De um lado, uma urna levada até uma comunidade indígena de difícil acesso, cercada pela floresta no noroeste de Mato Grosso. Do outro, uma seção instalada em uma aldeia Haliti-Paresi inserida em uma região de agricultura mecanizada e maior contato com atividades econômicas e turísticas. Separadas por centenas de quilômetros e por realidades distintas, duas urnas revelam como indígenas de diferentes territórios fizeram suas escolhas para Presidente da República nas eleições de 2026.
Na Aldeia Kotakowinakwa/Doloikwa, do povo Enawenê-Nawê, em Juína (735 km de Cuiabá), chegar com a eleição até os moradores exige uma operação especial da Justiça Eleitoral. A comunidade fica em área considerada de difícil acesso e abriga a seção 321 da 35ª Zona Eleitoral. Ali, 294 eleitores compareceram às urnas no primeiro turno das eleições gerais de 2026. Na disputa pela Presidência, o resultado foi praticamente de uma só direção: Lula recebeu 275 votos, ou 94,18% dos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro teve 17 votos, equivalente a 5,82%.
A realidade muda quando o caminho segue para Campo Novo do Parecis (cerca de 400 km de Cuiabá), onde está a Aldeia Bacaval, do povo Haliti-Paresi. A comunidade está inserida em uma região na qual indígenas mantêm maior interação com atividades econômicas, produção agrícola e turismo. É lá que funciona a seção 93 da 60ª Zona Eleitoral, na Escola Municipal de Educação Indígena Bacaval. Por lá, Flávio Bolsonaro recebeu 74 votos, o equivalente a 71,15% dos votos nominais, enquanto Lula teve 22 votos, ou 21,15%, dentre os 105 eleitores que compareceram às urnas. Outros 7 eleitores também votaram no escritor e autor Augusto Cury e 1 voto para Renan Santos, do MBL.
Para a socióloga e cientista política Christiany Fonseca, a diferença entre as duas urnas precisa ser analisada para além da identidade indígena. Segundo ela, as escolhas eleitorais também passam pelas condições materiais e pelas relações construídas em cada território. Enquanto segmentos Haliti-Paresi estão inseridos em atividades produtivas que criam demandas específicas na relação com o Estado, entre os Enawenê-Nawê, questões ligadas ao território, aos rios e às práticas tradicionais ocupam posição central. “A identidade indígena é coletiva, mas sua expressão política não é necessariamente uniforme”, afirma.
A maior interação com atividades econômicas também pode colocar outros temas no cotidiano político das comunidades. Christiany explica que uma população integrada à produção agrícola, por exemplo, passa a ter contato mais frequente com discussões sobre crédito rural, infraestrutura, legislação ambiental e liberdade produtiva. Isso, porém, não significa que o contato externo determine o voto. “Mais importante do que medir o grau de contato é compreender quem estabelece essas relações, quais interesses estão envolvidos e como determinadas narrativas adquirem legitimidade dentro da comunidade”, pontua.
A relação dos Haliti-Paresi com a produção agrícola, por exemplo, vai além das pequenas lavouras tradicionais. Na região de Campo Novo do Parecis, comunidades indígenas participam de cooperativas dedicadas ao cultivo mecanizado de soja, milho e outros grãos. Dados divulgados pela Funai em 2022 apontavam que quatro cooperativas, formadas por indígenas de três etnias em Mato Grosso, movimentavam cerca de R$ 140 milhões anuais com a produção agrícola. A atividade se tornou uma importante fonte de renda para parte dessas comunidades, que também desenvolvem iniciativas ligadas ao turismo indígena.
VISITA DE CAMPANHA
A região de Campo Novo do Parecis entrou no roteiro eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL). Em 31 de agosto, o então candidato à Presidência esteve em uma comunidade Haliti-Paresi, acompanhado de José Medeiros (PL), candidato ao Senado, e Thiago Boava (PL), candidato a deputado federal. Outras lideranças também estiveram presentes. A visita, que incluiu gravações para a campanha, ocorreu em meio às discussões sobre a produção agrícola indígena e as dificuldades de acesso ao crédito rural. Pouco mais de um mês depois, no primeiro turno, Flávio recebeu 16.547 votos na 60ª Zona Eleitoral, enquanto Lula (PT) registrou 5.529.
Os números levantados pela reportagem também mostram a votação de dois candidatos que acompanharam o presidenciável naquela agenda. José Medeiros recebeu 14.112 votos para o Senado, enquanto Thiago Boava (PL) contabilizou 9.591 para deputado federal. Na disputa pela Câmara, Boava teve votação superior à soma dos votos de Coronel Fernanda (1.150), Professora Rosa Neide (1.296), Coronel Assis (1.120), Virgínia Mendes (975) e Fábio Garcia (489), que juntos alcançaram 5.030 votos.

Fora das aldeias analisadas, o levantamento também considerou os resultados gerais de municípios de Mato Grosso com forte presença indígena. Flávio Bolsonaro recebeu mais votos em Gaúcha do Norte, Canarana, São Félix do Araguaia, General Carneiro, Barra do Garças, Nova Xavantina e Campo Novo do Parecis. Em Campinápolis, à exceção. Lula registrou 4.457 votos, contra 3.471 de Flávio.
A pesquisadora Christiany Fonseca alerta que os resultados das seções 321 e 93 não permitem concluir, sozinhos, por que os eleitores escolheram Lula ou Flávio Bolsonaro. Na ciência política, explica, atribuir motivações individuais com base apenas em resultados coletivos pode levar à chamada “falácia ecológica”. Por isso, as duas urnas funcionam como pontos de partida para observar diferenças entre comunidades, e não como retrato de todos os povos indígenas de Mato Grosso. “O resultado eleitoral mostra como os votos foram distribuídos, mas não explica, por si só, por que foram escolhidos. Duas urnas podem inaugurar uma investigação relevante, jamais substituir a investigação”, conclui.











