Vereadores de Várzea Grande teriam assinado cartas de renúncia ao mandato como garantia de apoio à eleição de Wanderley Cerqueira (MDB) para a presidência da Câmara. Segundo uma testemunha ouvida pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), os documentos foram posteriormente utilizados para pressionar parlamentares a manter os votos na reeleição do presidente, realizada em maio de 2026.
“As gravações e as cartas de renúncia anteriormente assinadas teriam sido posteriormente utilizadas como instrumentos de constrangimento e pressão política”, descreve o Gaeco no pedido de busca e apreensão que embasou a Operação Cathedra Venalis, deflagrada ontem, terça-feira (20).
O relato foi prestado por uma testemunha que pediu a preservação de sua identidade. Conforme o documento, as cartas teriam sido assinadas durante uma reunião na virada de 2024 para 2025, em uma chácara atribuída ao vereador Miguel Júnior, no Distrito da Guia, em Cuiabá.
Na ocasião, segundo a testemunha, os parlamentares discutiram o apoio à eleição de Wanderley para o primeiro biênio, correspondente a 2025 e 2026. A assinatura das cartas de renúncia teria sido exigida como forma de assegurar o cumprimento dos votos acordados.
Os documentos voltariam a ser utilizados na articulação pela reeleição de Wanderley para o biênio seguinte. De acordo com o relato reunido pelo Gaeco, as cartas, associadas a supostas gravações clandestinas, serviriam para constranger vereadores que cogitassem romper com o grupo ou votar em outro candidato.
Na decisão de 7 de outubro que autorizou medidas de investigação, o juiz Cássio Leite de Barros Netto mencionou o relatório da testemunha com identidade protegida. Ao relacionar os elementos apresentados pelo Ministério Público, o magistrado registrou a suspeita de retenção de cartas de renúncia em branco e de utilização de gravações clandestinas para extorquir e chantagear parlamentares resistentes às orientações do grupo.
A investigação também recebeu relatos de possíveis represálias contra vereadores que se afastaram politicamente de Wanderley ou manifestaram oposição à sua reeleição. Entre as práticas narradas estão ameaças, exonerações de servidores indicados.
Operação do Gaeco
A suspeita sobre o uso das cartas integra a Operação Cathedra Venalis, que apura possível compra de votos, corrupção e atuação de uma organização criminosa na disputa pelo comando da Câmara de Várzea Grande.
A eleição realizada em 14 de maio terminou com a reeleição de Wanderley por 12 votos a 11. O resultado foi posteriormente anulado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Conforme a representação do Gaeco, as cartas teriam funcionado como um instrumento para preservar o apoio político ao presidente e assegurar a continuidade do grupo no controle do Legislativo. As circunstâncias das assinaturas e a eventual utilização dos documentos para coagir parlamentares permanecem sob investigação.
Foram alvos os vereadores de Várzea Grande:
- Wanderley Cerqueira;
- Cilço da Cruz Filho, o Cilcinho;
- Braz Jaciro Ferreira de França;
- Alecsand Moreira da Silva, conhecido como Alessandro Moreira;
- Wender Silva Campos Madureira dos Santos, o Wender Madureira;
- Denival Rodrigues Galibert, o Sargento Galibert;
- Miguel Angel Claros Paz Júnior, o Dr. Miguel Júnior;
- Lucélia de Oliveira Moreira;
- Gisele Aparecida de Barros, a Gisa Barros;
- Kleberton Feitoza Eustáquio;
- Raul Coelho Curvo;
- Emerson Cezar de Campos Magalhães, o Enfermeiro Emerson;
- Rogério França Martins, o Rogerinho Dakar.
Em Cuiabá, os vereadores:
- Ildefonso Taques de Lucena Filho, o Ilde Taques;
- Alex Rodrigues.














