A tragédia da violência começa quando um menino aprende que controlar é amar
Christiane Indaiá
“Uma agressão extremamente violenta.” Nilson Farias, delegado de Polícia.
Essa declaração resume a causa da morte de Olga Beatriz Santos da Silva, de 12 anos, espancada e asfixiada pelo próprio pai, Claudinei Silva, de 42 anos.
Espancar uma filha de 12 anos porque ela conversava com um menino por rede social não é um ato de disciplina. Não é excesso de cuidado, nem proteção.
Asfixiar uma menina de 12 anos revela sentimento de posse e controle.
Um homem com uma visão distorcida sobre o lugar da mulher no mundo pune fisicamente e mata quando não consegue controlá-la.
É trágico que uma criança tenha morrido, mas também é trágico perceber que ainda existem adultos que confundem autoridade com domínio, proteção com posse e amor com controle.
A educação deixa de formar seres humanos livres para produzir relações marcadas pelo medo quando isso acontece.
Nenhuma criança deveria pagar com a própria vida pelo fato de estar crescendo.
Estamos diante de algo muito profundo e perturbador: o feminicídio de uma menina de 12 anos, brutalmente assassinada por um homem movido por ciúme, misoginia e ignorância intelectual.
Não a falta de escolaridade, mas a incapacidade de compreender o desenvolvimento humano. Isso revela uma inabilidade de enxergar meninas como sujeitos de direitos, desejos e autonomia.
O mais assustador é que essa mentalidade continua sendo alimentada dentro de muitas casas. Se queremos evitar novas tragédias, precisamos ter coragem de fazer uma pergunta incômoda: como estamos educando nossos meninos?
É assustador o modo como ainda aceitamos que muitos meninos sejam criados. Meu testemunho é diário: crianças de cinco, seis ou sete anos reproduzindo discursos machistas, comportamentos de controle e ideias de superioridade masculina que aprenderam observando os adultos ao seu redor.
Quando ensinamos um menino que ele deve dominar em vez de dialogar, controlar em vez de respeitar e impor-se em vez de compreender, não estamos formando força. Estamos cultivando fragilidade emocional disfarçada de masculinidade.
Há pais que acreditam que proteger uma filha significa controlar seus sentimentos, suas amizades, suas roupas, seus passos e, mais tarde, seus relacionamentos, como se a menina fosse uma propriedade cuja “honra” precisasse ser vigiada permanentemente.
A adolescência não é uma doença a ser combatida. O interesse afetivo, a curiosidade pelo outro e a descoberta das próprias emoções fazem parte do processo natural de crescimento. Educar não significa eliminar essas experiências, mas ensinar responsabilidade, respeito e discernimento para vivê-las.
Quando adultos trocam diálogo por violência, orientação por vigilância e educação por controle, deixam de formar seres humanos para tentar fabricar obediência.
E, toda vez que a obediência vale mais do que a vida, a sociedade precisa se perguntar o que realmente estamos ensinando sobre amor, autoridade e educação dentro de nossas próprias casas.
Precisamos, urgentemente, mudar a criação dos nossos meninos, se quisermos diminuir efetivamente esse tipo de notícia.
É urgente criar meninos emocionalmente fortes e capazes de lidar com suas emoções de forma saudável. Habilitados para entender que mulheres não são objetos de seus desejos e vontades. Homens que valorizem e reconheçam a individualidade e as aspirações do feminino.
Homens capazes de lidar com a própria insegurança sem transformar meninas e mulheres em suspeitas, culpadas ou propriedades pelo simples fato de serem quem são.
Uma sociedade mais segura para mulheres, crianças e adolescentes não será construída apenas com leis mais duras. Ela começará quando decidirmos educar nossos meninos para a empatia, para o respeito à autonomia do outro e para a compreensão de que amor nunca foi sinônimo de posse.
Toda vez que um menino aprende que controlar é amar, meninas e mulheres correm perigo.
Aproveito para fazer um apelo: denunciem a violência contra crianças e adolescentes.
O Disque 100 garante anonimato, e basta a suspeita de agressão para que a denúncia seja apurada. O 190, da Polícia Militar, também pode ser acionado.
Os números do Conselho Tutelar de Cuiabá são: (65) 99206-6741 e (65) 99217-7873. O órgão está localizado na Avenida Getúlio Vargas, 977. Em Várzea Grande, os números são: (65) 3688-3087, da unidade Centro, e (65) 3688-3608, da unidade Cristo Rei.
Sejamos instrumentos para a construção de uma sociedade mais segura para todos.
*Christiane Indaiá: graduada em Letras – Português, Inglês e Literatura – UNIVALE (Universidade Vale do Rio Doce), professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II), experiência em preparatório para o FCE Cambridge Exam, certificada Cambridge e pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas.


