POLÊMICA DOS ELEFANTES
Após suspensão, Santuário reage, lança petição e denuncia “perseguição”
Kamila Araújo
O Santuário de Elefantes Brasil (SEB), em Chapada dos Guimarães, reagiu duramente à decisão da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT) de suspender, de forma cautelar, a entrada de novos elefantes no local e denunciou o que classifica como uma campanha organizada de desinformação, pressão política e ataques direcionados para enfraquecer o modelo de santuários e impedir a transferência de animais em situação de risco.
Em nota pública, a instituição afirma que a medida da Sema foi precipitada, ocorreu sob forte pressão externa e passou a ser usada como instrumento para alimentar narrativas que tentam associar, sem base técnica, a morte recente de duas elefantas a falhas no cuidado oferecido pelo santuário.
A direção do SEB sustenta que as acusações são infundadas, repetidas há anos por grupos contrários à atuação dos santuários e que agora ganharam força após a morte da elefanta Kenya, ocorrida em dezembro, menos de três meses depois da morte de Pupy, em outubro.
Mortes viram combustível para ataques
Segundo o santuário, a perda das duas elefantas, ambas transferidas da Argentina em 2025 e já em condições clínicas delicadas, foi instrumentalizada por grupos que historicamente se opõem ao modelo de santuários, muitos deles ligados ao setor de zoológicos e ao cativeiro tradicional de animais.
A instituição afirma que há indícios de que denúncias foram motivadas por interesses diretos em impedir que outros elefantes, hoje sob disputa judicial, sejam transferidos para o SEB.
“O que está em jogo não são apenas dois casos trágicos, mas uma disputa sobre que modelo de cuidado com animais vai prevalecer: um baseado em bem-estar, espaço e dignidade, ou outro baseado em confinamento e exploração”, sustenta a entidade.
Pressão política e vazamentos
O santuário afirma que a suspensão temporária de sua autorização para receber novos animais ocorreu em meio ao recesso de fim de ano, com equipes reduzidas nos órgãos públicos, e sob um ambiente de pressão pública e política que teria levado a uma decisão apressada.
A nota também denuncia que a informação sobre a suspensão foi deliberadamente vazada para a imprensa antes mesmo de o santuário ter acesso completo aos fundamentos técnicos da medida, o que teria contribuído para alimentar uma narrativa negativa.
Investigação técnica em curso
A Sema-MT afirma que a suspensão é preventiva, não punitiva, e não implica irregularidade no funcionamento do santuário. O órgão deu prazo de 60 dias para que o SEB apresente informações técnicas sobre seus protocolos de biossegurança e manejo.
O Ibama acompanha o caso e requisitou exames de necropsia, que estão sendo realizados por uma equipe da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A expectativa é que os laudos fiquem prontos em cerca de 30 dias, quando será possível indicar, de forma técnica, as causas das mortes.
Fiscalizações anteriores, segundo o próprio Ibama, não apontaram problemas estruturais no local nem falhas evidentes nos cuidados prestados.
Santuário acusa inversão de responsabilidades
O SEB sustenta que muitos dos elefantes que chegam ao local vêm de décadas de cativeiro em circos ou zoológicos, frequentemente sem acompanhamento veterinário adequado, sem exames regulares, com lesões crônicas, problemas nos pés, quadros infecciosos e envelhecimento avançado.
Para a instituição, atribuir ao santuário a responsabilidade por mortes de animais idosos e fragilizados equivale a culpar uma unidade de cuidados paliativos pelo óbito de pacientes em fim de vida.
A entidade também critica o que chama de seletividade nas cobranças: mortes de elefantes jovens em zoológicos no Brasil e na Argentina, segundo o SEB, não geraram mobilização semelhante nem exigência de investigações rigorosas.
Defesa da transparência
O santuário afirma apoiar fiscalizações técnicas rigorosas, mas exige que elas sejam conduzidas com isenção, critério técnico e o mesmo nível de exigência aplicado a todas as instituições que mantêm elefantes sob cuidados humanos.
A instituição informou ainda que já acionou seus advogados para responsabilizar judicialmente quem dissemina informações que considera falsas e que seguirá colaborando com os órgãos ambientais.
“A transparência interessa aos órgãos públicos, à sociedade e, principalmente, aos elefantes. O que não podemos aceitar é que tragédias sejam usadas como arma política para destruir quem trabalha justamente para corrigir décadas de maus-tratos”, afirmou o SEB.
A Sema reforça que só após a análise dos documentos e a conclusão dos laudos periciais decidirá sobre a retomada da autorização para a entrada de novos animais no santuário.
Petição cobra investigação sobre mortes fora do santuário
Além de reagir à suspensão cautelar, o Santuário de Elefantes Brasil anunciou o lançamento de uma petição pública para cobrar que órgãos ambientais e de fiscalização investiguem, com o mesmo rigor aplicado ao SEB, mortes de elefantes ocorridas em outras instituições no Brasil e no exterior.
Segundo a entidade, a iniciativa tem como objetivo expor o que classifica como um tratamento desigual na apuração dos casos e chamar atenção para óbitos que teriam ocorrido em zoológicos e cativeiros sem que houvesse a mesma mobilização institucional ou exigência de documentação técnica.
A petição solicita que a Sema, o Ibama e outros órgãos competentes apurem mortes consideradas prematuras ou ocorridas em circunstâncias trágicas, além de casos de elefantes que permanecem em instituições sem condições adequadas de bem-estar. A instituição defende que, se o processo for realmente imparcial, o mesmo nível de responsabilização deve ser aplicado a todas as entidades que mantêm elefantes sob cuidados humanos, independentemente do modelo adotado.
Para o santuário, a mobilização busca romper o que chama de silêncio histórico em torno de falhas no cuidado em cativeiros tradicionais e impedir que apenas o modelo de santuários seja submetido a escrutínio público intenso.
“Não pedimos privilégios. Pedimos isonomia. Se há investigação, que ela alcance todos que mantêm elefantes sob sua responsabilidade”, sustenta a entidade no texto que acompanha a petição.



