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ÉTICA DO PODER E A SAÚDE MORAL DA REPÚBLICA

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Uma República não se sustenta apenas por sua Constituição, por seus tribunais ou por seus parlamentos. Sustenta-se, sobretudo, pela integridade moral de quem exerce o poder. Honestidade, competência e probidade não são qualidades desejáveis apenas no plano pessoal, são exigências estruturais da vida pública.

Quando agentes do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário praticam improbidade, desviam recursos, manipulam informações ou desprezam a opinião pública, o dano ultrapassa os limites jurídicos. Não se trata apenas de ilegalidade; trata-se da corrosão da confiança social.

A psicologia social já demonstrou que o comportamento das lideranças influencia o comportamento coletivo. O psicólogo Albert Bandura evidenciou que aprendemos por observação: quando autoridades relativizam regras, a sociedade tende a fazer o mesmo. O exemplo que vem de cima molda a cultura que se consolida embaixo.

Não é coincidência que, diante de sucessivos escândalos, cresça a descrença nas instituições. O sentimento de impunidade alimenta o cinismo. A mentira repetida banaliza a verdade. A corrupção reiterada normaliza o desvio. E, pouco a pouco, instala-se uma perigosa lógica: se o sistema não funciona com justiça, cada um passa a agir por conta própria.

Esse processo tem consequências políticas profundas. O cientista político Robert Putnam demonstrou que a confiança institucional é um dos pilares do capital social. Sem confiança, diminuem a cooperação, o engajamento cívico e a estabilidade democrática. Já Max Weber lembrou que o Estado detém o monopólio legítimo da força, mas, essa legitimidade depende da crença coletiva na legalidade e na moralidade do poder.

Quando essa crença se rompe, abre-se espaço para o individualismo oportunista, para decisões movidas por ressentimento e para discursos extremados. O voto deixa de ser instrumento de escolha racional e passa a ser arma emocional. A política perde racionalidade e ganha radicalização. Aí assistimos o Aumento da sonegação fiscal e a justiça passa ser privada feita segundo o julgamento ou o interesse de cada um.

Não se trata de idealismo moral. A tradição filosófica sempre reconheceu a centralidade da virtude na política. Em A República, Platão já advertia que a justiça da cidade depende da justiça de seus governantes. Aristóteles, na obra Política, ensinou que o Estado existe para promover o bem comum e que regimes se degeneram quando seus líderes governam em benefício próprio. Séculos depois, Montesquieu reforçou, em O Espírito das Leis, que a virtude é o princípio essencial da República.

A história e a teoria convergem: quando o poder abandona a ética, a sociedade paga o preço.

Os desvios financeiros drenam recursos públicos. As mentiras corroem o debate democrático. O desprezo pela opinião pública enfraquece a representação. Mas o custo mais alto é invisível: a perda de confiança. Sem confiança, não há cooperação. Sem cooperação, não há estabilidade. Sem estabilidade, a própria democracia se fragiliza.

A República exige mais do que discursos inflamados ou disputas ideológicas. Exige responsabilidade. Exige preparo técnico. Exige caráter.

Cabe às instituições fortalecer mecanismos de transparência e responsabilização. Cabe à sociedade manter vigilância crítica. E cabe aos agentes públicos compreender que o mandato ou o cargo não é propriedade privada, mas delegação temporária da vontade popular.

A ética no poder não é virtude ornamental. É fundamento estrutural. Quando ela falha, todo o edifício republicano treme.

A escolha é clara: ou preservamos a probidade como princípio inegociável, ou assistiremos à lenta erosão da confiança que sustenta nossa vida democrática. A história mostra que nenhuma República sobrevive por muito tempo quando seus guardiões deixam de honrar a coisa pública.

E uma sociedade que perde a confiança no poder corre o risco de perder também a fé na própria democracia.

João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário

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