Gravações clandestinas, cartas de renúncia e ameaças de exposição pública teriam sido usadas pelo presidente da Câmara Municipal de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira (MDB), para pressionar vereadores e garantir apoio à sua reeleição no comando do Legislativo. A suspeita consta na investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que desencadeou a Operação Cathedra Venalis para apurar um suposto esquema de corrupção, compra de votos e organização criminosa.
Conforme os documentos da investigação, o gabinete de Wanderley teria sido preparado para registrar conversas e encontros com parlamentares sem que eles soubessem que estavam sendo filmados. O objetivo seria produzir imagens de vereadores supostamente aceitando propostas financeiras em troca de apoio político e, posteriormente, utilizar esse material como instrumento de pressão.
O inquérito aponta ainda que o presidente da Câmara teria obtido assinaturas de cartas de renúncia de parlamentares. Esses documentos, associados às gravações, poderiam ser usados para constranger vereadores e influenciar suas decisões políticas, inclusive na disputa pela Mesa Diretora. A suspeita de utilização de vídeos para intimidar parlamentares também aparece em relatos envolvendo o vereador Kleberton Feitoza (PSB), que, segundo a investigação, teria recorrido a gravações para pressionar colegas.
Um dos casos mencionados é o da vereadora Rosi Prado (União Brasil), que registrou boletim de ocorrência relatando ameaças. Segundo as informações reunidas, ela temia a divulgação de vídeos e de informações que pudessem comprometer sua imagem. O vereador Caio Cordeiro (Novo) também relatou ao Gaeco ter sido alvo de intimidação. Em depoimento, afirmou que recebeu ameaças de divulgação de uma suposta gravação na qual apareceria recebendo dinheiro de Wanderley Cerqueira.
Caio disse que havia realizado empréstimos pessoais com o presidente da Câmara, mas suspeitava que essas transações tivessem sido registradas e pudessem ser apresentadas fora de contexto para prejudicá-lo.
O parlamentar também relatou possíveis retaliações após comunicar que não apoiaria a recondução de Wanderley à presidência. Entre os episódios mencionados estão a exoneração de servidores indicados por ele e ameaças que, segundo seu relato, poderiam atingir sua reputação.
A pressão, conforme o depoimento, teria alcançado também sua atividade profissional como jornalista. Caio afirmou que seu afastamento da TV Cidade Verde teria ocorrido em razão de sua posição contrária à reeleição do presidente da Câmara.
Os investigadores também reuniram relatos de outros parlamentares que alegam ter enfrentado constrangimentos e represálias após romperem politicamente com o grupo ligado à presidência do Legislativo. As denúncias incluem exonerações de servidores, ameaças e tentativas de interferir no posicionamento dos vereadores.
A Operação Cathedra Venalis foi deflagrada na terça-feira (20), com o cumprimento de 30 mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães.
Além de Wanderley Cerqueira, estão entre os alvos os vereadores Rogerinho da Dakar (PSDB), Raul Curvo (Republicanos), Gisa Barros (Podemos), Cilcinho (PV), Braz Jaciro (PSDB), Alessandro Moreira (MDB), Wender Silva (Republicanos), Denival Galibert (PSB), Miguel Angel (Cidadania), Lucélia Oliveira (Agir), Kleberton Feitoza (PSB) e Emerson Cesar (PP).
A investigação também alcança a diretora financeira da Câmara, Lorineide Aparecida Trindade Inha, conhecida como Lori, e o secretário legislativo Samir Japonês (PL).
Em Cuiabá, os vereadores Ilde Taques e Alex Rodrigues, ambos do Podemos, também figuram entre os investigados. O Gaeco apura se houve negociação de votos, oferta de vantagens indevidas e utilização de mecanismos de intimidação para interferir na eleição da Mesa Diretora de Várzea Grande. As suspeitas ainda dependem do avanço das diligências e da análise das provas para que sejam esclarecidas as responsabilidades individuais.














