A saúde mental masculina começa na infância: por que ensinamos meninos a sofrer em silêncio?
Christiane Indaiá
O texto desta semana trata de um assunto muito delicado, portanto, faço um alerta sobre a possibilidade de gatilhos emocionais. O tema central é o suicídio entre homens.
Não escrevi para chocar, mas, quando o assunto é saúde mental, muitas vezes só enxergamos os números e esquecemos as pessoas que existem por trás deles.
Imagine seu menino. Aquele garoto adorável, querido e amado levantou-se da cama, sentou-se à mesa, escreveu uma carta, abriu a janela e saltou para o alívio de todas as suas dores.
Aos 16 anos, ele, logo ele, tão educado, tão promissor, tão brilhante…
Pense em seu pai. Tão festivo, admirado, presente… encontrado sem vida no jardim de casa.
Sabe aquele colega de trabalho genial? Mas sempre tão irritado, tão incontrolável, tão difícil… engolido por suas angústias num penhasco à beira da estrada.
A saúde mental masculina não começa no consultório, dizem os especialistas. Ela começa na forma como criamos os garotos.
Começa quando permitimos que eles chorem sem humilhação, quando ensinamos que pedir ajuda não diminui ninguém, quando mostramos que coragem não é ausência de vulnerabilidade.
Pense nos seus ídolos:
Kurt Cobain: vocalista e guitarrista do Nirvana, matou-se em 1994, aos 27 anos.
Robin Williams: aclamado ator e comediante americano, tirou a própria vida em 2014, aos 63 anos.
Vincent van Gogh: o célebre pintor holandês cometeu suicídio em 1890.
Chester Bennington e Chris Cornell: vocalistas das bandas Linkin Park e Soundgarden, faleceram, respectivamente, em 2017.
Flávio Migliaccio: conhecido ator e diretor brasileiro, enforcou-se em 2020, aos 85 anos.
Avicii: famoso DJ e produtor musical sueco, morreu em 2018.
Essas histórias são a dura realidade para muitas famílias. Infelizmente, os homens lideram uma triste estatística no Brasil: o número de suicídios.
As informações são do Ministério da Saúde, que também aponta que eles procuram menos os serviços de saúde e costumam buscar ajuda apenas quando o sofrimento já atingiu níveis mais graves.
No Brasil, a taxa de mortalidade por suicídio entre homens gira em torno de 10,7 óbitos a cada 100 mil habitantes, uma proporção cerca de 3,5 a 4 vezes maior do que a registrada entre as mulheres. Quase 8 em cada 10 mortes por suicídio no país ocorrem no sexo masculino.
Os casos incidem fortemente entre a população economicamente ativa (de 20 a 59 anos), concentrando cerca de 60% dos registros. Contudo, os coeficientes mais altos são observados em homens idosos (80 anos ou mais).
Junho é o mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental masculina.
As campanhas costumam falar sobre depressão, ansiedade e suicídio. Todas são discussões necessárias, mas em que momento ensinamos tantos homens a acreditar que sentir é sinal de frouxidão?
“Precisamos questionar a ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Reconhecer limites e buscar apoio são atitudes de responsabilidade consigo mesmo. A vulnerabilidade não é o contrário da força. Muitas vezes, ela é a maior demonstração de coragem que alguém pode ter”, afirma Adriana Meneses, psicóloga, pesquisadora e especialista em Saúde Mental do Trabalhador.
É comum ouvirmos que os homens falam pouco sobre seus sentimentos. Que resistem à terapia, que demoram para procurar ajuda e que escondem o sofrimento.
A maioria dos homens não nasceu emocionalmente fechada. Foi educada para se tornar assim.
Desde a infância, muitos meninos recebem mensagens explícitas e implícitas sobre quais emoções podem demonstrar ou não. Medo é fraqueza, tristeza é fragilidade, choro é vergonha e vulnerabilidade é coisa de mulher.
Como mãe de dois meninos e professora de tantos outros, testemunho o que a criação pode causar de bom e de mau nas emoções deles.
Enquanto as meninas costumam receber permissão para falar sobre suas dores, muitos meninos aprendem a silenciá-las. O psicanalista Fernando Segredo reforça que o problema é que “emoções ignoradas não desaparecem, elas encontram outras formas de se manifestar”.
A tristeza pode surgir como irritação, a insegurança pode aparecer como agressividade, o medo pode vestir a roupa do controle e a solidão pode se transformar em isolamento.
A dor emocional pode virar adoecimento.
Ainda segundo a psicóloga Adriana Meneses, muitos homens conseguem falar sobre trabalho, responsabilidades e problemas práticos, mas encontram enorme dificuldade para falar sobre medo, tristeza, insegurança ou sofrimento emocional.
Quando tratamos emoções como características humanas, e não como atributos de gênero, criamos meninos emocionalmente alfabetizados e capazes de nomear o que sentem.
Homens capazes de pedir ajuda quando precisam, pais capazes de acolher suas próprias dores e parceiros capazes de dialogar sobre suas fragilidades.
A saúde mental masculina não depende apenas do que acontece com os homens; depende também do que ensinamos a eles sobre o que fazer com aquilo que sentem desde pequenos.
Fontes:
Ministério da Saúde
Assembleia Espírito Santo
Infonet
Nexo Jornal
Christiane Indaiá
Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas


