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A cirurgia plástica que não quer ser percebida

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Durante quase duas décadas, a cirurgia plástica foi orientada por uma lógica quase sempre associada ao acréscimo. Próteses maiores, mais volume na mama, mais preenchimento na face, maior contorno corporal, glúteos: o êxito de um procedimento costumava ser medido por sua visibilidade, pelo contraste nítido entre o antes e o depois. Esse parâmetro começou a se deslocar, e o sinal mais concreto dessa mudança aparece justamente onde antes se somava. Em 2024, mais de 42 mil brasileiras removeram próteses de silicone, o maior número em onze anos. O dado não descreve uma moda passageira, e sim uma inversão de tendência.

Convém separar as motivações, porque não são da mesma natureza. Parte da procura é estritamente clínica: contratura capsular, ruptura do implante e desconforto físico associado ao peso são indicações médicas objetivas, que exigem avaliação criteriosa e individual. O explante é cirurgia de grande porte e carrega os riscos correspondentes. Não se trata de uma decisão tomada por impulso.

Outra parte da procura, porém, não decorre de complicação. Vem de pacientes que revisaram o que esperam da própria aparência, e é essa parcela que explica o fenômeno que ultrapassa a esfera médica e diz respeito à estética do momento.

E há, nisso, um ponto que só quem opera enxerga de dentro: devolver o natural custa mais do que acrescentá-lo. Retirar uma prótese raramente se resume a removê-la. A mama que a abrigou por anos precisa ser reposicionada e, com frequência, reconstituída com a gordura da própria paciente, para que o retorno ao natural não se converta em retorno ao vazio. Restaurar exige do cirurgião mais do que ampliar exigia. E o resultado, quando bem conduzido, carrega um mérito silencioso: não se deixa reconhecer como cirurgia.

Esse mesmo deslocamento, que principiou na mama, alcançou o rosto, e talvez seja nele que se torne mais visível.

O rejuvenescimento facial também foi governado, por muito tempo, pela lógica de somar. Rejuvenescer era preencher, repor volume ponto a ponto até restituir à face o que o tempo havia subtraído. Bem dosado, o preenchimento cumpre um papel legítimo. Levado ao excesso, entrega o oposto do que promete: um rosto cheio, porém alheio a si, que denuncia a intervenção antes de revelar a pessoa. O paciente de hoje reconhece esse efeito à distância e já não o quer. Não busca um rosto refeito. Busca um rosto que pareça descansado.

Atender a esse pedido impôs outra técnica. Em vez de sobrepor material estranho, trata-se de recuperar a arquitetura que já é do paciente: reposicionar os planos profundos da face, como faz o lifting em plano profundo, e restituir volume com a própria gordura, pela lipoenxertia. É, no rosto, o mesmo princípio da mama, operar a favor do que pertence à pessoa, não contra. Nos dois casos, a naturalidade é o que se obtém fazendo com mais critério e técnica.

Talvez seja essa a reconciliação que faltava. Durante anos, pedimos à cirurgia plástica que deixasse marcas, provas visíveis de que algo havia sido feito. Hoje se pede o contrário: que ela devolva ao corpo uma versão que pareça, apenas, a melhor de si mesmo. Não é menos técnica. É a técnica no seu grau mais exigente: aquele que trabalha para desaparecer.

* Dr. Vidal Guerreiro é cirurgião plástico (CRM-MT 7056 / RQE 2799), mestre em Cirurgia Plástica pela Unifesp e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Presidiu a Regional Mato Grosso da SBCP em duas gestões e é pioneiro na realização do Deep Plane Facelift em Mato Grosso, técnica considerada uma das maiores evoluções da cirurgia de rejuvenescimento facial por proporcionar resultados mais naturais. Em 2025, inaugurou, ao lado da esposa, Fabiane, a Clínica Ária, no bairro Santa Rosa, em Cuiabá.

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