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Silêncio cúmplice dos decentes – a história de Kamtsa e Bar Kamtsa

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Um dos povos por que tenho grande apreço, apesar de pouco conhecê-los, é o povo judeu. Esses indivíduos carregam uma história repleta de situações desafiadoras enfrentadas com muita resiliência e profundas reflexões. Recentemente ouvi, por um rabino, uma história a respeito da segunda diáspora do povo judeu, a destruição do templo e como o ódio gratuito e a intolerância podem gerar a destruição de um povo. O conto fala sobre duas pessoas: Kamtsa e Bar Kamtsa.

Em resumo, havia um homem que tinha um amigo chamado Kamtsa e um inimigo chamado Bar Kamtsa. Um dia, ele deu uma festa e pediu que seu servo convidasse seu amigo Kamtsa. Porém, ele foi e trouxe, por engano, seu inimigo Bar Kamtsa. O anfitrião, ao avistar Bar Kamtsa, logo questiona o que seu inimigo estava fazendo ali e solicita que este vá embora. Bar Kamtsa então argumenta que, como já estava ali na festa, pede que o deixem ficar. Chega a oferecer pagar suas despesas, o que é negado, e mais adiante oferece até mesmo pagar por toda a festa – e mesmo assim o anfitrião recusa e o expulsa. Por fim, Bar Kamtsa diz para si mesmo: “Como os sábios estavam sentados aqui, e eles não o repreenderam, isso indica que concordam. Eu me vingarei e os difamarei perante as autoridades.” Assim, ele armou uma situação com um imperador romano que causou uma grande discórdia e o conflito entre os romanos e judeus.

Na interpretação desse conto, surge a pergunta: de quem é a culpa pelo conflito ocorrido? Do servo que se equivocou ao confundir nomes? Do anfitrião que se recusa a aceitar a proposta? Do Bar Kamtsa que insiste em buscar vingança via imperador? Do imperador romano? Ou dos sábios ali presentes? Então surge a beleza do conto: precisamos separar culpa de responsabilidade. Se analisarmos somente culpa, encontraremos argumentos tanto para culpar uns quanto outros. Porém, somente quando buscarmos a responsabilidade, vamos mais profundo na busca da solução. Segundo as interpretações dos rabinos, a culpa, nesse episódio, é do silêncio e da passividade dos lúcidos. Cada um tem sua parte na responsabilidade. A causa da destruição é daqueles que se omitiram e não assumiram sua responsabilidade de tratar a questão a contento. A passividade e a indiferença dos demais convidados levaram à destruição – o fato de não quererem fazer nada, de não quererem se indispor com nenhuma das partes. Como diria Martin Luther King, “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. É sob o silêncio cúmplice dos decentes que alguns dos maiores crimes ocorreram.

Hoje, no Brasil, temos desavenças muito piores do que a de Bar Kamtsa e o anfitrião. Vemos um ambiente repleto de ódio gratuito e intolerância. Conflitos entre visões políticas antagônicas, pouca vontade de avançar em soluções e a cultura do cancelamento. Até mesmo boas soluções são questionadas simplesmente por virem de uma pessoa de posição antagônica. A consequência é uma grave deterioração do ambiente de debate, no caso a política, do nosso Estado de direito, da segurança jurídica e, ainda pior, da nossa liberdade. Muitos lutando por segurança abrindo mão da liberdade mal sabem que o efeito é ainda mais nefasto. Como disse Benjamim Franklin, “Qualquer sociedade que renuncie a um pouco da sua liberdade para ter um pouco mais de segurança não merece nem uma, nem outra, e acabará por perder ambas.”

E fica a pergunta: De quem é a culpa? Do eleitor que seleciona incorretamente seus representantes? Do governador? Do presidente? Das nossas autoridades políticas? Das autoridades judiciais? Não. Encontrar culpados não resolverá. Precisamos de pessoas que estejam dispostas a se responsabilizar pelo que lutam. Homens e mulheres que estejam dispostos a iluminar a escuridão por meio de debate de ideias, que não se calem gerando o silêncio cúmplice dos decentes. Pessoas que assumam a responsabilidade e façam a mudança acontecer. Pessoas que lutem pelo livre mercado, pelo Estado de direito e principalmente pela liberdade dos indivíduos. Como diz o economista Milton Friedman, “a pessoa livre não perguntará nem o que o país pode fazer por ela nem o que ela pode fazer pelo país. Indagará, isto sim, ‘o que eu e meus compatriotas podemos fazer para realizar nossas tarefas pessoais, para alcançar nossos vários objetivos e propósitos, e, acima de tudo, para proteger nossa liberdade?’”.

Que sejamos indivíduos resilientes, profundos em reflexão – e mais: que tenhamos uma jornada de eterna vigilância da liberdade. Nunca duvide de que um pequeno grupo de pessoas conscientes e engajadas possa mudar o mundo. De fato, foi sempre assim que o mundo mudou.

 

Alberto Souza Vieira é Associado do Instituto Líderes do Amanhã

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