EMBATE
Jayme acusa condução equivocada e Mauro rebate com recado a Júlio: “Muito me estranha”
Patrícia Neves e Renato Ferreira
A dissidência no União Brasil torna-se cada vez mais evidente durante a convenção estadual realizada nesta quinta-feira (30), em Cuiabá. Depois de Mauro Mendes rejeitar imediatamente um pedido de impugnação apresentado pelo deputado estadual Júlio Campos, o senador Jayme Campos entrou no embate, questionou a condução da mesa e defendeu que os próprios convencionais decidissem sobre a contestação.
A discussão ocorreu pouco depois da abertura da votação secreta que definirá se o partido lançará Jayme como candidato ao Governo de Mato Grosso ou apoiará a reeleição do governador Otaviano Pivetta, do Republicanos. Mauro é o principal defensor da aliança com Pivetta, enquanto o grupo dos irmãos Campos tenta garantir a candidatura própria.
Júlio pediu a impugnação da cédula sob o argumento de que não poderia ser incluída uma proposta diferente das duas registradas dentro do prazo. Mauro negou que houvesse uma terceira alternativa, classificou a questão de ordem como “inócua” e a rejeitou de plano.
Diante da decisão, Jayme cobrou que a manifestação do irmão fosse submetida ao plenário. O senador afirmou que essa seria a única forma de garantir uma convenção efetivamente democrática e transparente.
“O ideal, democraticamente, seria que a plenária, os nossos convencionais e delegados, votassem. Feito isso, nós estaríamos mostrando que esta convenção, de fato, seria republicana, democrática, mas, acima de tudo, feita com a maior transparência possível. Assim funciona a democracia”, afirmou.
Jayme disse respeitar a interpretação adotada por Mauro, mas sustentou que a divergência não deveria ser encerrada apenas por decisão do presidente da convenção.
“Vossa Excelência interpretou dessa forma, é um direito do senhor. Mas um questionamento muito bem fundamentado, apresentado pelo deputado Júlio Campos, deveria ser colocado em votação pelo plenário, com os nossos delegados e convencionais”, declarou.
O senador também pediu que sua manifestação fosse registrada integralmente em ata e lançou dúvidas sobre a condução interna da convenção.
“Aí, sim, nós estaríamos fazendo uma convenção transparente, republicana e, acima de tudo, justa. Gostaria que o secretário-geral do partido fizesse constar em ata esta minha manifestação”, disse.
Mauro rebateu o senador e afirmou que o estatuto partidário estabelece a votação secreta quando existem propostas divergentes para os cargos majoritários. Segundo ele, cabe à presidência da convenção interpretar situações não previstas expressamente nas normas internas.
“O estatuto prevê claramente que a votação é feita por chapas e, havendo divergência, todas as votações são secretas. Cabe à presidência da convenção fazer interpretações de fatos não previstos no estatuto e até mesmo no regimento”, afirmou.
Mauro disse respeitar o posicionamento jurídico apresentado por Júlio, mas ressaltou que segue a orientação da assessoria jurídica da direção nacional do União Brasil.
“Respeito a leitura de um posicionamento jurídico feito pelo convencional Júlio Campos, na posição de advogado. Existem dezenas de interpretações divergentes. Eu sigo aquilo que está no estatuto e a orientação do jurídico da direção nacional do nosso partido”, declarou.
Na sequência, Mauro afirmou ter estranhado o questionamento, alegando que as regras da convenção haviam sido discutidas no dia anterior.
“Me estranha, senhor, porque ontem nós sentamos, dialogamos e acordamos tudo isso, e o senhor traz uma questão nova aqui hoje. Não tem problema. Isso será registrado na ata e poderá ter questionamentos e desdobramentos futuros”, disse.
O presidente do partido também afirmou estar seguro de que o processo respeita as regras eleitorais e partidárias.
“Estou absolutamente seguro e procurei fazer isso o tempo todo de forma transparente, consultando a nacional, para que a decisão emanada aqui hoje, livre e democraticamente pelos convencionais, represente o desejo de cada um e depois de todos”, afirmou.
Mauro manteve a rejeição ao pedido de impugnação e determinou o prosseguimento da votação.
“Eu mantenho a questão de que está aberta a votação. Não existe no estatuto do partido nenhum procedimento que diga que, para se manifestar um desejo na convenção, tenha que existir uma formalização de outro partido. Quem tem legitimidade para propor algo aqui dentro são os filiados”, disse.
Segundo Mauro, dois filiados apresentaram propostas divergentes, que passaram a ser submetidas ao voto secreto dos convencionais.
“Se aquilo que os advogados estão alegando existir na lei brasileira ou no estatuto do partido, isso poderá tornar a decisão absolutamente nula. Entretanto, estou muito seguro de que o jurídico nacional e o jurídico daqui garantem que isso não tem base no estatuto ou na legislação”, declarou.
Jayme voltou a falar e questionou quem havia recebido e protocolado a proposta de coligação com o Republicanos. Ele afirmou que, caso o documento tivesse sido apresentado dentro do prazo, o ponto estaria esclarecido.
“Se houve entendimento e foi protocolado dentro dos prazos regimentais, três dias antes, essa questão de ordem está resolvida”, afirmou.
Apesar disso, o senador voltou a demonstrar preocupação com a condução dos trabalhos e defendeu que a vontade dos convencionais fosse soberana.
“Vamos ser práticos. A coisa não caminhou certa aqui nesta convenção. Para mim, o que vai mandar é o voto dos senhores convencionais, seja do diretório, seja delegado do partido. Isso é supremo, é a vontade de cada companheiro e de cada companheira votar naquilo que achar o melhor caminho para o partido”, concluiu.



