Conta-se a história de um menino que queria crescer rápido. Ao observar os adultos trabalhando, acreditava que a vida começava quando se conseguia um emprego, recebia um salário e assumia responsabilidades. O que ele ainda não compreendia era que, antes de tudo isso, existia uma etapa igualmente importante: o tempo de aprender, estudar, desenvolver valores e construir o caráter que o acompanharia por toda a vida.
Essa história simples nos ajuda a refletir sobre uma data que, para muitos brasileiros, é lembrada principalmente pelo Dia dos Namorados. No dia 12 de junho, o comércio ganha movimento, as vitrines recebem destaque e milhões de pessoas celebram seus relacionamentos. Mas existe uma segunda reflexão associada a essa mesma data que merece nossa atenção: o Dia Mundial e Nacional de Combate ao Trabalho Infantil.
Como diretor financeiro da Fundação CDL, tenho a oportunidade de acompanhar iniciativas voltadas ao desenvolvimento de jovens e à preparação para o primeiro emprego. E essa experiência reforça uma convicção cada vez mais clara: o debate sobre o trabalho infantil não deve começar pelo trabalho. Deve começar pela formação humana.
Há mais de dois mil anos, Aristóteles ensinava que uma sociedade justa é aquela capaz de criar condições para que as pessoas desenvolvam plenamente suas potencialidades. Em outras palavras, uma boa sociedade não é apenas aquela que gera riqueza, mas aquela que forma cidadãos preparados para exercer suas responsabilidades com liberdade, virtude e propósito.
Essa reflexão continua extremamente atual. Existe um tempo para aprender e um tempo para ensinar. Existe um tempo para ser cuidado e um tempo para cuidar. Existe um tempo para estudar e um tempo para trabalhar. Quando respeitamos essas etapas, ajudamos crianças e adolescentes a desenvolverem as competências necessárias para enfrentar os desafios da vida adulta. Quando as antecipamos, muitas vezes comprometemos oportunidades que dificilmente poderão ser recuperadas no futuro.
Por isso, combater o trabalho infantil não significa afastar os jovens do mundo do trabalho. Significa garantir que sua entrada aconteça no momento adequado, de forma protegida, orientada e compatível com seu desenvolvimento. Essa é uma responsabilidade compartilhada entre famílias, escolas, empresas, poder público e organizações da sociedade civil.
É justamente nesse espaço que a Fundação CDL busca contribuir. Por meio do programa Capacita Jovens, trabalhamos para aproximar adolescentes e jovens do mercado de trabalho de forma responsável, oferecendo orientação, desenvolvimento e preparação para o primeiro emprego. Mais do que ensinar habilidades técnicas, buscamos fortalecer competências que acompanharão esses jovens por toda a vida: disciplina, responsabilidade, comunicação, trabalho em equipe e visão de futuro.
Porque o primeiro emprego não começa quando alguém assina um contrato. Ele começa quando um jovem passa a acreditar em seu potencial. Começa quando uma família incentiva seus sonhos. Começa quando uma escola desperta sua curiosidade. Começa quando uma empresa decide investir na formação de novos talentos. E começa quando uma comunidade compreende que preparar seus jovens é uma das formas mais inteligentes de investir no próprio futuro.
Neste 12 de junho, enquanto celebramos os laços que unem as pessoas, vale lembrar também do compromisso que une toda a sociedade: oferecer às novas gerações oportunidades para aprender, crescer e construir seu próprio caminho. Afinal, uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não é aquela que exige mais cedo de suas crianças. É aquela que prepara melhor seus jovens para quando chegar a hora de trabalhar.
Porque, como nas coisas mais importantes da vida, existe um tempo certo para cada coisa.
*José Leão Portela é Diretor Financeiro da Fundação CDL.


