"NÃO ACREDITO"
Ufólogo que ajudou a projetar caso ET de Varginha diz que história não existiu
G1
Quase três décadas depois dos relatos de aparecimento de um extraterrestre em Varginha, no Sul de Minas, um dos principais personagens responsáveis por dar projeção nacional ao caso afirma que não acredita mais na história. O ufólogo Ubirajara Rodrigues, que inicialmente sustentou a versão de que as jovens teriam visto um ser de outro planeta, diz que não há qualquer prova de que o episódio tenha ocorrido. “Eu não acredito em mais nada disso”, disse.
Rodrigues não falava mais sobre o assunto desde 2010, quando começou a sinalizar que não via mais materialidade no caso. Após 16 anos, ele quebrou o silêncio e aparece agora no segundo episódio da série documental “O Mistério de Varginha”, que foi exibido nesta quarta-feira (7), na TV Globo.
De defensor a cético
No início das investigações, Ubirajara foi a primeira pessoa a dizer às jovens que o que elas relataram poderia ser um extraterrestre. Na época, a declaração ajudou a fortalecer a narrativa ufológica e deu repercussão nacional e internacional ao caso.
“Cometi o grande erro que os ufólogos cometem. Eu disse a elas que o que elas avistaram, a ufologia, que é um estudo assim, assim, assado, acredita que sejam seres de outros planetas”, disse Ubirajara.
Anos depois, porém, o pesquisador passou a revisar sua própria atuação e afirma que chegou a conclusões diferentes.
“Não cheguei a essa conclusão de uma hora para outra. Ao contrário. São praticamente 30 anos de reflexão. Tendo contato com pessoas do meio acadêmico e relacionar os meus erros, os meus equívocos com sugestões de como mudar e do que buscar realmente, eu tentei aproveitar isso tudo”, disse.
‘Não há provas nem indícios’
Segundo Ubirajara, após anos de estudo e contato com pesquisadores do meio acadêmico, ele concluiu que os relatos existentes não são suficientes para comprovar a presença de uma nave ou criatura de outro planeta em Varginha. Em reportagem divulgada no Fantástico, no ano de 2010, o ufólogo já defendia a tese de que nada tinha sido comprovado.
“A existência de relatos de supostas aparições de objetos voadores não identificados foi rara no caso. Há dezenas de depoimentos de pessoas de diferentes níveis socioculturais, mas eles não são, de maneira alguma, prova de que em Varginha tenha acontecido algo envolvendo uma nave espacial de outro planeta. Não há provas nem indícios disso”, disse Ubirajara Rodrigues na reportagem.
Ubirajara afirma que, ao se posicionar publicamente contra a existência do ET de Varginha, tornou-se persona non grata dentro da ufologia. Segundo ele, a repercussão foi imediata.
“Eu apareci por cerca de dez segundos no Fantástico dizendo que não há qualquer evidência de que em Varginha tenha aparecido uma nave de outro planeta. Ponto. A partir dali, além de me tornar a persona non grata número um da ufologia, passei a ser visto como o maior ‘demônio’ da ufologia nacional”, disse Ubirajara Rodrigues.
Arrependimento e autocrítica
Hoje, o ufólogo afirma que se arrepende de ter dito às jovens que o que elas viram poderia ser um extraterrestre. Segundo ele, esse tipo de afirmação pode influenciar profundamente testemunhas e levá-las a reconstruir a própria memória.
“Nossas crenças podem influenciar as testemunhas, que acabam reconstruindo aquela história e tornando-a crível para elas mesmas. Hoje, por exemplo, se um caso semelhante caísse em minhas mãos, eu jamais faria isso de novo. Jamais cometeria esse erro crasso”, disse Ubirajara.
Ubirajara também passou a questionar os relatos de militares apresentados ao longo dos anos. Segundo ele, os depoimentos teriam sido induzidos ou fabricados dentro de uma lógica da crença ufológica.
“Eu acho que foram depoimentos induzidos, que foram depoimentos fabricados, que foram artificialmente, segundo a crença da ufologia, levados a dizer o que dizem”, disse o ufólogo.
O ufólogo Vitório Pacaccini, que trabalhou com Ubirajara Rodrigues desde o início na investigação do caso e que entrevistou as testemunhas militares que confirmaram a história, diz ter se decepcionado com o colega.
“Claro que me decepcionou muito, não só a mim. Há várias pessoas dentro da ufologia e mesmo os que não estão dentro da ufologia, mas acompanham a pesquisa, também ficaram muito decepcionados”, disse.
Reação das testemunhas
A mudança de posição de Ubirajara teve impacto direto nas mulheres que afirmam ter visto a criatura. Liliane disse que se sentiu abandonada com a reviravolta.
“Fiquei revoltada na época. Eu pensava: ‘por que assim? O que aconteceu? Como uma pessoa destrói tudo?’. Nós nos sentimos abandonadas, porque ele começou a história dizendo para a gente que o que vimos era real, esclarecendo a nossa cabeça. E, depois de 15 anos, demorou tudo isso para dizer que não acreditava mais? Fazer o quê, né?”, disse Liliane de Fátima Silva, uma das testemunhas.
Katia Xavier afirmou que ouvir o pesquisador dizer que a história era mentira a deixou “sem chão” e afetou sua dignidade.
“Isso nos deixou sem chão. Isso foi uma semana, um mês sem dignidade. Nós nos sentimos assim a pior pessoa do mundo. Eu pelo menos, coloco por mim. Porque eu ouvi ele dizendo que aquela história era mentira”, disse Katia.
O ufólogo afirmou no documentário que o que as meninas viram foi um morador da cidade com deficiência intelectual, apelidado de “mudinho”. Essa também foi a conclusão apontada por um Inquérito Policial Militar (IPM) instaurado na época pelo Exército.
O Mistério de Varginha
Ao longo de três episódios, a série documental “O Mistério de Varginha” revisita o caso que ganhou repercussão internacional há 30 anos no Sul de Minas, reunindo depoimentos inéditos, além de documentos, áudios, arquivos históricos e registros oficiais nunca exibidos. A investigação apresenta diferentes versões sobre o que teria acontecido na cidade e confronta relatos que marcaram o episódio.
Entre os entrevistados estão personagens centrais da história, como o ufólogo Ubirajara Rodrigues, o primeiro a investigar o caso. A série aborda a mudança de posição dele ao longo dos anos, já que, depois de defender a existência da suposta criatura, passou a afirmar que ela nunca existiu. O documentário também traz depoimentos de militares, relatos de moradores e a recuperação de materiais jornalísticos da época.
A produção acompanha ainda Kátia, Liliane e Valquíria, conhecidas como as “três meninas do ET”, que relembram o episódio e mostram como estão atualmente. Dirigida por Ricardo Calil e Paulo Gonçalves, a série vai ao ar após O Auto da Compadecida 2 e também ficará disponível no Globoplay, com produção executiva de Fernanda Neves e direção artística de Monica Almeida.



