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Envelhecer com o próprio rosto

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Uma mulher me diz que quer envelhecer naturalmente. Antes que eu pergunte o que isso significa para ela, vem a explicação: não quer ficar com “cara de procedimento”. Conheço o receio. Basta olhar ao redor para entender de onde ele vem. Mas também percebo como essa frase, tão comum no consultório, pode esconder uma escolha que ela ainda não sabia que podia fazer: cuidar do envelhecimento sem tentar trocar de rosto.

Durante muito tempo, as mulheres ouviram que precisavam esconder a idade. Agora, ouvem que devem aceitá-la com serenidade. A cobrança mudou de roupa. Continua sendo uma cobrança. Parece que só existem duas opções: intervir até não se reconhecer no espelho ou deixar de fazer qualquer tratamento para provar que se envelhece bem. Eu não acredito que a vida caiba nessa escolha.

Há quem não queira fazer procedimento algum, e essa decisão merece respeito. Há também quem queira tratar a pele, suavizar algo que a incomoda ou cuidar de mudanças que chegam com o tempo. Uma decisão não torna a outra mais livre, mais corajosa ou mais correta. O que me interessa, como médica, é saber se a pessoa está escolhendo por si.

Por isso, não começo uma consulta contando rugas. Quero ouvir o que aquela mulher vê quando se olha, o que a incomoda de fato e o que ela teme perder. Às vezes, seu maior medo não é envelhecer. É sair de um tratamento e não encontrar mais a própria expressão.

A beleza natural de que falo pode incluir procedimentos. Naturalidade não se mede pela quantidade de tratamentos feitos, mas pelo cuidado com que cada um é indicado. É preciso avaliar a pele, entender o objetivo, conversar sobre os limites e os riscos. Algumas vezes, um procedimento faz sentido. Em outras, a melhor decisão é esperar, escolher outro caminho ou não fazer nada.

Gosto quando alguém encontra uma pessoa que acompanho e diz apenas: “Você está bem”. Não porque o tratamento tenha sido escondido, mas porque ela continua parecendo ela mesma. Seu rosto ainda se move, ainda conta sua história. Nenhuma técnica deveria valer mais do que isso.

Envelhecer é uma experiência íntima. Não quero transformá-la em uma corrida contra o tempo, nem exigir que uma mulher abra mão de recursos que deseja usar. Quero que ela possa decidir o que fazer com o próprio rosto sem precisar pedir desculpas por essa decisão.

Cíntia Procópio é dermatologista, especialista em rejuvenescimento com naturalidade

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