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Ai de ti, Supremo! Como vi a manifestação de 25 de fevereiro

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(Paulo Polzonoff Jr., publicado no jornal Gazeta do Povo em 25 de fevereiro de 2024)

 

Ai de ti, Supremo. Quando vi que os doutos ministros do STF estavam usando a imprensa para ameaçar o ex-presidente Jair Bolsonaro de prisão caso ele dissesse “um ai” sobre aquela corte pérfida, não tive dúvidas quanto ao título deste texto. Ai de ti, serpentário! Ai de vós, ministros, que tão explicitamente cederam à tentação de serem como deuses! Ai de… Mas calma que as imagens da manifestação na avenida Paulista começaram a chegar.

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Até aqui (14 horas do domingo, 25 de fevereiro de 2024) parece que todos obedeceram ao melancólico pedido de Bolsonaro para que os manifestantes não levantassem cartazes expondo a óbvia repulsa pela ditadura que se instalou no Brasil. Melancólico, sim. Afinal, que democracia é essa em que você não pode dizer um “ai” contra a corja que, a pretexto de nos governar, nos explora, nos oprime, nos controla?

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Por falar nisso, um registro que não pode faltar. O jornalista português Sérgio Tavares, que veio ao Brasil cobrir a manifestação, foi detido pela Polícia Federal, que o manteve sob custódia até que ele respondesse a perguntas sobre… urnas eletrônicas, fraude eleitoral e vacinas. Em nota, a Stasi tupiniquim confessou que “o estrangeiro foi indagado sobre comentários que fez sobre a democracia no Brasil”. E daí deram uma desculpa qualquer sobre a necessidade de visto.

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Às 14h40 Bolsonaro chegou à avenida Paulista. E, quer saber? Pode me chamar de tolo e ingênuo, porque provavelmente sou mesmo e não quero deixar de ser. Mas há algo de comovente e até admirável nessa multidão que acredita, ainda acredita, insiste em acreditar em algo que eu, em todo o meu inevitável cinismo jornalístico, não compreendo. Mas admiro. E me comovo.

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Enquanto passo vergonha aqui, há alguma confusão lá. Aparentemente tem gente demais querendo subir no trio elétrico. “Só entra quem tem pulseira verde”, avisa o locutor. Me ocorre lembrar de todas as vezes em que ouvi dizerem que Bolsonaro estava politicamente morto. De novo o papinho cínico de jornalista. Que seduz e envenena. Afinal, quem quer bancar o tolo e ingênuo? Quem quer passar vergonha andando por aí com as esperanças à mostra?

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Há algo de belo aí. Não sei direito o quê. Não são as cores, por certo. A fé, apesar de os alto-falantes nos gritarem para perdermos a fé? A lealdade, apesar dos xingamentos de “gado”? Ou seria apenas a crença inabalável no poder de união das pessoas para se alcançar o bem-comum intangível da liberdade? Ah, Paulo, deixa de elucubração que, pontualmente às 15 horas, o locutor anuncia Bolsonaro.

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Toca uma insuportável música que eu, em minha infinita ignorância musical, vou chamar apenas de tuntitum. De qualquer modo, insuportável. Michele Bolsonaro vai falar. Não. Antes, o Hino Nacional. Agora, sim. A ex-primeira-dama está visivelmente emocionada. Mas vão dizer que é tudo fingimento. O grilo cínico me sopra no ouvido: “E a Janja?” Toca um pianinho. Tem algo de belo ali. E se tudo o que ouço for mentira e fingimento, paciência. Escolhi preferir a pureza de coração ao cinismo. Bem-aventuranças e tal.

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Michele diz algo interessante. De tanto falarem que não se pode misturar política e religião, a religião foi deixada de lado e o mal tomou conta. Ao que digo eu: o Estado laico virou Estado ateu e aí já viu. Gostaria de ler uma boa discussão sobre isso. Quem se atreve? Michele Bolsonaro recita o Salmo 24 e pede que digam “Amém”. A manifestação se transforma num culto. E eu me pego pensando: “Pelo menos estão dando glória a Deus”.

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Gustavo Gayer fala. Nikolas Ferreira fala. “Talvez nós não vejamos o Brasil prometido, mas os filhos ou os filhos dos nossos filhos verão”, diz. Uau. “Nós não temos o direito de ter menos persistência do que o nosso inimigo”, diz. Uau de novo. O menino é bom. “O presente é deles, mas o futuro será nosso”, conclui. O menino é bom. Magno Malta fala. O discurso adquire um tom assustadoramente apocalíptico.

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Até agora ninguém mencionou o nome de Alexandre de Moraes. Ai de ti, digo eu. E enquanto Magno Malta ainda fala, fico aqui me perguntando o que os ministros do Supremo pensam ao verem essa imagens. Se é que estão assistindo, claro. Duvido que estejam. O iluministro deve estar pensando que é um “espetáculo obscurantista e fundamentalista”. O Xandão deve estar encavalando exclamações em mais uma decisão esdrúxula. Tarcísio de Freitas fala.

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O de Tarcísio é o discurso mais técnico. Com mais ênfase na economia e nos feitos do governo Jair Bolsonaro. Com mais ênfase na importância do Estado. “Você não é mais uma pessoa; você representa um movimento”, diz e eu me lembro de quando Lula disse que já tinha se transformado numa ideia. Malafaia fala. “Eu não vim aqui atacar o Supremo Tribunal Federal”, diz, em seguida anunciando que vai mostrar a “engenharia do mal”. Malafaia menciona a Declaração à Nação e diz que Bolsonaro “fumou o cachimbo da paz”.

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É o discurso mais grave até agora. Malafaia faz todo um arrazoado da história eleitoral e defende o direito a se questionar o pleito – como aconteceu em 2014 com “o PDSB de Alexandre de Moraes”. E fala sobre o 8 de Janeiro. “Escute, escute por favor”, pede. O silêncio da plateia é impressionante. “O sangue de Cleriston está nas mãos de Alexandre de Moraes”, diz.

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Nem acredito que vou dizer isso, mas vou: foi um discurso histórico de Silas Malafaia. Não que vá mudar alguma coisa. Tampouco figurará nos livros escritos por um Élio Gaspari do futuro. Mas que foi histórico, foi. Agora vou deixar de lado o entusiasmo de lado. Porque é hora de Jair Bolsonaro falar. “Meu Deus”, começa ele. Está nervoso. Fala em “Bíblia brasileira e Bíblia cristã”. O ex-presidente está de colete à prova de balas. Fala da facada. Fala da sua história política. Fala dos feitos de seu governo. Fala do agronegócio. Fala da pandemia. Parece campanha eleitoral.

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“Com esta fotografia [a manifestação] mostramos que podemos até ver um time sem torcida ser campeão, mas não entendemos como é possível ter um presidente sem o povo ao seu lado”, diz o ex-presidente. Bolsonaro desfia uma série de princípios e valores associados à direita. Fala em perseguição. “Golpe usando a Constituição?”, pergunta ele, mencionando a famosa minuta. O discurso vira um depoimento de defesa. Será que o Supremo vai ouvir? Ai de ti! Duvido. A maldade é surda à lógica e à razão.

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Bolsonaro fala em pacificação. Dá para ver que ele está se segurando para não mencionar o nome de certas pessoas. Fala em conciliação. Fala em anistia para os condenados pelo 8 de janeiro. Argumenta em causa própria – e não o condeno por isso. “A defesa que eu queria eu já fiz para vocês”, diz Bolsonaro, provando que o colunista estava certo em suas impressões iniciais quanto ao discurso. Bolsonaro agradece a todos. Dá aquele grito de caubói que lhe é característico. Agradece à Polícia Militar e Civil. Até à Guarda Municipal. Mas não à Polícia Federal. “Brasil acima de tudo”, grita e a multidão completa: “Deus acima de todos”.

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Recomeça o tuntitum e lá vou eu publicar este texto.

 

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