PREFEITO DIZ QUE TEM O PODER DA CANETA
Abilio minimiza atuação de vereadora e ouve que é “narcisista”
Patrícia Neves
O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), e a vereadora Katiuscia Manteli (Podemos) trocaram acusações públicas em meio à disputa pelo protagonismo na busca de uma solução para os bairros Silvanópolis e Paraisópolis. Após Abilio afirmar que a parlamentar tenta aparecer em ano eleitoral, Katiuscia reagiu na tribuna da Câmara Municipal, nesta terça-feira (25), e o chamou de “narcisista”.
O embate envolve uma área de aproximadamente 72 hectares, ocupada por cerca de 1.800 famílias que convivem há anos com insegurança jurídica. Parte dos moradores passou a enfrentar uma decisão judicial de desocupação por questões ambientais, enquanto os poderes públicos discutem medidas para conciliar o direito à moradia com a preservação de nascentes e cursos d’água.
Em vídeo apresentado por Katiuscia durante sessão da Câmara, Abilio afirmou que somente a Prefeitura possui poder para solucionar o impasse. O prefeito também minimizou a participação da vereadora e de outros agentes políticos nas articulações.
“Não foi Katiuscia, não foi nenhuma outra pessoa, não foi deputado nenhum. Eu fui lá e fui eu que resolvi. A única pessoa que tem o poder para resolver essa situação é a Prefeitura Municipal de Cuiabá. Sem a Prefeitura, não tem nenhuma solução para esse local”, declarou.
Abilio ainda relacionou a movimentação da parlamentar à disputa eleitoral deste ano. Katiuscia é candidata e integra o grupo político do presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi, que também participa das articulações em defesa das famílias.
“A Katiuscia agora é candidata e o pessoal do grupo dela também tem um candidato. Então, ficam fazendo isso para tentar destruir reputação. Ano eleitoral sempre tem alguém que quer aparecer e gravar vídeo. Ela pode gravar o que quiser”, disse o prefeito.
A resposta veio. Na tribuna, Katiuscia ironizou a postura de Abilio e afirmou que o prefeito tenta concentrar em si todos os méritos pelo encaminhamento dado ao caso. “Quando Deus criou o mundo, deu uma procuração para o prefeito Abilio, o todo-poderoso”, disparou.
Na sequência, a vereadora classificou o comportamento do prefeito como “narcisista e machista”. “Uma postura narcisista e machista do prefeito Abilio. O narcisista é uma pessoa que demonstra um padrão excessivo de grandeza e uma grande falta de empatia pelos outros”, afirmou.
Katiuscia também rebateu a declaração de que não teria participação relevante no processo. Segundo ela, o fato de o prefeito ter gravado um vídeo dirigido especificamente à sua atuação demonstra o contrário.
“Dizer que eu não faço diferença nenhuma é o que incomoda o senhor, porque o senhor sabe que eu faço diferença. Se eu não fizesse, o senhor nem gastaria seu tempo gravando um vídeo direcionado a mim”, declarou.
A vereadora citou projetos sociais desenvolvidos nas duas comunidades e acusou Abilio de não compreender as dificuldades enfrentadas pelos moradores, apesar de conhecer a situação administrativa da capital.
Katiuscia contestou a versão de que a solução teria sido apresentada exclusivamente pela Prefeitura. Conforme a vereadora, a audiência pública que antecedeu a reunião institucional foi convocada por ela, com aprovação da Câmara, e pelo presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi.
A parlamentar afirmou ainda que a proposta de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e o pedido de suspensão do cumprimento da sentença partiram do Ministério Público Estadual.
“Quem deu a solução foi o Ministério Público de Mato Grosso. Quem propôs o TAC foi o Ministério Público. Quem pediu a suspensão da execução da sentença foi o Ministério Público, e o senhor não assinou”, acusou Katiuscia.
A vereadora também questionou por que Abilio evitou citar nominalmente Max Russi ao mencionar o candidato apoiado pelo grupo político dela.
“Por que o senhor não fala o nome do deputado Max Russi? O senhor tem medo de falar o nome dele?”, provocou.
Ao final do discurso, Katiuscia afirmou que abriria mão dos votos que poderia receber nas duas comunidades caso a disputa eleitoral estivesse impedindo o prefeito de formalizar uma solução.
Impasse:
A ação judicial envolvendo a área tramita desde 2013. O processo discute a ocupação de uma região considerada ambientalmente sensível e estratégica para a proteção de nascentes e cursos d’água de Cuiabá.
Uma reunião realizada em junho deste ano reuniu o governador Otaviano Pivetta (Republicanos), Abilio, Max Russi, e os vereadores Katiuscia Manteli, Marcrean Santos e Sargento Joelson. Também participaram representantes do Ministério Público, Defensoria Pública, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Águas Cuiabá e moradores.
Na ocasião, o Ministério Público indicou que a intenção não seria promover a retirada indiscriminada das famílias, mas identificar quais áreas podem ser regularizadas e quais precisam ser recuperadas ou preservadas.
Na ocasião, Pivetta sugeriu que a área seja transferida ao município, com o compromisso de o Estado participar dos investimentos em infraestrutura, dos estudos técnicos e do atendimento às famílias que precisem ser retiradas de locais de risco.
Ao final da reunião, ficou prevista a elaboração de um Termo de Compromisso entre Estado, Prefeitura, Assembleia Legislativa, Câmara Municipal, Ministério Público, Defensoria e demais instituições.



