FORTE INFLUÊNCIA
Investigado por movimentações milionárias, ex-diretor do Imafir acumula passagens pelo poder público
Muvuca Popular
O engenheiro agrônomo Afrânio Cesar Migliari, alvo da Operação Mandato Espúrio nesta terça-feira (25), acumula uma longa trajetória em cargos públicos e entidades ligadas ao agronegócio de Mato Grosso. Ex-diretor executivo do Instituto Mato-Grossense de Feijão, Pulses, Colheitas Especiais e Irrigação (Imafir-MT), ele já comandou áreas estratégicas da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), foi secretário municipal em Sorriso e, em 2010, esteve entre os investigados da Operação Jurupari, da Polícia Federal.
Agora, Afrânio voltou ao centro de uma investigação policial. A Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf) de Cuiabá apura movimentações superiores a R$ 1 milhão nas contas do Imafir-MT. Segundo a investigação, quase R$ 774 mil teriam sido transferidos para uma conta pessoal e para uma empresa pertencente ao então diretor executivo da entidade. Outros R$ 270 mil teriam sido destinados a um escritório de advocacia.
Afrânio é investigado ao lado do ex-presidente do instituto e suplente de deputado estadual Hugo Henrique Garcia (PSDB). A Polícia Civil apura, em tese, crimes de furto qualificado, estelionato e falsidade ideológica. Contra os investigados foram cumpridos mandados de busca e apreensão, além de medidas que bloquearam contas e suspenderam acessos às contas bancárias do Imafir.
A suspeita é de que as movimentações tenham ocorrido em meio a uma disputa pelo comando do instituto. Conforme a apuração policial, havia acordo homologado e decisão judicial limitando atos de gestão, mas, ainda assim, teriam ocorrido transferências consideradas irregulares pelos investigadores. O Imafir aparece como vítima no inquérito e colabora com a investigação.
Passagem pela Sema
A trajetória de Afrânio no poder público remonta a pelo menos os anos 2000. Documentos do Diário Oficial mostram que ele exerceu o cargo de secretário-adjunto de Mudanças Climáticas da Secretaria de Estado de Meio Ambiente. Na função, assinou termos e documentos ambientais em nome do Governo de Mato Grosso.
Ele também passou pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Rural (Seder) e ocupou a função de secretário-adjunto de Gestão Florestal da Sema.
Anos depois, Migliari seguiu a carreira pública em Sorriso. Em 2015, documentos oficiais o identificavam como secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente. Naquele período, assinou, inclusive, solicitação para contratação de empresa especializada na elaboração de projeto funcional para um parque tecnológico do município.
Registros da Agência Nacional de Águas também apontam Afrânio como secretário municipal de Meio Ambiente de Sorriso naquele ano.
Operação Jurupari
Foi durante a passagem pela área ambiental do Governo de Mato Grosso que Afrânio teve o nome envolvido em uma das maiores operações ambientais realizadas pela Polícia Federal no Estado.
Em 2010, Afrânio Cesar Migliari foi um dos investigados na Operação Jurupari, deflagrada pela Polícia Federal para apurar suspeitas de fraudes em projetos de manejo florestal e crimes ambientais em Mato Grosso. Na ocasião, ele teve a prisão preventiva decretada junto com outros investigados.
Afrânio havia deixado a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) no fim de 2009, meses antes da operação. Posteriormente, a Polícia Federal concluiu parte das investigações e indiciou diversos envolvidos.
As acusações deram origem a diferentes processos judiciais, que tiveram desfechos distintos ao longo dos anos, incluindo absolvições e reconhecimento de prescrição em relação a alguns crimes.
Em uma das ações, a Justiça Federal absolveu Afrânio, em 2018, das acusações relacionadas a associação criminosa, estelionato e crimes ambientais por falta de prova da existência dos fatos. Outros delitos tiveram a pretensão punitiva extinta pela prescrição.
Em outro desdobramento da Jurupari II, a Justiça de Mato Grosso voltou a absolvê-lo em julho de 2025 das acusações de corrupção. Crimes de associação criminosa e receptação qualificada foram alcançados pela prescrição.
Há ainda outro processo originado da operação que chegou à Justiça Estadual. Em dezembro de 2025, a Vara Especializada do Meio Ambiente anulou interceptações telefônicas e atos processuais derivados delas por entender que as escutas haviam sido autorizadas por juízo incompetente.
Influência no agronegócio
Mesmo depois dos episódios envolvendo a Jurupari, Afrânio permaneceu com forte atuação institucional no setor agrícola.
Ele se consolidou principalmente nas discussões sobre irrigação, produção de feijão e pulses. Em 2022, apareceu como representante da Associação dos Produtores de Feijão, Pulses, Grãos Especiais e Irrigantes de Mato Grosso (Aprofir-MT) em estrutura ligada ao Plano ABC+ de Mato Grosso.
Em 2023, já como diretor executivo da Aprofir e do Imafir, participou de reuniões com a presidência da Assembleia Legislativa para discutir projetos de agricultura irrigada, incentivos e expansão de atividades agrícolas no Estado.
A atuação chegou também ao Governo Federal. Afrânio preside a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Feijão e Pulses do Ministério da Agricultura e Pecuária. Em janeiro de 2025, foi ainda designado pelo ministério para presidir a Câmara Temática de Agricultura Sustentável e Irrigação.
Em março deste ano, ele também foi designado como representante titular da Aprofir na Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Amendoim, vinculada ao Conselho Nacional de Política Agrícola.
Uma publicação técnica de 2025 o apresenta ainda como presidente executivo da Associação Brasileira da Produção Sustentável, diretor de relações institucionais da Aprofir-MT e presidente do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem.



