VIOLÊNCIA
Facções deixaram de viver só do tráfico e avançaram para o interior, aponta Atlas da Violência
Muvuca Popular
As facções criminosas deixaram de ser organizações sustentadas quase exclusivamente pelo tráfico de drogas e passaram a atuar como estruturas cada vez mais complexas, com atuação em diferentes mercados ilegais e presença crescente em cidades do interior do país. A transformação é apontada pelo Atlas da Violência 2026, que descreve uma mudança no perfil do crime organizado brasileiro e alerta para um desafio cada vez maior às forças de segurança.
O diagnóstico ajuda a explicar um fenômeno observado nos últimos anos em estados como Mato Grosso, onde operações policiais deixaram de se concentrar apenas na Capital e passaram a alcançar municípios de diferentes portes. A expansão territorial das facções, segundo o levantamento, deixou de ser uma característica restrita às grandes metrópoles e passou a atingir regiões estratégicas do interior.
Durante décadas, o tráfico de cocaína foi considerado a principal fonte de financiamento dessas organizações. Hoje, porém, essa realidade mudou. O Atlas aponta que essa atividade representa cerca de 10% da receita das facções. O restante do dinheiro é obtido por meio de uma série de negócios ilícitos que vão do contrabando de cigarros e combustíveis ao garimpo ilegal, fraudes eletrônicas, lavagem de dinheiro e outros mercados clandestinos.
Na avaliação dos pesquisadores, essa diversificação tornou as organizações criminosas mais resistentes às ações de repressão. Com diferentes fontes de receita, as facções conseguem reduzir a dependência de um único mercado e ampliar a capacidade de investimento, recrutamento e expansão territorial.
Essa nova dinâmica também mudou a forma como esses grupos ocupam o território brasileiro. Se antes a disputa estava concentrada nas grandes capitais, hoje ela alcança municípios de médio e pequeno porte, principalmente aqueles localizados em corredores logísticos, áreas de fronteira ou regiões com forte circulação de mercadorias. O objetivo deixou de ser apenas controlar pontos de venda de drogas e passou a incluir o domínio de rotas estratégicas e atividades econômicas ilegais.
Embora o Atlas faça uma análise nacional, o cenário descrito dialoga diretamente com Mato Grosso. O estado possui uma das maiores faixas de fronteira do país com a Bolívia e ocupa posição estratégica entre as regiões Centro-Oeste, Norte e Sudeste, tornando-se um corredor importante para o transporte de drogas, armas e mercadorias ilegais.
Nos últimos anos, operações da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) passaram a revelar uma presença cada vez mais estruturada das facções em cidades do interior mato-grossense. Investigações apontam que esses grupos mantêm divisão de funções entre seus integrantes, utilizam sistemas próprios de comunicação e expandem a atuação para diferentes tipos de crimes, muito além do tráfico de entorpecentes.
O Atlas observa que essa transformação dificulta o enfrentamento ao crime organizado. Segundo o estudo, a prisão de integrantes continua sendo importante, mas já não é suficiente para enfraquecer essas estruturas. Os pesquisadores defendem que o combate também alcance os mecanismos de financiamento, os esquemas de lavagem de dinheiro e o patrimônio acumulado pelas organizações criminosas.
Outro ponto destacado pelo levantamento é que a expansão das facções acompanha a busca por novas oportunidades de lucro. À medida que ampliam o controle sobre territórios, esses grupos passam a explorar diferentes mercados ilegais e aumentam a influência sobre economias locais, consolidando um modelo de atuação que vai muito além da violência armada.
Em Mato Grosso, essa mudança ajuda a entender por que cidades que, há poucos anos, raramente apareciam no noticiário policial hoje se tornaram palco de operações contra organizações criminosas. O avanço para o interior deixou de ser uma tendência para se transformar em um dos principais desafios enfrentados pelas forças de segurança no estado.


