Receber a notícia de que um câncer de pele foi removido com sucesso representa uma conquista para qualquer paciente. Entretanto, existe um equívoco que considero preocupante: acreditar que a retirada do tumor significa o fim dos cuidados dermatológicos. A cura de uma lesão não elimina os fatores que favoreceram seu surgimento. Por isso, defendo que o acompanhamento médico deve continuar mesmo quando não há qualquer sinal aparente da doença.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima aproximadamente 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Nesse cenário, os tumores de pele ocupam uma posição de destaque. Mais do que tratar a doença, precisamos compreender que a prevenção de novos episódios é parte indispensável do cuidado.
A explicação é simples: o tumor pode desaparecer, mas os danos acumulados pela exposição solar permanecem. A predisposição genética também continua presente. Estudos indicam que um em cada três pacientes com histórico de carcinoma de pele pode desenvolver outra lesão nos cinco anos seguintes. Portanto, o primeiro diagnóstico precisa funcionar como um alerta permanente.
É importante distinguir duas situações: a recidiva, quando o câncer retorna ao local tratado, e o surgimento de um novo tumor em outra região. Ambas exigem atenção. Mesmo após uma cirurgia bem-sucedida, não existe garantia absoluta de que a doença jamais voltará.
A medicina dispõe de recursos para reduzir esses riscos. Em determinados casos de carcinoma basocelular, a cirurgia convencional apresenta taxas de recidiva próximas de 10% em cinco anos, enquanto a cirurgia micrográfica de Mohs pode reduzir esse percentual para cerca de 1%. A técnica permite analisar integralmente as margens cirúrgicas, mas sua indicação depende das características de cada tumor.
Ainda assim, nenhuma técnica substitui a vigilância posterior. O dermatologista consegue identificar, com auxílio do dermatoscópio, alterações que muitas vezes passam despercebidas, inclusive em regiões como couro cabeludo, costas e orelhas.
A periodicidade das consultas deve respeitar o diagnóstico. Pacientes com carcinoma basocelular costumam retornar a cada seis a 12 meses. No espinocelular, o acompanhamento pode ocorrer a cada três a seis meses nos primeiros cinco anos. Já no melanoma, o estágio da doença determina a frequência das avaliações.
Também considero indispensável combater a ideia de que uma lesão só merece atenção quando provoca dor. Muitos tumores evoluem silenciosamente. Feridas que não cicatrizam, manchas que mudam de aparência, sangramentos e alterações na cicatriz precisam ser examinados. Adiar a avaliação pode transformar um procedimento simples em uma cirurgia extensa, com consequências para a saúde e a qualidade de vida.
A proteção solar também precisa se tornar um compromisso permanente. Recomendo o uso diário de filtro de amplo espectro, preferencialmente com FPS 50 ou superior, associado a chapéus, roupas de proteção e cuidados com a exposição entre 10h e 16h. O bronzeamento artificial deve ser evitado.
Minha posição é clara: abandonar o acompanhamento após a retirada de um câncer de pele significa renunciar a uma oportunidade de prevenção e diagnóstico precoce. Não devemos esperar que a doença apresente sintomas para agir.
A consulta de retorno não representa desconfiança da cura. Representa responsabilidade com a saúde. Afinal, vencer o primeiro tumor é uma conquista, mas preservar esse resultado exige atenção contínua.
*Carlos Alberto Bruno é dermatologista especializado em cirurgia micrográfica de Mohs.














