Nasci na cidade verde, lá no bairro do Porto, onde as manhãs nascem ao som dos sabiás e os ipês, apressados em florescer, tingem de cor as tardes quentes entre julho e setembro.
Cuiabá nunca foi apenas um lugar… é uma sensação que se aprende cedo caminhando por calçadas cobertas de pétalas, como quem pisa, sem perceber, em memórias vivas.
Ainda menina, eu olhava aquelas árvores exuberantes e me perguntava como algo tão belo podia durar tão pouco. Hoje entendo: talvez ali a vida já me ensinasse, em silêncio, que a beleza mora no instante. E Cuiabá é feita disso de instantes que não passam, apenas se guardam.
Cresci pertencendo a essa terra quente. Quente não só de sol, mas de alma. Uma terra que acolhe, que envolve, que ensina sem pressa. Na nossa culinária, encontrei identidade sabores que não apenas alimentam, mas contam histórias. O Maria Izabel, firme e marcante; o quibebe de mamão verde; a feijoada cuiabana com osso de corredor; o arroz sem sal, equilibrando tudo como quem entende, com sabedoria antiga, o lugar de cada coisa.
E o rio Cuiabá… ah, o rio. Não é apenas água que corre é memória que permanece. Dele vêm o pintado, o pacu, o dourado, transformados em pratos que aquecem mais que o corpo. A mojica de pintado, por exemplo, não é só comida é encontro, é família reunida, é afeto servido à mesa. Sabores que nascem das águas e carregam o gosto verdadeiro da nossa terra.
E os doces… doces que são quase lembranças materializadas. O furrundú, o pé de moleque, o leite cuiabano, a jacuba simples, nutritiva, ancestral. E havia também os pequenos tesouros da infância: o quebra-queixo e o pixé, vendidos na porta da escola Carmelita Couto, adoçando não só a boca, mas os dias inteiros de uma infância leve e feliz.
E havia ainda um ritual silencioso, quase sagrado, que acontecia nas tardes cuiabanas.
Na casa da minha avó, o tempo desacelerava. Todos os dias, sem exceção, a mesa se tornava altar de afeto. O francisquito, a broinha macia, e o chá de capim-cidreira, exalando um perfume que parecia abraçar a casa inteira.
Era simples mas era tudo.
Era cuidado, era presença, era amor nos gestos mais pequenos. E até hoje, quando o aroma do capim-cidreira me encontra no ar, não é apenas um cheiro… é um chamado. Volto inteira para aquele tempo. Para aquela casa. Para aquela felicidade mansa, que não fazia barulho mas preenchia tudo.
Nas janelas das casas, a moreninha cuiabana se refresca com seu guaraná ralado. Seus cabelos negros, tratados com óleo de mamona, brilham ao vento quente da tarde como uma cena suspensa no tempo, viva na memória de quem sente essa terra.
E há um lugar que pulsa diferente dentro de mim: o bairro do Porto. Ali, cada caminho era descoberta. Eu via o rio de perto, encantada com sua grandeza, enquanto meus pais percorriam a feira, entre cores, cheiros e vozes que formavam a verdadeira sinfonia cuiabana.
Foi ali que conheci o pequi.
Dourado, perfumado, quase como o ouro que deu origem à cidade. Curiosa, mordi aquele fruto cheio de espinhos. Era para doer, para não gostar… mas foi amor. Um amor imediato, teimoso, cuiabano. E até hoje, basta o cheiro do pequi para que tudo volte a menina, os dias simples, a alegria sem medida.
E então chega junho.
E com ele, não vem apenas o mês vem a fé.
As festas de santo se anunciam no levantar do mastro, nas procissões, nos cantos que atravessam o ar e encontram morada no coração.
Porque em Cuiabá, a fé não é apenas rezada… ela é cantada.
As rezas têm melodia. Têm corpo. Têm presença.
E como não se emocionar ao lembrar da festa de São João do Sucuri… onde lavar o santo, ao som do seu hino, não é apenas tradição é continuidade. É um elo vivo entre gerações.
Ah… se São João soubesse. Desceria do céu, só para ver a alegria do seu povo.
E foi ali, naquele chão simples e sagrado, que um dos momentos mais profundos da minha vida aconteceu.
Nas festas de santo, antigamente, a missa reunia toda a comunidade. Famílias levavam seus filhos pequenos para serem batizados. E eu fui uma dessas crianças.
Fui batizada pelas mãos do Frei Quirino, em meio às rezas cantadas, cercada pela fé do meu povo.
Não foi apenas um batismo.
Foi pertencimento.
Foi raiz.
Foi o início consciente de algo que eu já carregava na alma: ser cuiabana.
E nas festas… havia também os sabores da tradição.
A cerveja era rara. O que reinava eram os licores doces, aromáticos, preparados pelas mãos das mães cuiabanas. Cada gole carregava cuidado, história, carinho.
E a comida… farta, forte, verdadeira. Carne com banana verde, cabeça de boi assada, revirado cuiabano pratos que não apenas alimentavam, mas uniam. Reuniam. Fortaleciam.
A fé também dançava.
Na festa de São Benedito, no Senhor Divino, em São Gonçalo onde os passos marcados contam histórias antigas e a devoção ganha movimento. Em Cuiabá, até a fé tem ritmo.
Do bairro Popular, guardo a liberdade da infância: risos soltos, bicicletas correndo, dias que pareciam não ter fim.
Porque falar de Cuiabá é falar de gente. De raiz. De permanência.
O ouro que um dia trouxe tantos até aqui ainda existe não mais no chão, mas no coração de quem carrega esse orgulho.
Ser cuiabano é isso.
É saber de onde veio.
É preservar o sabor.
É honrar o passado sem deixar de caminhar.
Agora, aos 307 anos, Cuiabá cresce, se transforma, se reinventa.
Mas que nunca perca o essencial.
Que nunca perca sua alma.
Essa mistura única de calor humano, tradição, memória e fé cantada.
E eu, com o coração cheio e a alma profundamente enraizada nessa terra, só posso dizer do jeito mais verdadeiro que existe:
Tchá por Deus… eu gosto demais de ser cuiabana.
Kaene Almeida é cuiabana, gastróloga, nascida e criada no berço cultural da gastronomia cuiabana


