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EM PRIMAVERA DO LESTE

História de José Nardes inspira gerações com exemplo de perseverança e fé

Muvuca Popular

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As histórias de pessoas que ajudaram a construir o agro mato-grossense não começa em grandes lavouras que hoje impressionam o mundo, mas nascem na simplicidade, na coragem de recomeçar e na determinação inabalável.

A trajetória do produtor de Primavera do Leste, José Nardes, é exatamente assim. Aos 76 anos, o produtor carrega no olhar a experiência de quem viu o Mato Grosso nascer como uma potência agrícola. Natural de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, e filho de produtores rurais, ele cresceu no campo, aprendendo desde cedo que a terra exige compromisso.

“Eu comecei a trabalhar na agricultura com o meu pai, que plantava desde os anos 1970. Depois fui para a faculdade, me formei em agronomia, e aprendi desde cedo a responsabilidade do produtor rural, levantar cedo, trabalhar, e cumprir as nossas obrigações, que não eram poucas. Desde pequeno nós já tínhamos compromisso com a lavoura, com a pecuária, com a lida rural”, relembra.

A base construída na infância moldou o profissional que José Nardes se formou, mas também o caráter do homem que enfrentaria muitos desafios anos depois, como recomeçar do zero em um território praticamente inexplorado. Movido pelo desejo de independência, ele deixou sua estabilidade no Sul para migrar para Mato Grosso em 1982.

Ao lado da esposa, Laura Battisti Nardes, o produtor iniciou uma jornada marcada pela coragem que inspira gerações. Formado em agronomia, José Nardes buscava novos ares em sua carreira. “Quando eu cheguei em Mato Grosso não tínhamos semente de arroz fiscalizada, era só semente branca, e eu como tinha muita prática com semente de arroz no Rio Grande do Sul, eu vim auxiliar os produtores de Paranatinga para vender a semente documentada. Vinha uma vez, duas vezes por mês e voltava, assim foi durante dois anos, e acabei mudando para cá em 1982 para Rondonópolis”.

Estradas de chão, ausência de energia elétrica, falta de comunicação e uma cidade que ainda engatinhava. Primavera do Leste, hoje referência no agro, tinha poucas dezenas de casas. “Era muito difícil, nós não tínhamos um palmo de asfalto, saindo de Cuiabá para cá, até Campo Verde, e depois de Rondonópolis para cá, tudo estrada de chão. E não era só isso, não tínhamos energia, não tínhamos comunicação, Primavera do Leste não tinha telefone, não tinha nada, então era um desafio enorme.”

O início foi duro. Em sua primeira propriedade, viveu sob uma lona preta enquanto abria o cerrado com as próprias mãos. Sem recursos, muitas vezes precisou substituir a falta de dinheiro por trabalho.

“Quando comprei a primeira área de terra, a 50 quilômetros daqui, eu fui morar embaixo de uma lona preta, eu não tenho vergonha do meu passado, com meus funcionários, começando a abrir cerrado, sempre trabalhando na área agronômica, na parte de assistência, mas muito difícil, porque não tinha recursos. Foi uma batalha enorme, nós passamos um período muito ruim, de 1981 até 1998, nós fazíamos só a cultura da soja, colhíamos uns 35, 40 sacos por hectare, e o resto do ano nós ficávamos abrindo cerrado, muitas vezes, sem ter condições de pagar o empregado, nós mesmos trabalhávamos na fazenda”, comenta o produtor.

Mas se houve algo que sustentou essa trajetória, além da determinação, foi a família. Casado há mais de 50 anos, José Nardes reconhece na esposa uma parceria essencial em cada conquista. Foi Laura quem ajudou a manter a estrutura do negócio em momentos mais críticos. “Muitas vezes ela me ajudava financeiramente para pagar os funcionários. Sempre estivemos juntos em tudo.”

Nos primeiros anos, a produção era limitada. A soja rendia pouco, os preços eram baixos e o avanço tecnológico ainda era tímido. Mas o tempo trouxe evolução e com ela, novas oportunidades.

“Teve momentos que pensamos em desistir, mas a vontade de vencer era maior, então tu pensava um pouco e voltava a enfrentar a realidade. Nós vendemos soja até 1998 a 8 dólares e produzimos 40 sacos por hectare no máximo. Então dava no mínimo para se alimentar e sobreviver, não plantavam milho, porque não existia a variedade de milho apropriada para o cerrado. A partir de 2000 começou a plantar milho, colhendo aí 60 sacos por hectare e hoje a gente colhe 160, 170 sacos por hectare na segunda safra”, afirma.

José Nardes não apenas acompanhou a evolução da agricultura mato-grossense, como também fez parte dela, participando ativamente do fortalecimento do setor, ajudando a construir entidades que hoje são pilares do agro mato-grossense, como a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT).

“Eu mudei para a Primavera em 1997, mas nunca perdi o vínculo com Rondonópolis, a ideia surgiu aí e nós começamos a Aprosoja MT em 2005, entre 5 e 6 pessoas, primeiro fazíamos reuniões pequenas e depois ela foi crescendo, foi aumentando. A Aprosoja MT é a entidade que mais trabalha pelo agro, não tem dúvida disso, é a Aprosoja MT a entidade que mais se dedica em defesa ao agricultor.”

Mais do que números, cargos ou conquistas, o maior legado de José Nardes está nas pessoas, na família que construiu e no legado que transmitiu. Sua sucessão aconteceu de forma natural, sem imposições, apenas pelo exemplo. Hoje, a propriedade dele é administrada pelos filhos e netos. Um ciclo que continua, guiado pelos mesmos princípios que começaram décadas atrás.

“A minha família é um orgulho para mim, eu me sinto realizado, feliz. Eu tive uma sucessão tranquila porque eu nunca forcei meus filhos a trabalhar no agro, deixei eles à vontade, ensinei tudo o que eu sei. Hoje quem administra a minha fazenda é o meu filho e o meu neto e a minha neta trabalha comigo no escritório”, diz ele com orgulho.

Ao olhar para seu passado, ele não esconde a satisfação por ter superado a infância simples, perseverado mesmo em meio às dificuldades e, principalmente, por nunca ter desistido. Hoje, com a serenidade de quem construiu uma história sólida, ele deixa uma mensagem que resume não apenas sua trajetória, mas o espírito de tantos produtores que ajudaram a transformar o Mato Grosso.

“A mensagem que eu deixo é que dentro do possível, se você gostar um pouco do agro, venha para o agro, venha ajudar, não existe profissão mais nobre que essa, produzir alimento para as pessoas. Eu sempre falo isso e tenho o maior orgulho de ser produtor rural, eu acho que produzir alimento é uma coisa sagrada, porque ninguém vive sem se alimentar”, finaliza.

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