DESDE JÁ
Reforma tributária: por que empresários precisam começar a se organizar
Ironei Santana
O Brasil entrou oficialmente, em janeiro de 2026, no período de transição da reforma tributária aprovada pela Emenda Constitucional 132. A mudança é considerada uma das maiores transformações do sistema de impostos nas últimas décadas e seguirá em implantação até 2032.
Parece distante, mas para milhões de empresas brasileiras o momento de se preparar é agora.
Para entender o tamanho dessa mudança, basta olhar os números da economia. O país possui hoje mais de 21,6 milhões de empresas ativas, segundo dados do Mapa de Empresas do Governo Federal. A maior parte delas está no Simples Nacional, regime que concentra cerca de 84% dos negócios formais do país.
Além disso, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), os pequenos negócios, popularmente conhecidos como microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte representam 97% das empresas brasileiras e respondem por cerca de 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
Ou seja, a reforma tributária não é um assunto restrito a grandes corporações ou especialistas em legislação fiscal. Ela impacta diretamente a base da economia brasileira.
Em Mato Grosso, por exemplo, levantamento do Sebrae/MT aponta a existência de mais de 419 mil pequenos negócios, entre microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte. Todas essas empresas, de alguma forma, sentirão os efeitos do novo modelo tributário.
A principal mudança da reforma está na substituição de impostos conhecidos do empresário brasileiro, sendo eles, o PIS, Cofins, ICMS e ISS por dois novos tributos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), compartilhado entre estados e municípios. O modelo segue a lógica do chamado Imposto sobre Valor Agregado (IVA), utilizado em grande parte das economias do mundo.
A promessa é simplificar o sistema. Mas entre a teoria e a prática existe um longo período de adaptação.
Até 2032, o Brasil viverá um modelo híbrido, no qual o sistema atual e o novo modelo de tributação funcionarão ao mesmo tempo. Isso significa que as empresas precisarão lidar com duas lógicas tributárias simultaneamente, exigindo mais organização contábil, planejamento financeiro e atenção às mudanças legais.
É justamente por isso que o planejamento precisa começar agora.
A reforma não muda apenas o nome dos impostos. Ela altera regras de crédito tributário, forma de apuração, estrutura de custos e até a formação de preços das empresas. Dependendo do setor e do modelo de negócio, a carga tributária pode aumentar ou diminuir.
Empresas que trabalham com muitos insumos tributáveis podem se beneficiar do novo sistema de créditos. Já atividades intensivas em mão de obra, especialmente no setor de serviços, podem enfrentar aumento de carga tributária em determinados casos.
Além disso, a reforma pode afetar diretamente o fluxo de caixa das empresas, já que o aproveitamento de créditos tributários e a formade recolhimento dos tributos passam a seguir uma lógica diferente da atual.
Em outras palavras: esperar para entender a reforma apenas quando ela estiver totalmente implantada pode ser tarde demais.
Empresários que começarem agora a analisar regime tributário, cadeia de fornecedores, estrutura de custos e estratégia de preços terão mais tempo para ajustar seus negócios com segurança.
E é nesse cenário que nós contadores assumimosum papel ainda mais estratégico, para construir um projeto que contemple os objetivos da empresa. Podemos colaborar como intérprete nestes processos todos, convertendo a legislação para o dia a dia, buscando e orientando o melhor caminho a seguir e cumprir a legislação em seu tempo real.
A reforma tributária promete simplificar o sistema no longo prazo. Mas, no curto e médio prazo, ela exige conhecimento técnico, maturidade processual, planejamento e tomada de decisão no tempo certo.
Por isso, mais do que nunca, o contador deixa de ser apenas o responsável pelos números e passa a ser um verdadeiro expert de soluções para empresários que precisam atravessar essa nova fase da economia brasileira.
É preciso analisar ao processo no todo, para começar a se organizar agora assim terá tempo para se adaptar.
Quem esperar a mudança bater à porta pode descobrir, tarde demais, que planejamento tributário também é uma estratégia de sobrevivência.
*Ironei Santana é contador há mais de 30 anos, com forte atuação marcada para médias e grandes empresas do Estado. Atualmente, é empresário do segmento, exercendo projetos de contabilidade com ênfase em Regularidade Fiscale Mitigação de Riscos.



