Pucineli renunciou à candidatura e não conseguiu comprovar a filiação partidária exigida para disputar o cargo.
A solução encontrada pelo partido foi indicar a sargento da Polícia Militar Karen de Arruda Fortes, que passou a ocupar a vaga de vice. A mudança ocorreu já próxima da eleição e ainda precisou passar pela análise da Justiça Eleitoral.
Maurício Coelho e a confusão no debate
Maurício Coelho protagonizou um dos episódios mais inusitados da campanha. Durante um intervalo de um debate entre os candidatos ao Governo, ele se envolveu em uma discussão com Roberto Fraife Barreto, marido de Natasha.
O bate-boca aconteceu fora do ar e foi registrado em imagens. Segundo relatos divulgados na época, o desentendimento começou depois de questionamentos feitos por Maurício a Natasha durante o debate. A candidata chegou a intervir para separar os dois.
A discussão acabou virando caso de polícia. Natasha registrou ocorrência contra Maurício, enquanto o candidato do Mobiliza também apresentou queixa contra a candidata e o marido dela.
Dias depois, Maurício voltou a comentar o episódio e afirmou que, caso fosse necessário, poderia ter partido para o confronto físico, embora tenha dito que preferiu agir de maneira “civilizada”.
Rafaell Milas e a fala que virou multa
Rafaell Milas, candidato do Missão, também teve um episódio envolvendo a Justiça Eleitoral durante a campanha. Ele foi multado em R$ 5 mil após chamar Wellington Fagundes de “corrupto” em um vídeo publicado nas redes sociais.
A decisão do TRE-MT determinou ainda a retirada definitiva da publicação. Na avaliação da Justiça, a declaração ultrapassou os limites da crítica política permitida na propaganda eleitoral.
A defesa de Milas alegou que as declarações faziam parte do debate político e que o candidato fazia referência a investigações anteriores envolvendo Wellington. A Justiça, contudo, destacou que Fagundes havia sido absolvido nas ações penais mencionadas na publicação.
O episódio deu ao candidato uma das principais exposições de sua campanha fora dos debates e das redes sociais, justamente em um momento de maior acirramento da disputa.



