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Quando valores simbólicos falham como guias de conduta

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Organizações – sejam empresas, instituições públicas ou clubes de futebol – costumam se definir a partir de valores nobres: amor, honra, tradição, pertencimento. Esses princípios são importantes. Criam identidade, mobilizam pessoas e fortalecem vínculos. Ainda assim, a experiência mostra que valores simbólicos, isoladamente, não garantem comportamentos éticos.

O afastamento e a investigação de dirigentes do São Paulo Futebol Clube ilustram bem essa contradição. Em sua declaração pública, um deles anuncia a renúncia ao cargo, mas reafirma seu amor incondicional pelo clube – “amor de infância e da vida”. A frase é forte, emocionalmente legítima para muitos torcedores. No entanto, ela convive com a apuração de irregularidades ocorridas justamente no exercício da função que deveria proteger a instituição.

O ponto central não é questionar a sinceridade do sentimento, mas reconhecer seus limites. Amar uma organização não impede que decisões equivocadas sejam tomadas em nome dela. Em alguns casos, o vínculo emocional funciona como justificativa interna para ultrapassar limites que, em outras circunstâncias, seriam mais evidentes.

Essa lógica é explorada de forma recorrente em Freakonomics. Ao longo da obra, os autores demonstram que boas intenções e discursos morais raramente explicam, por si só, o comportamento real das pessoas. O que orienta as decisões, na prática, são os incentivos, as estruturas de poder e aquilo que o ambiente permite ou tolera. Amor, honra e tradição têm força simbólica, mas não substituem mecanismos concretos de governança, controle e responsabilização.

O mesmo raciocínio se aplica ao mundo corporativo. Um colaborador pode amar a empresa e, ainda assim, adotar práticas questionáveis para atingir metas, manter sua posição ou atender expectativas implícitas. Assim como no futebol, o discurso do amor pode encobrir escolhas que, no longo prazo, prejudicam a própria organização.

Freakonomics nos lembra de uma lição simples e desconfortável: o comportamento não se regula pela intenção, mas pelo contexto. Se o ambiente recompensa resultados a qualquer custo, normaliza pequenas distorções ou pune a transparência, não será o amor institucional que conterá desvios. Valores que não se traduzem em regras, práticas e consequências permanecem no plano retórico.

No fim, talvez a pergunta mais importante para qualquer organização não seja se as pessoas amam a instituição, mas outra, mais exigente: o sistema que construímos favorece escolhas alinhadas aos valores que declaramos defender? Porque, quando os incentivos falham, nem mesmo o amor é suficiente para proteger a integridade de uma organização.

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