Por Débora Pacheco
A Formação de membros ficou distribuída tendo a presidente da Comissão, vereadora Elis Enfermeira (PL), relator vereador Jerônimo Gonçalves (PL) e vereadora Magaly Silva é membro titular. Esses vereadores têm em mãos grandes responsabilidades para trazer os esclarecimentos sobre a realidade se houve ou não irregularidades para definir os crimes de corrupção.
Nos bastidores da política municipal, uma movimentação chamou a atenção: o secretário de obras, apontado como alvo direto da CPI das Obras, sendo suplente de vereador, foi cogitado para assumir a vaga de vereador justamente no momento em que a Comissão Parlamentar de Inquérito se prepara para iniciar os trabalhos. A primeira leitura é simples: trata-se de uma jogada estratégica para acompanhar de perto – e até influenciar – o andamento das investigações. Mas será que essa manobra pode realmente anular ou inviabilizar a CPI?
Consultamos a cacerense e advogada a Dra. Débora Pacheco, sobre a questão onde destaca o conflito de interesses e aponta: “Uma CPI tem a função de investigar fatos determinados de interesse público. Para isso, os vereadores que a compõem precisam atuar com imparcialidade e liberdade.”
A situação em questão onde o investigado passa a ocupar uma cadeira dentro da própria Câmara, o cenário muda. Ele como vereador pode votar, propor encaminhamentos, ter acesso a informações sigilosas e, de alguma forma, interferir na condução da investigação da qual deveria ser apenas alvo.
Embora não haja lei específica sobre o impedimento de vereadores nesse tipo de situação, a Constituição e a jurisprudência utilizam princípios claros: moralidade, impessoalidade e devido processo. Assim como um juiz não pode julgar a si mesmo, seria no mínimo questionável que um investigado tivesse poder de decisão sobre os rumos da investigação. Se ficar comprovado que a participação do secretário-vereador contaminou o processo, os atos da CPI podem ser questionados judicialmente e até anulados.
Isso porque qualquer indício de parcialidade pode comprometer a validade da investigação, abrindo espaço para que a defesa alegue vício de origem e peça o arquivamento.
A Verdade que vai além das obras
O episódio mostra como o nível baixo da política municipal pode transformar um simples rito de investigação em um verdadeiro tabuleiro de xadrez para beneficiar os investigados. De um lado, a CPI promete apurar possíveis irregularidades em contratos e obras públicas. De outro, a entrada estratégica de um investigado no Legislativo lança dúvidas sobre a real independência da apuração.
No fim, quem corre o risco de sair perdendo é a própria sociedade, que pode ver uma investigação legítima ser travada por uma jogada de mestre – ou de esperteza – que ameaça derrubar a CPI das Obras antes mesmo de ela produzir resultados.
Como advogada e cacerense, alertei na data de 28 de agosto o membro da CPI o vereador Jerônimo sobre a presença de um possível investigado que representava o poder executivo no período o qual a investigação mira e de acordo com a imprensa estaria ocupando uma vaga de vereador. Desejo que os membros da CPI conduzam no rigor da lei e possam promover todas as diligências para comprovar se houve ou não irregularidades e para onde o dinheiro público foi direcionado. A Sociedade espera um resultado técnico e justo e não com manobras política para jogar a sujeira caso houver para debaixo do tapete.
Dra. Débora Pacheco Quidá é advogada