terça-feira, 20 outubro, 2026

Expediente

Muvuca Popular

50 VAGAS

UFMT terá primeiro curso de formação de professores indígenas

Muvuca Popular

Foto: UFMT

O Ministério da Educação (MEC) aprovou a criação do curso de Licenciatura Intercultural Indígena no Câmpus do Araguaia da Universidade Federal de Mato Grosso, unidade Barra do Garças. A formação de professores indígenas em nível superior será realizada, inicialmente, com estudantes do povo A’uwẽ Uptabi (Xavante). Oferecido pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), o primeiro curso desse tipo na região representa um marco para a educação indígena no Médio Araguaia, pois é pensado a partir da cultura, da língua e da realidade das próprias comunidades.

O projeto começou a ser desenvolvido há vários anos, mas a implantação dependia de recursos financeiros. Uma articulação entre o movimento indígena e o MEC garantiu os recursos necessários para o início das atividades. A direção do ICHS já começou a realizar as primeiras visitas às aldeias para a implementação do curso. “Essas visitas são fundamentais para aproximarmos a Universidade das comunidades e conhecermos de perto suas realidades, demandas e necessidades”, explica a diretora do Instituto, professora Ranielle Sousa.

A docente destaca a importância do curso tanto para a UFMT quanto para o povo Xavante: “É muito representativo e simbólico ver a comunidade indígena ocupar de fato a Universidade, que passa a ser também um território indígena. Ao mesmo tempo, o grande objetivo é fortalecer o direito à educação e formar professores dentro de seus próprios territórios”, completa

Fortalecimento das comunidades
A Licenciatura Intercultural oferecerá 50 vagas para a formação de professores Xavante. Voltado a docentes que atuarão nos anos finais do Ensino Fundamental e Médio, o curso não faz restrição a aldeias ou terras indígenas específicas, contemplando o povo Xavante de forma ampla. O ingresso ocorrerá por meio de processo seletivo, tendo requisitos como o Ensino Médio completo e comprovação de pertencimento a um povo indígena.

Com duração de quatro anos, o curso tem como proposta qualificar professores para atuar nas próprias comunidades, articulando conhecimentos acadêmicos aos saberes tradicionais e contribuindo para o fortalecimento da língua, da cultura, da identidade e das práticas educativas indígenas. A formação contará com duas habilitações, Linguagens e Humanidades e Ciências da Natureza e Matemática, além de pesquisa e extensão, estágio supervisionado e produção de materiais didáticos voltados à realidade das comunidades.

Para o coordenador do Território Etnoeducacional Xavante, Xisto Tserenhiru, a criação da licenciatura é uma importante conquista, após muitos anos de luta. Segundo ele, as articulações começaram em 2009, quando lideranças Xavante passaram a buscar uma formação superior específica para os professores indígenas. Depois de reuniões, elaboração de projeto e diálogo com o MEC e a UFMT, a proposta saiu do papel. Segundo ele, a universidade ensina a pedagogia e a ciência, enquanto o povo indígena contribui com seus conhecimentos tradicionais. “Antes, muitos professores precisavam deixar suas famílias e viajar para outras cidades e até outros estados para conseguir fazer uma licenciatura. Agora teremos essa formação construída para a nossa realidade e dentro do nosso território de atuação”, explica o líder indígena.

A graduação oferecida pelo Câmpus do Araguaia adota a chamada “pedagogia da alternância”: o curso será dividido entre o “tempo escola”, com aulas presenciais concentradas na unidade Barra do Garças, e o “tempo comunidade”, período em que os estudantes desenvolverão estágios, atividades de extensão e pedagógicas dentro das aldeias. Esse modelo permite que os alunos permaneçam próximos de suas comunidades durante toda a formação e que os conhecimentos adquiridos sejam aplicados diretamente nas escolas indígenas.

Águeda destaca que a formação de professores indígenas exige, antes de tudo, uma postura diferenciada de quem ensina: “Se não for junto com eles, tentando aprender, deixando se abrir para aprender também com eles, não funciona. Você acaba impondo um modelo que não é deles, não é para eles”.

Próximos passos
Segundo a diretora do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da UFMT Araguaia, Ranielle Sousa, as próximas etapas incluem a atualização do Projeto Pedagógico do Curso (PPC), a organização da agenda de trabalho, além da publicação dos editais para seleção dos estudantes e dos professores colaboradores.

A expectativa é que o processo seletivo seja realizado ainda este ano. “Vamos retomar a agenda com a comissão, o movimento indígena e os Xavantes, pensar o processo seletivo e, então, abrir a primeira turma. A previsão é iniciar as aulas no primeiro semestre de 2027”, explica.

A conquista é celebrada também por quem acompanha a proposta desde o início. Referência em educação indígena, a professora aposentada do Câmpus do Araguaia da UFMT Águeda Borges atuou em muitos projetos de formação de professores com os povos Munduruku, no Pará, Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, e Tapirapé, em Mato Grosso, e esteve entre as primeiras pessoas a trabalhar na elaboração do projeto da Licenciatura Intercultural. Para ela, é preciso corrigir uma lacuna histórica nas universidades brasileiras, que “dão pouca importância para os saberes indígenas”.

PACAEMBU 1260px X 120px 6 MESES

Leia também