Imagine uma menina de oito anos perguntando aos pais por que ninguém quer ser amiga dela. Não há monstros, nem grandes tragédias. Apenas uma criança tentando entender por que não consegue pertencer.
Essa é uma das perguntas mais dolorosas que um pai ou uma mãe pode ouvir. Curiosamente, ela não foi feita em um consultório nem em uma escola. Foi feita em um filme infantil.
A menina é Bonnie, protagonista de Toy Story 5.
No novo filme, quem ocupa o centro da história é Bonnie, herdeira dos brinquedos de Andy, agora com oito anos de idade.
Logo nas primeiras cenas, ela pergunta aos pais por que ninguém quer ser sua amiga, por que não consegue fazer amigos. É nesse momento que, para mim, o filme realmente começa; não para as crianças, mas para nós, adultos.
Fiquei imaginando a angústia de um pai ou de uma mãe assistindo a essa cena ao lado do filho. Porque o filme consegue capturar uma das maiores inquietações do nosso tempo: a infância sendo progressivamente inserida no mundo digital.
O mais interessante é que essa discussão acontece em duas camadas: Bonnie ganha um tablet, o Livy Pad, e percebe que, para se integrar ao grupo de meninas da escola, precisa participar do mesmo jogo que elas.
A tecnologia deixa de ser apenas um objeto e passa a ser uma espécie de passaporte para o pertencimento. As amizades deixam de acontecer na convivência presencial e passam a depender da conexão com o ambiente digital.
Ao mesmo tempo, os próprios brinquedos começam a questionar seu futuro.
Eles percebem que os brinquedos digitais podem tornar seu papel obsoleto. Só que nenhum brinquedo tecnológico conseguiu substituir aquilo que brinquedos reais sempre fizeram: estimular a imaginação, o convívio real e as brincadeiras. Aspectos que desaparecem quando a tecnologia entra em cena.
É uma metáfora poderosa sobre a automação e sobre o medo de sermos substituídos pela tecnologia em nossos postos de trabalho.
Mas, para mim, esse não é o centro da história.
O verdadeiro cerne do filme está no desespero silencioso de qualquer adulto consciente que percebe uma criança desejando entrar cada vez mais cedo nas redes sociais para conseguir pertencer a um grupo.
Essa preocupação já deixou de ser apenas uma inquietação de pais, mães e educadores. Ela passou a orientar decisões em diferentes partes do mundo.
Em 2024, a Austrália aprovou uma lei proibindo o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. O Reino Unido também anunciou medidas para ampliar a proteção das crianças no ambiente digital. No Brasil, o ECA Digital entrou em vigor em março deste ano.
Ao mesmo tempo, grandes empresas de tecnologia, como Meta, TikTok e YouTube, enfrentam ações judiciais em diversos países.
Entre as principais discussões está o uso de mecanismos desenvolvidos para manter os usuários conectados pelo maior tempo possível. Esses recursos são, segundo muitos especialistas, semelhantes ao funcionamento de sistemas de recompensa utilizados em jogos de azar.
Quando aplicados ao público infantil, esses mecanismos levantam preocupações sobre seus impactos no desenvolvimento emocional, cognitivo e social.
Esses movimentos mostram que a pergunta já não é mais se a tecnologia faz parte da infância. Ela faz. A verdadeira discussão é: como proteger o desenvolvimento das crianças em um ambiente digital criado para disputar permanentemente sua atenção?
É justamente essa pergunta que Toy Story 5 coloca diante de nós.
Embora o filme apresente uma crítica importante ao excesso de digitalização da infância, ele também é um produto da própria indústria do entretenimento digital. Isso faz com que sua crítica encontre limites.
Ainda assim, acredito que vale muito a pena assistir. Não apenas pela história, mas pelas perguntas que nos obriga a fazer sobre a infância que estamos construindo e sobre o lugar que a tecnologia passou a ocupar na formação das novas gerações.
Porque, no fim, Toy Story 5 não fala apenas de brinquedos.
Ele fala sobre crianças.
E, quando um filme infantil nos faz refletir sobre o tipo de adultos que estamos ajudando a formar, estamos diante de uma história que vale a pena ser assistida.
Fontes: O Globo
CNN Brasil
Ministério da Justiça e Segurança Pública
Christiane Indaiá
Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas


