INTERDIÇÕES RECORRENTES
Obras do BRT obrigam comerciante da Prainha a deixar ponto mantido há mais de 30 anos
Nickolly Vilela
As obras de implantação do BRT na Avenida Prainha, em Cuiabá, já começam a provocar mudanças definitivas no comércio local. Dona de uma loja de artigos de decoração instalada há mais de 30 anos no mesmo ponto, a comerciante Sirley Sato afirma que a queda nas vendas e as dificuldades de acesso ao estabelecimento a levaram a tomar uma decisão até então impensável: mudar de endereço.
Segundo ela, o impacto no faturamento chega a cerca de 30%, percentual que se agravou nos últimos dias com o avanço das intervenções na via. “Reduziu bastante. O transtorno na avenida afetou muito o movimento. Ultimamente está pior, principalmente nesses últimos dias”, relata.
A situação tende a se intensificar. Desde sexta-feira (30), um dos lados da Avenida Prainha foi totalmente interditado no trecho entre a Praça Ipiranga e a Avenida Dom Bosco, no sentido Centro–Porto, pelo prazo inicial de 15 dias. Após a conclusão dos serviços, a interdição também deverá ocorrer no sentido contrário, Porto–Centro.
Para Sirley, a perspectiva de novos bloqueios gera insegurança. “A gente fica preocupada e ansiosa. As contas não param de chegar, os boletos chegam, os impostos têm que pagar. E como é que a gente vai ficar?”, questiona.
Com o trânsito comprometido, clientes têm evitado a região. “Está muito difícil de chegar aqui. Quem quer pegar esse trânsito, ficar uma hora parado e nem conseguir andar? É só gastar combustível”, afirma. Para manter alguma receita, a comerciante diz que tem recorrido a entregas fora da loja. “Consigo fazer algumas vendas porque saio para entregar. Eles não querem vir até aqui.”
Diante do cenário, a mudança se tornou uma alternativa concreta. “Estou pensando em mudar, já estou procurando outro local. Vai ser difícil, mas tenho que pensar nisso”, diz. “Estou aqui há mais de 30 anos, nunca imaginei ter que sair assim.”

Queda de até 90% no faturamento
O drama enfrentado por Sirley é compartilhado por outros empresários da região. Proprietário da empresa de assistência técnica, que atua com manutenção e venda de celulares, Pedro Moraes afirma que o impacto das obras foi ainda mais severo.
“Nosso faturamento caiu cerca de 90%. A gente não tem mais fluxo nem de pedestres, nem de carros passando desse lado da avenida”, relata. Segundo ele, o bloqueio da pista praticamente isolou o comércio local.
Além da falta de clientes, o barulho das máquinas e a poeira dificultam até o atendimento dos poucos consumidores que ainda conseguem chegar ao local. “Mesmo quando aparece algum cliente, fica difícil trabalhar por causa do barulho e da poeira”, afirma.
Pedro também relata frustração com o descumprimento do prazo inicialmente informado para liberação da pista. “Foi dado um prazo até o dia 28 para entregar a obra e liberar a via, mas isso não aconteceu. Agora o governo anunciou que vai precisar de mais tempo, e isso complica ainda mais.”
Apesar do desânimo, ele diz que ainda não cogita fechar as portas. “Dá uma desanimada, não tem como negar. A gente esperava que terminasse naquele prazo, mas infelizmente temos que aguardar. Fechar ou mudar agora não é uma opção, mas o impacto é grande.”
Interdição e problemas estruturais
De acordo com a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), a interdição é necessária para corrigir problemas estruturais no sistema de drenagem da avenida, identificados durante escavações realizadas no contexto das obras do BRT.
Equipes técnicas constataram que tubulações responsáveis por levar a água da chuva até o Córrego da Prainha estavam posicionadas a cerca de 40 centímetros da parede do canal, impedindo o correto escoamento. Com isso, a água acabava sendo despejada no solo, carregando material do aterro e provocando vazios sob a pista, além de comprometer a eficiência da drenagem.



