ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO
Cuiabá aos 307 anos: calor extremo marca rotina e já levou cidade a registrar quase 45°C
Nickolly Vilela
Conhecida pelas altas temperaturas, Cuiabá tem no calor uma das características mais marcantes de sua identidade. Aos 307 anos, a capital mato-grossense mantém uma relação direta entre o clima e o modo de vida da população, com impactos que vão da arquitetura à rotina diária.
Dados do Instituto Nacional de Meteorologia mostram que a cidade está entre as capitais mais quentes do país. Em 2020, Cuiabá registrou 44,2°C, uma das maiores temperaturas já medidas na história da capital, durante uma forte onda de calor. Em anos recentes, não são raros os dias em que os termômetros ultrapassam os 40°C, especialmente no período de seca.
A combinação de calor intenso e baixa umidade do ar, comum entre julho e setembro, reforça a sensação térmica elevada e altera o ritmo da cidade. Na prática, o clima molda comportamentos: horários de trabalho e atividades ao ar livre são ajustados para evitar os períodos mais quentes do dia, enquanto o início da manhã e o fim da tarde concentram maior circulação de pessoas.
A influência também aparece na forma de construir. Casas antigas, principalmente no centro histórico, foram projetadas com pé-direito alto, janelas amplas e áreas sombreadas, soluções arquitetônicas pensadas para amenizar o calor antes da popularização do ar-condicionado.
Para quem vive na cidade, o impacto é direto. O comerciante João Batista, de 52 anos, afirma que o movimento cai nas horas mais quentes. “Depois das dez da manhã, diminui muito. O pessoal evita sair nesse horário. Só volta a movimentar mais no fim do dia”, relata.
Além do cotidiano, o clima se reflete em hábitos culturais, como o consumo de bebidas geladas, alimentação mais leve e a busca por ambientes com sombra e ventilação. Em uma cidade onde o calor é constante, adaptar-se faz parte da rotina.
Apesar dos desafios, moradores apontam que o clima também faz parte da identidade local. “Quem é de Cuiabá já está acostumado. A gente aprende a conviver”, diz a aposentada Maria Lúcia, de 68 anos.
No centro da capital, o calor também influencia diretamente os hábitos de consumo. Em dias de temperatura elevada, barracas de rua se tornam ponto de parada para quem busca refresco rápido durante a rotina.
A vendedora Ana Paula Santos, de 39 anos, que trabalha com bebidas próximo ao centro, afirma que a procura por opções geladas aumenta significativamente. “Água de coco é o mais pedido. Tem dia que a gente nem dá conta, principalmente na parte da tarde”, conta. Segundo ela, o calor constante faz com que os clientes busquem alternativas mais leves e naturais para se hidratar.
Além dos impactos na rotina, o calor extremo também acende um alerta para a saúde da pele. Especialistas apontam que a exposição frequente e prolongada ao sol pode causar danos cumulativos ao longo dos anos, aumentando o risco de doenças.
O oncologista Rafael Sodré explica que a radiação solar está diretamente ligada ao desenvolvimento do câncer de pele e reforça a importância da prevenção. “A exposição excessiva ao sol é um dos principais fatores de risco para desenvolver a doença”, afirma. Segundo ele, o ideal é evitar o sol nos horários mais críticos, entre 10h e 16h, quando a radiação ultravioleta é mais intensa.
Aos 307 anos, Cuiabá mantém no calor um dos elementos mais constantes do cotidiano, com impactos que atravessam a rotina, o consumo e os cuidados com a saúde da população.


