quarta-feira, 14 outubro, 2026

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ECONOMIA DO CUIDADO

Trabalho de cuidado sobrecarrega mulheres e aprofunda desigualdades de gênero

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Foto: Magnific

Cuidar da casa, preparar refeições, lavar roupas, acompanhar o desenvolvimento dos filhos e prestar assistência a idosos e pessoas com deficiência são atividades essenciais para a manutenção da vida. Apesar disso, esse trabalho nem sempre é reconhecido como deveria e continua recaindo, de forma desproporcional, sobre as mulheres. A desigualdade na divisão dessas responsabilidades é um dos principais aspectos da chamada economia do cuidado.

Dados da Oxfam apontam que as mulheres realizam mais de 75% do trabalho de cuidado não remunerado no mundo. São mais de 12,5 bilhões de horas dedicadas diariamente a essas atividades, segundo dados da organização divulgados pela Forbes. Embora sejam fundamentais para o funcionamento das famílias e da sociedade, essas horas de trabalho não são remuneradas e não aparecem diretamente nas medidas tradicionais da atividade econômica da mesma forma que o trabalho pago.

No Brasil, a desigualdade também se reflete no tempo dedicado às tarefas domésticas e aos cuidados com outras pessoas. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as mulheres dedicam, em média, 21 horas por semana a essas atividades, enquanto os homens destinam 11 horas. A diferença evidencia como as responsabilidades do cuidado continuam distribuídas de maneira desigual, mesmo com a crescente participação feminina no mercado de trabalho.

A distribuição desigual das tarefas domésticas começa cedo e pode contribuir para perpetuar padrões de gênero ao longo da vida. Dados da ONU Mulheres indicam que 76% das meninas lavam a louça, enquanto apenas 12% dos meninos realizam a mesma tarefa. Na limpeza da casa, a diferença também é expressiva: 65% das meninas participam da atividade, em comparação com 11% dos meninos.

Essa divisão desde a infância reforça a ideia de que cuidar da casa e das pessoas é, principalmente, uma responsabilidade feminina. Na vida adulta, esse padrão pode se traduzir em jornadas mais longas, menos tempo para qualificação profissional, lazer e descanso, além de dificuldades para conciliar o trabalho remunerado com as demandas familiares.

A importância econômica do cuidado também pode ser percebida pelo valor que essas atividades representariam se fossem remuneradas. Estimativas divulgadas pela Oxfam apontam que o trabalho de cuidado não pago poderia movimentar cerca de 10,9 trilhões de dólares por ano no mundo.

Apesar desse valor, quem realiza a maior parte dessas tarefas nem sempre recebe reconhecimento ou apoio proporcional à responsabilidade assumida. A sobrecarga pode reduzir as oportunidades profissionais, comprometer a autonomia financeira e ampliar as desigualdades de renda entre homens e mulheres.

Os impactos também alcançam a saúde física e mental. A combinação entre emprego, tarefas domésticas e cuidados com familiares pode provocar cansaço constante, estresse e esgotamento emocional. Quando não há uma divisão equilibrada das responsabilidades ou uma rede de apoio, o peso dessas atividades pode recair quase integralmente sobre uma única pessoa.

Para a defensora pública-geral da Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso, Luziane Castro, discutir a economia do cuidado é reconhecer esse trabalho e defender uma divisão mais justa das responsabilidades. “Quando o cuidado é invisível, também se tornam invisíveis o tempo, o trabalho e as renúncias de tantas mulheres. Discutir a economia do cuidado é reconhecer esse trabalho e defender uma divisão mais justa das responsabilidades, porque cuidar deve ser compromisso de todos”.

Campanha “Elas sentem o peso” – A Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso (DPMT) aderiu, por meio do Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais (Condege), à campanha “Elas sentem o peso”, proposta pela Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE).

A iniciativa busca ampliar o debate sobre a economia do cuidado e chamar a atenção para a sobrecarga física, mental e financeira enfrentada pelas mulheres que, muitas vezes, assumem sozinhas as tarefas domésticas e os cuidados com dependentes. Por meio de peças audiovisuais, a campanha propõe uma reflexão sobre a divisão dessas responsabilidades e reforça que o cuidado deve ser reconhecido e compartilhado por toda a sociedade.

Para o Condege, a adesão à campanha reforça a importância de refletir sobre quem assume as responsabilidades do cuidado e quem oferece apoio a essas mulheres. “É preciso refletir: quem acolhe aquelas que dedicam suas vidas ao cuidado? Cuidar não deve ser um peso suportado por uma única pessoa, mas uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade”, destaca o Conselho.

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